A constipação crônica é uma queixa frequente entre pessoas idosas e pode estar relacionada a diferentes fatores, incluindo alterações na motilidade intestinal, mudanças na alimentação, menor ingestão de líquidos, redução da atividade física e modificações na composição da microbiota intestinal.
Nesse contexto, os probióticos têm sido estudados como uma possível estratégia complementar para melhorar o funcionamento intestinal. Entre as cepas investigadas está o Bifidobacterium longum BB536, uma cepa específica da espécie Bifidobacterium longum.
Um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo avaliou se a suplementação com essa cepa poderia contribuir para a melhora da constipação crônica em indivíduos idosos.
Como o estudo foi realizado?
Participaram da pesquisa 80 idosos diagnosticados com constipação crônica, que foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos.
Durante um período de até quatro semanas, os participantes receberam diariamente:
- Bifidobacterium longum BB536: 5 bilhões de UFC;
- Placebo: formulação sem o probiótico.
A gravidade da constipação foi avaliada por meio do Constipation Scoring System, instrumento utilizado para acompanhar diferentes aspectos relacionados ao funcionamento intestinal.
O desenho randomizado, duplo-cego e controlado por placebo é relevante porque reduz a possibilidade de que expectativas dos participantes ou dos pesquisadores influenciem os resultados.
O que os pesquisadores observaram?
Os resultados exigem uma interpretação cuidadosa.
De acordo com os autores, os desfechos primários não apresentaram diferença estatisticamente significativa. Portanto, não é adequado afirmar que o estudo demonstrou uma melhora global e definitiva da constipação.
Por outro lado, algumas medidas relacionadas ao funcionamento intestinal apresentaram melhora no grupo que recebeu o B. longum BB536, incluindo os movimentos intestinais.
Esse resultado sugere que a cepa pode exercer algum efeito sobre determinados aspectos da função intestinal, embora os dados disponíveis não sejam suficientes para estabelecer o probiótico como tratamento da constipação crônica.
Como os probióticos podem influenciar o intestino?
A microbiota intestinal participa de diversos processos relacionados à função gastrointestinal. As bactérias presentes no intestino podem produzir metabólitos, interagir com a mucosa intestinal e influenciar o ambiente do cólon.
No caso dos probióticos, os possíveis efeitos sobre a função intestinal podem envolver alterações na composição ou atividade da microbiota e na interação entre os microrganismos e o trato gastrointestinal.
Uma estratégia promissora, mas ainda complementar
Os resultados do estudo são relevantes principalmente porque investigam uma população em que a constipação é frequente e avaliam uma cepa probiótica específica em um desenho controlado.
Entretanto, alguns aspectos limitam a força das conclusões. O estudo envolveu 80 participantes e teve duração relativamente curta, de até quatro semanas. Além disso, como os desfechos primários não foram estatisticamente significativos, os resultados positivos observados em determinados parâmetros devem ser interpretados como evidência preliminar, e não como demonstração de eficácia clínica ampla.
Assim, novos estudos, com maior número de participantes, períodos de acompanhamento mais longos e diferentes populações de idosos, podem ajudar a esclarecer quais pacientes apresentam maior benefício e quais parâmetros intestinais respondem melhor à suplementação.
Bifidobacterium longum BB536 na prática magistral
Para a prática magistral, o estudo chama atenção para a importância de trabalhar com cepas probióticas identificadas, e não apenas com o gênero ou a espécie do microrganismo.
Em uma formulação probiótica, características como:
- identificação da cepa;
- concentração em UFC;
- estabilidade durante o armazenamento;
- viabilidade dos microrganismos até o final da validade;
- condições de conservação;
- associação com outros componentes da formulação
podem ser importantes para a qualidade e a consistência do produto.
No caso específico desse estudo, a evidência está relacionada ao Bifidobacterium longum BB536 na dose de 5 bilhões de UFC ao dia, durante um período de até quatro semanas. Portanto, não se deve extrapolar automaticamente os resultados para outras cepas, doses ou combinações de probióticos.
Também é importante considerar que a constipação em idosos pode ter múltiplas causas. A utilização de probióticos, quando considerada, deve ser integrada a uma abordagem individualizada, que leve em conta alimentação, hidratação, atividade física, medicamentos em uso e outras condições que possam interferir na função intestinal.
Conclusão
O estudo japonês sugere que a suplementação com Bifidobacterium longum BB536 pode favorecer alguns aspectos do funcionamento intestinal em idosos com constipação crônica.
No entanto, como os desfechos primários não foram estatisticamente significativos, os resultados devem ser interpretados com cautela. A evidência disponível aponta para um possível benefício complementar, mas ainda não permite afirmar que o B. longum BB536 seja eficaz como tratamento isolado da constipação crônica.
A pesquisa reforça, sobretudo, a importância de avaliar cepas probióticas específicas, em doses e condições bem definidas, em vez de considerar todos os probióticos como equivalentes.
Bibliografia consultada:
Takeda T; et al. Usefulness of Bifidobacterium longum BB536 in Elderly Individuals With Chronic Constipation: A Randomized Controlled Trial. Am J Gastroenterol, 2022
