Os diuréticos tiazídicos estão entre os medicamentos mais prescritos para o tratamento da hipertensão arterial, especialmente em pacientes idosos. Apesar de sua eficácia e amplo histórico de uso, um grande estudo populacional canadense sugere que a exposição prolongada a essa classe de medicamentos pode estar associada ao aumento do risco de alguns tipos de câncer de pele.
A pesquisa observou que o uso cumulativo de diuréticos tiazídicos, incluindo a hidroclorotiazida, esteve relacionado a uma maior incidência de carcinoma de queratinócitos e melanoma, reforçando a importância da fotoproteção em pacientes que utilizam esses medicamentos por longos períodos.
Como o estudo foi realizado?
Pesquisadores canadenses analisaram dados de pacientes da província de Ontário que receberam medicamentos anti-hipertensivos entre 1998 e 2016.
Inicialmente foram identificados 2.630.056 pacientes. Após a exclusão de indivíduos com fatores que poderiam interferir nos resultados — como uso de medicamentos fototóxicos, imunossupressores, histórico prévio de câncer de pele ou transplante de órgãos — permaneceram 302.634 pacientes expostos aos anti-hipertensivos.
Esse grupo foi comparado com 605.268 indivíduos controles, pareados por características semelhantes, mas que não utilizavam medicamentos anti-hipertensivos.
Quais foram os resultados?
Após o ajuste para fatores como idade, sexo, localização geográfica e condição socioeconômica, os pesquisadores observaram que o aumento da exposição aos diuréticos tiazídicos esteve associado ao aumento do risco de câncer de pele.
Os principais achados foram:
- aumento de até 44% no risco de carcinoma de queratinócitos;
- aumento de até 60% no risco de melanoma;
- associação também com maior ocorrência de carcinoma de queratinócitos em estágios mais avançados.
Em contrapartida, outras classes de anti-hipertensivos avaliadas no estudo, como:
- inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA);
- betabloqueadores;
não apresentaram associação com aumento do risco de câncer de pele.
Qual seria o mecanismo envolvido?
Embora o mecanismo ainda não esteja completamente esclarecido, a principal hipótese envolve a fotossensibilização induzida pelos diuréticos tiazídicos.
Segundo os pesquisadores, esses medicamentos podem aumentar a sensibilidade da pele à radiação ultravioleta (UV), favorecendo danos celulares decorrentes da exposição solar ao longo dos anos.
Essa combinação entre fotossensibilidade e exposição crônica ao sol pode contribuir para o desenvolvimento de lesões cutâneas malignas em indivíduos suscetíveis.
O que esses resultados significam para a prática clínica?
Os autores ressaltam que os benefícios dos diuréticos tiazídicos no controle da hipertensão arterial permanecem amplamente estabelecidos.
Dessa forma, os resultados do estudo não indicam a suspensão do tratamento, mas reforçam a necessidade de orientar pacientes em uso prolongado desses medicamentos quanto às medidas de proteção solar.
Entre elas destacam-se:
- uso diário de protetor solar;
- roupas com proteção física, como mangas compridas e chapéus;
- evitar exposição solar prolongada, principalmente nos horários de maior intensidade da radiação UV;
- acompanhamento dermatológico quando indicado.
Conclusão
Este estudo populacional identificou uma associação entre o uso prolongado de diuréticos tiazídicos e o aumento do risco de carcinoma de queratinócitos e melanoma em idosos. Os achados reforçam a importância das medidas de fotoproteção durante o tratamento e ampliam o conhecimento sobre os possíveis efeitos do uso crônico dessa classe de anti-hipertensivos.
Relevância para a prática magistral
Os diuréticos tiazídicos, especialmente a hidroclorotiazida, são medicamentos amplamente utilizados por pacientes atendidos nas farmácias de manipulação. Embora geralmente sejam dispensados como medicamentos industrializados, o farmacêutico magistral exerce papel importante na atenção farmacêutica, identificando pacientes em uso crônico dessas terapias e reforçando orientações sobre fotoproteção e cuidados com a pele.
Bibliografia consultada:
Drucker AM, et al. Association between antihypertensive medications and risk of skin cancer in people older than 65 years: a population-based study. CMAJ, 2021
