O ácido docosa-hexaenoico (DHA), um dos principais ácidos graxos da família ômega-3, desempenha funções importantes no sistema nervoso e na retina. Embora o consumo de DHA esteja associado a diversos benefícios à saúde, sua utilização para proteção ocular apresenta uma limitação importante: a forma convencional encontrada em suplementos de óleo de peixe pode não alcançar adequadamente a retina.
Pensando nessa limitação, pesquisadores desenvolveram uma nova forma de DHA capaz de atravessar a barreira entre a circulação sanguínea e a retina. Os resultados iniciais, obtidos em modelos animais, podem abrir uma nova perspectiva para estratégias nutricionais voltadas à preservação da saúde ocular.
Por que o DHA é importante para a retina?
A retina apresenta elevada concentração de DHA, onde o ácido graxo participa da manutenção da estrutura e da função das células retinianas. Entretanto, o DHA consumido por meio de suplementos convencionais pode apresentar limitações para alcançar esse tecido.
O DHA presente em cápsulas de óleo de peixe geralmente está na forma de triacilglicerol (TAG-DHA). Apesar de apresentar benefícios em diferentes tecidos do organismo, essa forma não consegue atravessar de maneira eficiente a barreira hematorretiniana.
Essa característica despertou o interesse dos pesquisadores em desenvolver uma forma de DHA com maior capacidade de alcançar diretamente a retina.
LPC-DHA: uma nova forma de ácido docosa-hexaenoico
Para contornar essa limitação, os pesquisadores desenvolveram uma forma lisofosfolipídica de DHA, denominada LPC-DHA.
A hipótese era que essa nova estrutura molecular permitiria ao DHA atravessar a barreira entre o sangue e a retina, aumentando sua disponibilidade no tecido ocular.
Para testar essa possibilidade, os pesquisadores utilizaram camundongos geneticamente modificados para apresentar alterações semelhantes às observadas na doença de Alzheimer de início precoce.
Os animais receberam diariamente LPC-DHA durante seis meses e foram posteriormente avaliados quanto à concentração de DHA na retina, além de parâmetros relacionados à estrutura e à função retiniana.
LPC-DHA aumentou significativamente o DHA na retina
Os resultados foram expressivos. Após seis meses de suplementação, os animais que receberam LPC-DHA apresentaram aumento de 96% no conteúdo de DHA da retina.
Além do aumento da concentração do ácido graxo, os pesquisadores observaram preservação da estrutura e da função da retina, sugerindo que a maior disponibilidade de DHA nesse tecido poderia exercer efeito protetor diante de processos semelhantes aos observados na doença de Alzheimer.
O resultado torna-se ainda mais relevante quando comparado ao grupo que recebeu DHA na forma convencional de triacilglicerol.
Nesse grupo, a suplementação com TAG-DHA não produziu alterações significativas nos níveis de DHA da retina nem na função retiniana.
A forma do DHA pode ser determinante
Os resultados reforçam que não é apenas a quantidade de determinado nutriente que precisa ser considerada, mas também a sua forma química e sua capacidade de atingir o tecido-alvo.
Nesse caso, embora ambas as intervenções fornecessem DHA, somente a forma LPC-DHA foi capaz de aumentar significativamente sua concentração na retina.
Essa diferença pode ser particularmente importante no desenvolvimento de estratégias nutricionais direcionadas à saúde ocular.
Potencial para doenças associadas à degeneração da retina
Os pesquisadores utilizaram um modelo animal relacionado à doença de Alzheimer, mas a importância do DHA para a retina também desperta interesse em outras condições associadas à perda da função visual.
O estudo sugere que uma estratégia capaz de aumentar especificamente a disponibilidade de DHA na retina poderia futuramente ser investigada como forma de preservar o tecido ocular diante de processos relacionados ao envelhecimento, alterações metabólicas e doenças neurodegenerativas.
Entretanto, é importante destacar que os resultados ainda são pré-clínicos. A eficácia observada em camundongos não permite concluir que a mesma resposta ocorrerá em seres humanos.
Qual seria a dose equivalente em humanos?
A quantidade de LPC-DHA utilizada no experimento foi estimada pelos pesquisadores como equivalente a aproximadamente 250 a 500 mg de ácidos graxos ômega-3 por dia em humanos.
Essa equivalência, entretanto, deve ser interpretada com cautela. Ela não representa uma dose clinicamente estabelecida de LPC-DHA para seres humanos, uma vez que ainda não existem estudos clínicos suficientes para confirmar sua segurança, biodisponibilidade e eficácia em humanos.
Portanto, não é possível extrapolar diretamente a dose utilizada no modelo animal para uma recomendação clínica.
Conclusão do estudo
Os resultados demonstram, pela primeira vez nesse modelo experimental, que uma forma lisofosfolipídica de DHA (LPC-DHA) foi capaz de aumentar significativamente a concentração de DHA na retina e preservar sua estrutura e função.
Em contraste, o DHA convencional na forma de triacilglicerol não apresentou o mesmo efeito.
Assim, o estudo sugere que a forma de administração do DHA pode ser determinante para sua capacidade de alcançar a retina. Apesar do potencial, são necessários estudos em humanos para determinar se o LPC-DHA apresenta os mesmos benefícios e se pode ser utilizado com segurança como estratégia de proteção ocular.
Relevância para a prática magistral
O principal interesse desse estudo para a farmácia magistral está no conceito de biodisponibilidade direcionada ao tecido-alvo. O trabalho demonstra que simplesmente aumentar a ingestão de um nutriente pode não ser suficiente quando existe uma barreira fisiológica que limita sua chegada ao local onde se pretende obter o efeito.
Nesse contexto, o LPC-DHA representa uma possibilidade interessante de investigação dentro do desenvolvimento de formulações voltadas à saúde ocular, envelhecimento e neuroproteção.
Para a prática magistral, entretanto, o ingrediente deve ser considerado experimental nesse contexto, e os resultados em animais não devem ser utilizados isoladamente para estabelecer indicação, dose ou eficácia clínica em humanos.
