
A obesidade frequentemente está associada a baixos níveis de testosterona em homens, especialmente naqueles com hipogonadismo. Essa relação tem despertado interesse da comunidade científica, que busca compreender se a correção da deficiência hormonal pode influenciar o peso corporal e outros parâmetros metabólicos.
Um estudo apresentado pelo andrologista e endocrinologista Farid Saad acompanhou homens obesos com deficiência de testosterona durante 11 anos para avaliar os efeitos da terapia de reposição hormonal.
Os resultados mostraram que os participantes tratados com testosterona apresentaram perda sustentada de peso, redução da circunferência abdominal e melhora de alguns parâmetros metabólicos quando comparados ao grupo que não recebeu reposição.
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores acompanharam homens obesos com baixos níveis de testosterona por um período de até 11 anos.
Os participantes foram divididos em dois grupos:
- homens que receberam terapia de reposição com testosterona;
- homens que não receberam tratamento hormonal.
Durante o acompanhamento, foram avaliados peso corporal, circunferência da cintura e parâmetros metabólicos.
Quais foram os resultados?
Ao final do acompanhamento, os homens tratados com testosterona apresentaram:
- perda média de aproximadamente 23 kg;
- redução média de 13 cm na circunferência da cintura.
No grupo que não recebeu reposição hormonal, observou-se:
- ganho médio de aproximadamente 6 kg;
- aumento médio de 7 cm na circunferência abdominal.
Segundo os autores, a perda de peso tornou-se mais evidente após cerca de quatro anos de tratamento e foi mantida durante o restante do período de acompanhamento.
O que pode explicar esses resultados?
A testosterona exerce influência sobre diversos processos metabólicos, incluindo:
- manutenção da massa muscular;
- distribuição da gordura corporal;
- gasto energético;
- sensibilidade à insulina.
Em homens com deficiência hormonal, a reposição pode contribuir para restaurar parcialmente essas funções fisiológicas, favorecendo mudanças na composição corporal.
Entretanto, o estudo não permite concluir que a testosterona seja a única responsável pela perda de peso observada.
Outros estudos encontraram resultados semelhantes?
Os autores também citaram um estudo conduzido por Geoffrey Hackett, envolvendo aproximadamente 200 homens obesos com diabetes tipo 2.
Nesse trabalho, os participantes tratados com testosterona durante quatro anos apresentaram:
- perda de peso modesta, em torno de 2 kg em comparação ao placebo;
- redução da gordura abdominal;
- melhora de outros parâmetros metabólicos.
Esses resultados sugerem que os efeitos sobre o peso podem variar entre diferentes populações e protocolos de tratamento.
A testosterona pode ser usada para emagrecer?
As evidências atuais não sustentam o uso da testosterona como tratamento para obesidade em homens com níveis hormonais normais.
A terapia de reposição é indicada para pacientes com hipogonadismo confirmado, após avaliação clínica e laboratorial.
Seu uso indiscriminado pode estar associado a riscos importantes, como policitemia, infertilidade, acne, agravamento de apneia do sono e necessidade de monitoramento prostático e cardiovascular.
Quais são as limitações do estudo?
Embora o longo período de acompanhamento seja um ponto forte, alguns aspectos devem ser considerados:
- o estudo envolveu apenas homens com deficiência de testosterona;
- não demonstra que a perda de peso ocorreu exclusivamente pela reposição hormonal;
- os resultados não podem ser extrapolados para homens eugonadais;
- outros fatores, como mudanças no estilo de vida, podem ter influenciado os desfechos.
Conclusão
O estudo de longo prazo sugere que a reposição de testosterona em homens obesos com deficiência hormonal esteve associada à perda sustentada de peso, redução da circunferência abdominal e melhora de parâmetros metabólicos. No entanto, esses achados se aplicam a uma população específica e não justificam o uso da testosterona como estratégia de emagrecimento em indivíduos com níveis hormonais normais.
Relevância para a prática magistral
A testosterona é um hormônio com indicações clínicas bem estabelecidas para o tratamento do hipogonadismo masculino. Estudos sugerem que sua reposição pode trazer benefícios metabólicos em pacientes com deficiência hormonal, incluindo melhora da composição corporal. Entretanto, sua utilização deve ser baseada em diagnóstico clínico e laboratorial, respeitando as indicações médicas e o acompanhamento periódico necessário para monitorar eficácia e segurança.
Referências consultadas:
Saad F.; et al. Differential effects of 11 years of long-term injectable testosterone undecanoate therapy on anthropometric and metabolic parameters in hypogonadal men with normal weight, overweight and obesity in comparison with untreated controls: real-world data from a controlled registry study. International Journal of Obesity, 2020