
Quando uma terapia de reposição hormonal não apresenta os resultados esperados, é relativamente comum que o paciente questione a qualidade da formulação manipulada. Essa situação é ainda mais frequente quando o acompanhamento envolve exames laboratoriais, como ocorre na reposição de testosterona transdérmica.
Para muitos pacientes, a lógica parece simples: “estou aplicando testosterona e meus níveis sanguíneos continuam baixos, então certamente o hormônio não está na fórmula”. Entretanto, na prática clínica, a resposta raramente é tão simples.
A eficácia da testosterona transdérmica depende de diversos fatores relacionados ao paciente, à forma correta de aplicação, ao metabolismo hormonal e ao acompanhamento médico. Antes de atribuir o insucesso do tratamento à manipulação, é importante avaliar todo o contexto terapêutico.
1. O local de aplicação faz diferença
A absorção da testosterona pela pele varia conforme a região escolhida.
De maneira geral, recomenda-se aplicar o produto em áreas com pele mais fina e pouca pilosidade, como:
- ombros;
- parte interna dos braços;
- região superior do tronco (quando orientado pelo prescritor).
Regiões com grande quantidade de pelos devem ser evitadas, pois concentram maior atividade da enzima 5-alfa-redutase, responsável por converter parte da testosterona em di-hidrotestosterona (DHT), além de poderem dificultar a absorção do produto.
Também é importante alternar os locais de aplicação para minimizar irritações cutâneas.
2. A técnica de aplicação influencia diretamente a absorção
A forma como o paciente utiliza o medicamento pode comprometer significativamente o tratamento.
Algumas orientações importantes incluem:
- aplicar sobre pele limpa e completamente seca;
- aguardar alguns minutos para completa secagem;
- evitar banho ou lavagem da região logo após a aplicação;
- evitar contato da área aplicada com outras pessoas, especialmente parceiros(as) e crianças, até completa absorção do produto.
Além disso, atividades que provoquem transpiração intensa logo após a aplicação podem reduzir o tempo de contato do medicamento com a pele.
3. A dose pode precisar de ajustes
A reposição hormonal é um tratamento individualizado.
Mesmo utilizando corretamente o medicamento, alguns pacientes necessitam de ajustes graduais da dose para alcançar os níveis hormonais desejados.
Por esse motivo, o acompanhamento periódico por meio de exames laboratoriais é fundamental durante toda a terapia.
4. Não avalie apenas a testosterona
Um erro relativamente comum é interpretar o sucesso da terapia apenas pela testosterona total ou livre.
A testosterona participa de uma complexa rede metabólica e pode ser convertida em outros hormônios importantes, principalmente:
- Estradiol, pela ação da enzima aromatase;
- Di-hidrotestosterona (DHT), pela enzima 5-alfa-redutase.
Por isso, durante o acompanhamento médico, costuma ser importante avaliar o perfil hormonal de forma global.
Estradiol
A conversão excessiva da testosterona em estradiol pode contribuir para sintomas como:
- retenção hídrica;
- ginecomastia;
- aumento da gordura corporal;
- alterações de humor;
- redução da libido em alguns pacientes.
Por outro lado, níveis muito baixos de estradiol também podem comprometer libido, saúde óssea e bem-estar geral.
Di-hidrotestosterona (DHT)
A DHT exerce funções fisiológicas importantes, porém concentrações elevadas podem favorecer:
- acne;
- aumento da oleosidade;
- queda capilar;
- crescimento aumentado de pelos.
Assim como ocorre com o estradiol, o objetivo não é eliminar sua produção, mas manter um equilíbrio adequado durante a terapia.
5. Outros medicamentos podem interferir
Diversos medicamentos podem modificar a resposta clínica da testosterona.
Entre eles estão fármacos que alteram seu metabolismo, hormônios utilizados concomitantemente e medicamentos capazes de interferir no eixo hormonal.
Por isso, durante a avaliação do paciente, é importante revisar toda a farmacoterapia em uso, incluindo medicamentos prescritos, suplementos alimentares e fitoterápicos.
6. Outros fatores que também merecem atenção
Além dos aspectos relacionados diretamente à formulação, alguns fatores individuais podem influenciar a resposta terapêutica:
- obesidade e maior atividade da aromatase;
- idade;
- aderência ao tratamento;
- qualidade da pele;
- doenças metabólicas;
- tabagismo;
- doenças hepáticas;
- condições que alteram a produção de SHBG.
Todos esses fatores devem ser considerados pelo médico durante o acompanhamento.
Conclusão
Quando a testosterona transdérmica não produz os resultados esperados, a causa nem sempre está relacionada à formulação. Técnica de aplicação, adesão ao tratamento, metabolismo hormonal, dose prescrita e características individuais do paciente podem influenciar diretamente a resposta clínica. Avaliar o tratamento de forma integrada é essencial para identificar possíveis fatores limitantes e contribuir para melhores resultados terapêuticos.
Relevância para a prática magistral
A testosterona transdérmica continua sendo uma das formas farmacêuticas mais prescritas para terapia de reposição hormonal devido à praticidade de uso e à possibilidade de individualização da dose.
Para o farmacêutico magistral, conhecer os principais fatores que interferem na absorção e no metabolismo do hormônio é fundamental para prestar orientação adequada ao paciente e atuar em conjunto com o médico prescritor. Muitas vezes, pequenas correções na técnica de aplicação ou uma revisão do tratamento são suficientes para melhorar a resposta clínica, evitando que a eficácia da formulação seja questionada de forma equivocada.
Bibliografia consultada:
Schlich C; Romanelli F. Issues Surrounding Testosterone Replacement Therapy. Hosp Pharm, 2016
Drug Bank. Testosterone