A miopia tornou-se um dos principais desafios de saúde ocular nas últimas décadas. Sua prevalência vem aumentando em diferentes regiões do mundo e as projeções indicam que, até 2050, aproximadamente metade da população mundial poderá apresentar miopia.
A genética exerce papel importante nesse processo. Crianças com pais altamente míopes apresentam risco significativamente maior de desenvolver a condição. Entretanto, o aumento acelerado da prevalência observado nas últimas décadas também reforça a importância da investigação de fatores ambientais e comportamentais.
Entre as estratégias farmacológicas estudadas para controlar a miopia está a atropina em baixas concentrações, utilizada em alguns países asiáticos para retardar a progressão da doença.
Mas uma questão ainda mais precoce vem sendo investigada: será que a atropina poderia retardar o próprio aparecimento da miopia?
Um estudo publicado no JAMA avaliou essa possibilidade em crianças que ainda não apresentavam miopia.
Atropina: de controle da progressão à prevenção do início?
A atropina é um antagonista muscarínico que provoca bloqueio da atividade colinérgica. Em concentrações mais elevadas, seus efeitos oculares incluem dilatação da pupila e cicloplegia.
Em concentrações muito menores, entretanto, a atropina vem sendo estudada para o controle da progressão da miopia, particularmente em crianças.
O mecanismo responsável por esse efeito ainda não está completamente esclarecido.
A hipótese mais antiga relacionava a ação da atropina principalmente ao bloqueio da acomodação. Atualmente, entretanto, os mecanismos considerados são mais complexos e podem envolver vias celulares e neuromodulatórias da retina e da esclera.
Portanto, não é correto afirmar simplesmente que a atropina retarda a miopia por “melhorar a circulação sanguínea do olho”. O mecanismo exato permanece em investigação.
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores recrutaram 353 crianças não míopes, entre 4 e 9 anos de idade, residentes em Hong Kong.
Os participantes foram distribuídos para receber, durante dois anos, uma aplicação noturna de colírio contendo:
- atropina 0,05%;
- atropina 0,01%;
- placebo.
O objetivo principal era avaliar se as diferentes concentrações de atropina poderiam retardar o desenvolvimento da miopia em crianças que ainda não apresentavam a condição no início do estudo.
Essa característica diferencia o trabalho de muitos estudos anteriores, que avaliaram crianças que já eram míopes e apresentavam progressão do erro refrativo.
Atropina 0,05% apresentou o resultado mais expressivo
Ao longo do acompanhamento, aproximadamente um quarto das crianças que utilizaram atropina 0,05% desenvolveu miopia em pelo menos um olho.
No grupo que recebeu atropina 0,01% ou placebo, a proporção foi aproximadamente duas vezes maior.
O resultado sugere que a concentração de 0,05% apresentou maior efeito na redução do risco de aparecimento da miopia do que a concentração de 0,01% avaliada no estudo.
Esse aspecto é particularmente interessante porque, em algumas pesquisas de controle da progressão da miopia, concentrações mais baixas de atropina também são investigadas justamente para buscar um equilíbrio entre eficácia e tolerabilidade.
No entanto, os resultados deste estudo não significam que 0,05% seja universalmente a concentração ideal para todas as crianças.
Por que a concentração de 0,05% pode ter sido mais eficaz?
Uma das características interessantes observadas é a possível relação dose-resposta.
A concentração de 0,05% apresentou efeito mais evidente que 0,01%, sugerindo que uma exposição maior à atropina pode proporcionar maior efeito sobre os mecanismos envolvidos no desenvolvimento da miopia.
Entretanto, aumentar a concentração também pode aumentar os efeitos farmacológicos oculares, como fotofobia e dificuldade de visão de perto, embora esses efeitos sejam muito menores nas concentrações baixas utilizadas para controle da miopia do que com a atropina convencional em concentrações elevadas.
Por isso, a escolha da concentração deve considerar simultaneamente eficácia, tolerabilidade e características individuais da criança.
O que ainda não sabemos sobre o efeito da atropina?
Apesar dos resultados promissores, uma questão fundamental permanece:
retardar o aparecimento da miopia significa realmente impedir seu desenvolvimento futuro?
O acompanhamento de dois anos permite avaliar o surgimento da miopia durante esse período, mas não determina necessariamente o efeito da intervenção ao longo de toda a infância e adolescência.
Isso é particularmente importante porque a miopia pode continuar evoluindo durante vários anos.
Por essa razão, estudos com acompanhamento prolongado são fundamentais para verificar se as crianças que permanecem sem miopia durante o tratamento realmente apresentam menor risco de desenvolver a condição posteriormente ou se o aparecimento apenas é adiado.
Genética e ambiente continuam sendo importantes
A miopia é uma condição multifatorial.
A predisposição genética pode aumentar significativamente o risco, especialmente quando um ou ambos os pais apresentam miopia. Entretanto, fatores ambientais também parecem desempenhar papel relevante.
Entre os fatores estudados estão:
- menor exposição à luz natural;
- maior tempo em atividades de visão de perto;
- características do ambiente escolar;
- hábitos comportamentais durante a infância.
A crescente prevalência da miopia em diferentes populações sugere que genética e ambiente interagem de maneira complexa.
Nesse contexto, uma estratégia farmacológica como a atropina representa apenas uma das possíveis abordagens para o controle do problema.
O estudo permite recomendar atropina para todas as crianças?
Não.
Esse ponto é especialmente importante porque a população estudada foi composta por crianças de uma faixa etária específica e residentes em Hong Kong.
Os resultados não devem ser automaticamente extrapolados para todas as crianças, independentemente de idade, origem, histórico familiar ou características oculares.
Além disso, o estudo teve duração de dois anos, enquanto a evolução da miopia pode ocorrer por períodos muito mais longos.
Portanto, os resultados apoiam a investigação da atropina como estratégia para retardar o início da miopia, mas não significam que toda criança sem miopia deva utilizar o colírio preventivamente.
A decisão terapêutica deve ser individualizada e realizada por profissional habilitado em saúde ocular.
E qual seria a importância da formulação magistral?
A atropina em baixa concentração desperta interesse particular na área magistral porque as concentrações utilizadas para controle da miopia são muito inferiores às apresentações oftálmicas tradicionais de atropina.
Isso coloca em evidência a importância de aspectos como:
- precisão na concentração do princípio ativo;
- estabilidade da preparação;
- controle microbiológico;
- adequação do veículo oftálmico;
- compatibilidade da formulação com a utilização pediátrica;
- acondicionamento adequado;
- controle de qualidade da preparação.
Em preparações oftálmicas destinadas a crianças, esses aspectos assumem importância ainda maior, pois pequenas diferenças de concentração ou problemas de estabilidade podem interferir na segurança e na qualidade da terapia.
Assim, o desenvolvimento de uma preparação magistral de atropina em baixa concentração exige rigor técnico e farmacêutico, além de acompanhamento médico.
Conclusão do estudo
O estudo sugere que a atropina 0,05% pode retardar o aparecimento da miopia em crianças que ainda não apresentam a condição, apresentando efeito superior ao observado com atropina 0,01% e placebo durante os dois anos de acompanhamento.
O resultado amplia o campo de investigação da atropina, que tradicionalmente tem sido estudada principalmente para retardar a progressão da miopia já estabelecida.
Entretanto, os dados ainda não permitem afirmar que a atropina previna definitivamente a miopia. São necessários estudos com acompanhamento mais prolongado, especialmente durante a adolescência, para determinar se o tratamento reduz efetivamente a incidência da doença ou apenas adia seu aparecimento.
Bibliografia consultada:
Yam JC; et al. Effect of Low-Concentration Atropine Eyedrops vs Placebo on Myopia Incidence in Children. JAMA, 2023.
