Canela pode beneficiar memória e aprendizado: o que mostram as evidências

Canela pode beneficiar memória e aprendizado: o que mostram as evidências

A canela é tradicionalmente utilizada na alimentação, mas seus compostos bioativos vêm despertando interesse científico por possíveis efeitos sobre diferentes funções do organismo. Entre as áreas investigadas está a saúde cerebral, uma vez que estudos experimentais sugerem que a canela e seus componentes podem influenciar processos relacionados à memória, ao aprendizado e à função cognitiva.

Uma revisão sistemática recente reuniu as evidências disponíveis sobre essa relação e avaliou especificamente os efeitos da canela e de seus principais compostos bioativos sobre memória e aprendizado.


Revisão avaliou mais de 2.600 estudos

Para investigar o potencial da canela sobre a função cognitiva, pesquisadores realizaram uma busca sistemática nas bases PubMed, Scopus, Google Scholar e Web of Science.

Inicialmente, 2.605 estudos foram identificados. Após a aplicação dos critérios de seleção, 40 estudos foram incluídos na revisão sistemática.

Os trabalhos avaliados utilizaram diferentes modelos experimentais e analisaram tanto a canela propriamente dita quanto alguns de seus principais componentes, incluindo eugenol, cinamaldeído e ácido cinâmico.


Canela apresentou efeitos positivos sobre a função cognitiva

Nos estudos in vivo, a utilização da canela ou de seus compostos bioativos foi associada a alterações positivas em parâmetros relacionados à memória e ao aprendizado.

Os resultados sugerem que diferentes componentes da canela podem atuar sobre mecanismos envolvidos na função cerebral, o que levanta a possibilidade de que o alimento e seus constituintes apresentem propriedades neuroprotetoras.

Outro aspecto interessante foi observado nos estudos in vitro. A adição de canela ou cinamaldeído aos meios celulares foi capaz de reduzir a agregação das proteínas tau e β-amiloide, além de aumentar a viabilidade celular.

A agregação anormal dessas proteínas é frequentemente investigada em processos relacionados à neurodegeneração, tornando esses achados relevantes para pesquisas que buscam novas estratégias para preservar a função cerebral.


Eugenol, cinamaldeído e ácido cinâmico estão entre os compostos estudados

A canela apresenta uma composição complexa e seus possíveis efeitos sobre o sistema nervoso não parecem depender necessariamente de um único composto.

Entre os componentes avaliados na literatura estão:

  • Cinamaldeído: um dos principais compostos característicos da canela, associado a efeitos sobre parâmetros cognitivos em modelos experimentais;
  • Eugenol: composto fenólico com propriedades bioativas investigado em diferentes modelos de função cerebral;
  • Ácido cinâmico: outro constituinte da canela estudado por seu possível papel na proteção neuronal.

A presença desses diferentes compostos pode ajudar a explicar por que os estudos avaliam tanto o extrato ou a canela quanto seus componentes isoladamente.


Os efeitos foram observados independentemente da dose?

Um dos pontos destacados pelos pesquisadores foi que os resultados positivos observados não apresentaram uma relação clara com a dose.

Isso significa que, dentro dos modelos analisados, tanto doses mais baixas quanto doses mais elevadas de canela foram associadas a efeitos positivos sobre os parâmetros avaliados.

Entretanto, esse achado deve ser interpretado com cautela. A ausência de uma relação dose-resposta nos estudos reunidos não significa que qualquer quantidade de canela produza o mesmo efeito em humanos. Além disso, os estudos incluídos apresentaram diferentes modelos experimentais, formas de administração e condições de avaliação.


O que os resultados significam para a saúde cognitiva?

Os resultados da revisão são interessantes porque apontam para diferentes mecanismos pelos quais a canela e seus compostos poderiam influenciar a função cerebral.

A melhora de parâmetros relacionados à memória e ao aprendizado observada nos modelos experimentais, associada à redução da agregação de tau e β-amiloide e ao aumento da viabilidade celular em estudos in vitro, sustenta a hipótese de um possível efeito neuroprotetor.

Porém, é importante diferenciar resultados experimentais de evidências clínicas. A maior parte das evidências reunidas nessa revisão é proveniente de estudos in vivo e in vitro, portanto ainda não é possível afirmar que o consumo ou a suplementação de canela previna ou trate doenças neurodegenerativas em seres humanos.


Conclusão do estudo

A revisão sistemática indica que a canela e seus principais compostos bioativos apresentam potencial para melhorar parâmetros relacionados à memória e ao aprendizado, além de demonstrar efeitos sobre mecanismos celulares relacionados à neurodegeneração.

Os autores destacam que a maioria dos estudos avaliados aponta para um possível papel da canela na prevenção ou redução do comprometimento cognitivo. Entretanto, são necessários estudos clínicos adicionais para determinar se esses efeitos observados em modelos experimentais também podem ser reproduzidos em seres humanos.


Relevância para a prática magistral

Para a Farmácia de Manipulação, a canela apresenta interesse como insumo de origem vegetal dentro de estratégias voltadas à saúde cognitiva e ao envelhecimento saudável.

Os resultados são particularmente relevantes para formulações que tenham como objetivo explorar compostos bioativos associados à proteção neuronal. Entretanto, a evidência disponível ainda não permite extrapolar os resultados experimentais para uma indicação terapêutica da canela em doenças neurodegenerativas.

A canela, seus extratos e seus constituintes bioativos permanecem, assim, como candidatos interessantes para futuras pesquisas que investiguem estratégias nutricionais e magistrais voltadas à preservação da função cognitiva.

 

Bibliografia consultada:

Nakhaee S; et al. Cinnamon and cognitive function: a systematic review of preclinical and clinical studies. Nutritional Neuroscience, 2023.

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