Inteligência artificial pode identificar sinais de esquizofrenia por meio das impressões digitais

Inteligência artificial pode identificar sinais de esquizofrenia por meio das impressões digitais

As impressões digitais são determinadas durante o desenvolvimento embrionário e permanecem relativamente estáveis ao longo da vida.

Uma hipótese investigada pela ciência é que alterações ocorridas durante o desenvolvimento fetal possam deixar marcas tanto no sistema nervoso quanto nas impressões digitais.

Isso porque a pele e o sistema nervoso têm origem no ectoderma, um dos tecidos embrionários responsáveis pela formação de diferentes estruturas do organismo.

Diante dessa possibilidade, pesquisadores avaliaram se padrões anômalos nas impressões digitais poderiam apresentar alguma relação com a esquizofrenia.


Como foi realizado o estudo?

A pesquisa utilizou uma amostra inicial de impressões digitais digitalizadas de:

  • 612 pacientes com diagnóstico de psicose não afetiva;
  • 844 indivíduos saudáveis.

A complexidade dos padrões das impressões digitais foi analisada utilizando um modelo de aprendizado de máquina, a partir do qual foram desenvolvidos diferentes modelos de classificação diagnóstica.


E o que a inteligência artificial descobriu?

O modelo desenvolvido pelos pesquisadores conseguiu classificar corretamente os indivíduos com esquizofrenia com uma precisão de aproximadamente 70%.

O resultado sugere que características presentes nas impressões digitais podem carregar informações relacionadas a alterações ocorridas durante o desenvolvimento embrionário.


Por que as impressões digitais podem ser interessantes?

Diferentemente de diversos marcadores biológicos que podem sofrer alterações ao longo da vida, as impressões digitais permanecem relativamente estáveis.

Isso levanta a possibilidade de que padrões específicos possam, futuramente, ser utilizados como biomarcadores auxiliares na investigação de transtornos psicóticos.

A hipótese é especialmente interessante para pessoas consideradas de maior risco para desenvolver psicose, nas quais ferramentas adicionais de avaliação poderiam eventualmente contribuir para a identificação precoce.


Mas já é possível diagnosticar esquizofrenia pelas impressões digitais?

Não.

Esse é um ponto fundamental.

Uma precisão de 70% em um modelo de aprendizado de máquina não é suficiente para utilizar a análise das impressões digitais como método diagnóstico clínico.

Além disso, o estudo não demonstra que uma determinada impressão digital cause ou determine o desenvolvimento da esquizofrenia.

Os padrões podem refletir alterações ocorridas durante o desenvolvimento embrionário que também estejam relacionadas à suscetibilidade à doença, mas essa relação ainda precisa ser investigada.

São necessários estudos maiores e independentes para verificar se o modelo mantém seu desempenho em diferentes populações e se pode realmente contribuir para detecção precoce ou estratificação de risco.


Relevância para a saúde mental

O estudo apresenta uma abordagem interessante porque combina neurodesenvolvimento, dermatoglifia e inteligência artificial.

Caso esses resultados sejam confirmados, a análise automatizada das impressões digitais poderia futuramente ser investigada como uma ferramenta complementar, especialmente em populações com maior risco de psicose.

Por enquanto, porém, o achado deve ser interpretado como evidência experimental promissora, e não como uma nova forma de diagnóstico da esquizofrenia.

Uma característica que carregamos nas pontas dos dedos desde antes do nascimento pode guardar pistas sobre o desenvolvimento do cérebro? A inteligência artificial começa a investigar essa possibilidade.

 

Bibliografia consultada:

Salvador R; et al. Fingerprints as Predictors of Schizophrenia: A Deep Learning Study. Schizophrenia Bulletin, 2022.

 

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