A endometriose é uma condição ginecológica complexa e ainda existem muitas questões sobre os mecanismos envolvidos em seu desenvolvimento e progressão.
Nos últimos anos, a microbiota do trato reprodutivo passou a receber atenção especial dos pesquisadores. Mas será que alterações nas bactérias presentes no sistema reprodutivo podem estar relacionadas à endometriose?
Pesquisadores brasileiros do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) realizaram uma revisão da literatura com foco em 12 estudos caso-controle. Os resultados foram apresentados na conferência Infogyn 2022 e apontaram uma possível relação entre disbiose do microbioma e endometriose.
O que os pesquisadores encontraram?
A análise identificou diferenças na composição do microbioma de mulheres com endometriose em diferentes locais do sistema reprodutivo.
Entre os microrganismos encontrados em maior abundância estavam bactérias dos gêneros:
- Pseudomonas;
- Gardnerella;
- Enterococcus;
- Streptococcus;
- Staphylococcus.
As bactérias do gênero Pseudomonas estavam particularmente representadas em amostras de líquido peritoneal, vagina, endométrio e lesões de endometriose.
E por que isso pode ser importante?
Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que a disbiose possa contribuir para uma ativação inadequada do sistema imunológico.
Essa alteração poderia favorecer e prolongar a inflamação peritoneal, criando um ambiente que eventualmente contribuiria para o desenvolvimento ou progressão da endometriose.
Os pesquisadores também destacam que o período entre a puberdade e o início da idade adulta pode ser importante, já que corresponde a uma fase relevante para o desenvolvimento da doença.
Nesse contexto, fatores capazes de alterar o microbioma, como infecções ginecológicas e sexualmente transmissíveis, alterações endócrinas, exposição a determinadas toxinas ambientais e hábitos alimentares, merecem atenção.
Além disso, existe uma possível conexão entre o microbioma gastrointestinal e vaginal, reforçando a importância de uma alimentação variada e equilibrada.
Mas atenção: causa ou consequência?
Essa é uma das principais perguntas que ainda precisam ser respondidas.
Os estudos demonstram uma associação entre disbiose e endometriose, mas ainda não é possível determinar se a alteração da microbiota contribui para o desenvolvimento da doença ou se a própria endometriose provoca mudanças no microbioma.
Novas pesquisas também precisam identificar quais espécies bacterianas estão especificamente relacionadas à doença e se essas alterações podem ser utilizadas para desenvolver novos métodos de diagnóstico ou estratégias terapêuticas.
No futuro, intervenções direcionadas à microbiota, incluindo o uso de probióticos, poderão ser investigadas. Porém, ainda são necessários estudos clínicos que demonstrem sua eficácia e segurança nesse contexto.
Relevância para a prática magistral
A relação entre microbiota, inflamação e saúde feminina abre uma importante frente de investigação para a prática magistral.
Para a farmácia de manipulação, acompanhar essas descobertas permite desenvolver materiais técnicos direcionados a ginecologistas e outros prescritores, apresentando as evidências disponíveis sobre microbiota vaginal e intestinal e seu possível envolvimento em condições ginecológicas.
A manipulação também possibilita trabalhar com diferentes cepas probióticas, combinações e formas farmacêuticas, quando houver indicação e respaldo científico para sua utilização.
Mas é fundamental diferenciar potencial terapêutico de evidência clínica consolidada: neste momento, a disbiose associada à endometriose ainda representa uma área de investigação.
A microbiota pode ser uma nova peça no quebra-cabeça da endometriose. A ciência agora precisa descobrir exatamente onde ela se encaixa.
