Pesadelos são relativamente comuns durante a infância e, na maioria das vezes, não representam um problema de saúde. No entanto, uma nova análise prospectiva sugere que a frequência e a persistência de sonhos angustiantes durante os primeiros anos de vida podem estar associadas a um maior risco de comprometimento cognitivo e doença de Parkinson décadas mais tarde.
O achado chama atenção porque amplia uma relação que já vinha sendo observada em adultos e idosos, nos quais a ocorrência frequente de pesadelos tem sido associada a maior risco de declínio cognitivo e demência.
Estudo acompanhou indivíduos desde a infância
A análise longitudinal, publicada na The Lancet, utilizou dados de pessoas nascidas na Grã-Bretanha durante uma mesma semana de 1958.
Quando as crianças tinham 7 e 11 anos de idade, suas mães foram questionadas sobre a ocorrência de pesadelos nos três meses anteriores. Os pesquisadores consideraram como sonhos ruins tanto os pesadelos quanto os episódios descritos como terror noturno.
Ao todo, 6.991 crianças, sendo 51% meninas, foram incluídas na análise. Entre elas:
- 78,2% nunca apresentaram sonhos ruins;
- 17,9% apresentaram sonhos ruins de forma esporádica;
- 3,8% apresentaram sonhos ruins persistentes.
Os participantes foram posteriormente acompanhados até os 50 anos de idade.
Pesadelos persistentes e risco cognitivo
Aos 50 anos, 262 participantes apresentavam comprometimento cognitivo, enquanto cinco haviam recebido diagnóstico de doença de Parkinson.
Após o ajuste para as covariáveis analisadas, os pesquisadores observaram uma associação linear e estatisticamente significativa entre a frequência de sonhos ruins durante a infância e o risco posterior de comprometimento cognitivo ou doença de Parkinson.
Em comparação com as crianças que nunca apresentavam sonhos ruins, aquelas que tinham sonhos ruins persistentes apresentaram um risco 85% maior de apresentar comprometimento cognitivo ou doença de Parkinson aos 50 anos.
O resultado foi observado tanto em homens quanto em mulheres.
O achado também aparece em adultos e idosos
Os resultados são particularmente interessantes porque estão alinhados com observações anteriores realizadas em pessoas de meia-idade e idosos.
Em uma análise envolvendo 605 adultos de 35 a 64 anos, acompanhados por até 13 anos, indivíduos saudáveis que apresentavam pesadelos pelo menos uma vez por semana tiveram aproximadamente quatro vezes mais chances de apresentar declínio cognitivo na década seguinte.
Em outro grupo, composto por 2.600 idosos com 79 anos ou mais, aqueles que apresentavam pesadelos semanalmente tiveram aproximadamente duas vezes mais probabilidade de desenvolver demência em comparação com aqueles que nunca apresentavam sonhos ruins.
Dessa forma, os diferentes estudos levantam a possibilidade de que os pesadelos frequentes não sejam apenas uma manifestação isolada do sono, mas possam estar relacionados a processos que também participam do envelhecimento cerebral.
Pesadelos podem ser um marcador, e não necessariamente uma causa
Apesar da associação observada, é importante interpretar os resultados com cautela.
O estudo não demonstra que os pesadelos causem comprometimento cognitivo ou doença de Parkinson. Os pesquisadores identificaram uma associação entre a presença persistente de sonhos ruins durante a infância e esses desfechos décadas mais tarde.
Ainda não está esclarecido se os pesadelos participam diretamente dos mecanismos relacionados à neurodegeneração ou se representam um marcador precoce de alterações neurológicas, emocionais ou relacionadas ao sono que posteriormente aumentam o risco dessas doenças.
Também são necessários estudos adicionais para compreender quais mecanismos poderiam explicar essa relação.
O que isso significa para a saúde cerebral?
O sono desempenha papel importante na manutenção das funções cognitivas e na saúde cerebral. Alterações persistentes no sono podem estar relacionadas a processos que interferem na consolidação da memória e em diferentes mecanismos neurológicos.
Nesse contexto, a frequência de pesadelos pode representar uma característica do sono que merece maior atenção, principalmente quando é persistente, interfere na qualidade do descanso ou está acompanhada de outras alterações comportamentais ou cognitivas.
Os pesquisadores destacam, portanto, a necessidade de investigar se intervenções capazes de reduzir sonhos angustiantes ao longo da vida poderiam eventualmente modificar o risco de comprometimento cognitivo e doenças neurodegenerativas.
Conclusão do estudo
A análise longitudinal mostrou que a presença mais frequente e persistente de sonhos ruins durante a infância esteve associada a um maior risco de comprometimento cognitivo ou doença de Parkinson aos 50 anos.
Crianças que apresentavam sonhos ruins persistentes tiveram um risco 85% maior desses desfechos em comparação àquelas que nunca apresentavam esse tipo de experiência.
Embora os resultados sejam relevantes, não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito. Estudos futuros deverão confirmar a associação e esclarecer se o tratamento dos pesadelos e de outros distúrbios do sono desde as primeiras fases da vida poderia contribuir para a prevenção de alterações cognitivas e neurodegenerativas.
Bibliografia consultada:
Otaiku AL. Distressing dreams in childhood and risk of cognitive impairment or Parkinson’s disease in adulthood: a national birth cohort study. The lancet, 2023.
