Probióticos podem auxiliar no tratamento da obesidade infantil? O que mostra um estudo com Bifidobacterium breve

Probióticos podem auxiliar no tratamento da obesidade infantil? O que mostra um estudo com Bifidobacterium breve

 

A obesidade infantil é considerada um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade. Além de aumentar o risco de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e síndrome metabólica, o excesso de peso durante a infância pode persistir até a vida adulta.

Nos últimos anos, pesquisadores têm investigado o papel da microbiota intestinal no desenvolvimento da obesidade e se a modulação desse ecossistema por meio de probióticos poderia contribuir para o tratamento da doença.

Um estudo italiano, publicado em 2020, avaliou justamente essa hipótese utilizando duas cepas de Bifidobacterium breve em crianças e adolescentes com obesidade.

Importante: Os probióticos foram utilizados como complemento a uma dieta com restrição calórica, e não como tratamento isolado para a obesidade.


Qual a relação entre microbiota intestinal e obesidade?

A microbiota intestinal participa de diversos processos fisiológicos relacionados ao metabolismo, incluindo:

  • fermentação de fibras alimentares;
  • produção de ácidos graxos de cadeia curta;
  • regulação da resposta inflamatória;
  • metabolismo energético;
  • manutenção da integridade da barreira intestinal.

Diversos estudos observaram diferenças na composição da microbiota entre indivíduos com obesidade e aqueles com peso adequado. No entanto, ainda não está totalmente esclarecido se essas alterações são causa ou consequência do excesso de peso.


O que é Bifidobacterium breve?

Bifidobacterium breve é uma bactéria probiótica naturalmente presente na microbiota intestinal humana.

Entre suas funções descritas na literatura destacam-se:

  • fermentação de carboidratos e fibras;
  • produção de ácidos graxos de cadeia curta;
  • contribuição para o equilíbrio da microbiota intestinal;
  • auxílio na inibição do crescimento de algumas bactérias potencialmente patogênicas.

Esses efeitos despertaram o interesse em avaliar seu possível papel na obesidade.


Como o estudo foi realizado?

Os pesquisadores acompanharam 100 crianças e adolescentes obesos, com idade entre 6 e 18 anos.

Todos os participantes seguiram uma dieta com restrição calórica durante oito semanas.

Além da dieta, eles receberam:

  • duas cepas de Bifidobacterium breve (BR03 e B632); ou
  • placebo.

Durante o estudo foram avaliados parâmetros antropométricos, metabólicos e a composição da microbiota intestinal.


Quais foram os resultados?

Ao final das oito semanas, o grupo que recebeu probióticos apresentou, em comparação ao placebo:

  • maior redução do peso corporal;
  • diminuição da circunferência da cintura;
  • redução do índice de massa corporal (IMC);
  • melhora da sensibilidade à insulina;
  • menor concentração intestinal de Escherichia coli.

Segundo os autores, esses resultados sugerem que determinadas cepas probióticas podem potencializar os efeitos de uma dieta com restrição calórica em jovens com obesidade.


Os probióticos funcionam para todas as pessoas?

Não necessariamente.

A própria pesquisadora Flavia Prodam destacou que a resposta aos probióticos parece variar entre os indivíduos.

Segundo a autora, diferenças na composição da microbiota e no perfil metabólico podem influenciar a eficácia da suplementação, reforçando a necessidade de estratégias cada vez mais personalizadas.


Quais são as limitações do estudo?

Apesar dos resultados promissores, algumas limitações devem ser consideradas:

  • acompanhamento relativamente curto (oito semanas);
  • avaliação de apenas duas cepas específicas de Bifidobacterium breve;
  • todos os participantes também realizaram dieta com restrição calórica;
  • são necessários estudos maiores e de longo prazo para confirmar os benefícios observados.

Portanto, os resultados não podem ser extrapolados para todos os probióticos disponíveis no mercado.


Conclusão

O estudo italiano sugere que a suplementação com as cepas Bifidobacterium breve BR03 e B632 pode potencializar os efeitos de uma dieta com restrição calórica em crianças e adolescentes com obesidade, promovendo melhora de parâmetros antropométricos e metabólicos. No entanto, os autores ressaltam que novos estudos são necessários para confirmar esses achados e identificar quais pacientes podem se beneficiar dessa estratégia.


Relevância para a prática magistral

O crescente interesse pela modulação da microbiota intestinal tem ampliado o uso de probióticos na prática clínica. Entretanto, as evidências mostram que seus efeitos são cepa-específicos, ou seja, não podem ser generalizados para todas as espécies ou produtos comerciais. Na farmácia magistral, a seleção das cepas deve ser baseada em estudos clínicos e nas indicações para cada condição, considerando que a suplementação deve atuar como parte de uma abordagem multidisciplinar para o tratamento da obesidade.

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Referências consultadas:

European Society of Endocrinology. “Probiotics may help manage childhood obesity.” ScienceDaily. ScienceDaily, 10 September 2020.

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