Ginkgo biloba e saúde cardiovascular: como a planta pode influenciar a perfusão e a hemodinâmica

Ginkgo biloba e saúde cardiovascular: como a planta pode influenciar a perfusão e a hemodinâmica

O Ginkgo biloba está entre as plantas medicinais mais estudadas e utilizadas no mundo. Tradicionalmente associado à saúde cerebral e à função cognitiva, o extrato de suas folhas também vem sendo investigado por seus possíveis efeitos sobre a circulação sanguínea, função vascular e hemodinâmica.

A relação entre Ginkgo biloba e sistema cardiovascular, entretanto, é complexa. Embora alguns estudos clínicos tenham relatado resultados favoráveis, revisões sistemáticas e meta-análises apresentam conclusões menos consistentes para determinadas indicações.

Uma revisão publicada na revista Biology buscou reunir e atualizar as evidências disponíveis sobre os efeitos cardiovasculares do Ginkgo biloba em indivíduos saudáveis, com atenção especial aos mecanismos relacionados à pressão arterial, função vascular e perfusão dos tecidos.

A análise de mais de 140 artigos reuniu diferentes evidências experimentais e clínicas sobre como os componentes do Ginkgo podem interferir na fisiologia cardiovascular.


Ginkgo biloba: de onde vem o nome?

O nome da planta apresenta uma história curiosa.

“Ginkgo” deriva de uma transcrição considerada equivocada do termo japonês Ginkyo, relacionado à ideia de “fruta prateada”.

Já “biloba” faz referência ao formato característico das folhas, que apresentam uma divisão em dois lobos.

Independentemente de sua origem etimológica, o Ginkgo biloba tornou-se uma das plantas medicinais de maior interesse científico, especialmente pela diversidade de mecanismos farmacológicos atribuídos aos seus constituintes.


Quais efeitos cardiovasculares foram identificados?

A revisão aponta que o Ginkgo biloba pode influenciar o sistema cardiovascular por meio de diferentes mecanismos simultâneos.

Entre os principais efeitos descritos estão:

  • modulação da função dos cardiomiócitos;
  • vasorrelaxamento;
  • aumento da liberação endotelial de óxido nítrico;
  • participação de prostanóides na resposta vascular;
  • modulação dos canais de cálcio da musculatura lisa vascular;
  • aumento da perfusão em diferentes tecidos.

Essa multiplicidade de mecanismos ajuda a explicar por que os efeitos do Ginkgo não podem ser reduzidos simplesmente a uma ação de “melhora da circulação”.


Modulação da função cardíaca

Segundo a revisão, os componentes do Ginkgo biloba podem interferir na atividade de diferentes canais iônicos presentes nos cardiomiócitos.

Os canais iônicos são fundamentais para a geração e propagação dos sinais elétricos responsáveis pela contração e pelo funcionamento adequado das células cardíacas.

A modulação desses canais pode, portanto, influenciar a fisiologia do músculo cardíaco.

Entretanto, a existência de um efeito farmacológico sobre canais iônicos não significa necessariamente que o uso de Ginkgo produza benefícios clínicos em pacientes com doenças cardíacas. A relevância terapêutica dessa atividade depende de fatores como dose, preparação utilizada e contexto clínico.


Efeito vasorrelaxante

Outro mecanismo destacado pela revisão é a capacidade do Ginkgo de favorecer o relaxamento da musculatura vascular.

O endotélio, camada que reveste internamente os vasos sanguíneos, participa ativamente do controle do tônus vascular.

Entre as moléculas envolvidas nesse processo está o óxido nítrico (NO), que promove relaxamento da musculatura lisa vascular e contribui para a regulação do fluxo sanguíneo.

Os dados reunidos na revisão sugerem que o Ginkgo pode potencializar a liberação endotelial de óxido nítrico e prostanóides, contribuindo para a resposta vasorrelaxante.

Outro mecanismo descrito envolve o bloqueio de canais de cálcio na musculatura lisa vascular.

Como o cálcio participa da contração dessas células, sua modulação pode favorecer o relaxamento vascular.


Mais perfusão sem alteração significativa da pressão arterial

Um dos achados mais interessantes apresentados na revisão diz respeito à relação entre perfusão tecidual e pressão arterial.

Em indivíduos saudáveis, estudos avaliados indicaram que o Ginkgo biloba pode aumentar a perfusão sanguínea em diferentes tecidos, incluindo:

  • tecido ocular;
  • sistema coclear;
  • pele;
  • cérebro;
  • circulação coronariana.

Apesar desse aumento de perfusão, os dados reunidos não indicaram alteração significativa da pressão arterial em indivíduos saudáveis.

Isso é relevante porque demonstra que aumentar o fluxo sanguíneo em determinados tecidos não significa necessariamente produzir uma redução sistêmica da pressão arterial.

Assim, o efeito hemodinâmico do Ginkgo parece ser mais complexo do que simplesmente “dilatar os vasos e baixar a pressão”.


Por que a resposta pode variar entre indivíduos?

A revisão também chama atenção para um aspecto particularmente importante: o metabolismo individual do Ginkgo biloba.

Embora as evidências ainda sejam limitadas, os autores sugerem que diferenças individuais no metabolismo da planta podem influenciar tanto a natureza quanto a magnitude da resposta vascular.

Esse conceito é especialmente relevante para a farmacologia de produtos vegetais.

A resposta a um extrato não depende apenas da presença de determinados compostos, mas também de fatores como metabolismo, biodisponibilidade e características individuais do usuário.

Essa variabilidade pode ajudar a explicar por que estudos clínicos com Ginkgo biloba apresentam resultados diferentes dependendo da população e do desfecho analisado.


E quanto à segurança?

De acordo com a revisão, o Ginkgo biloba apresentou um perfil de segurança considerado aceitável, com a maioria das reações adversas relatadas descritas como raras.

Entretanto, “perfil de segurança aceitável” não significa ausência de riscos.

Como ocorre com qualquer substância farmacologicamente ativa, a segurança depende da preparação utilizada, da dose, da duração do uso e das características do indivíduo.

Além disso, quando o Ginkgo é utilizado concomitantemente a medicamentos, é necessário considerar possíveis interações farmacológicas e o contexto clínico do paciente.

Por isso, a avaliação profissional permanece importante, especialmente em indivíduos que utilizam múltiplos medicamentos ou apresentam doenças cardiovasculares.


Ginkgo biloba pode ser considerado um tratamento cardiovascular?

A análise reúne evidências de diferentes naturezas, incluindo mecanismos farmacológicos e estudos em indivíduos saudáveis.

Embora os dados apontem para efeitos sobre a função vascular e a perfusão, isso não equivale a demonstrar que o Ginkgo seja capaz de tratar hipertensão, doença arterial periférica, doença cerebrovascular ou outras doenças cardiovasculares.

A própria revisão destaca a necessidade de estudos clínicos mais bem controlados para determinar quais populações realmente poderiam se beneficiar de intervenções farmacoterapêuticas envolvendo Ginkgo biloba.

Portanto, é mais adequado interpretar os achados como evidências de potencial atividade cardiovascular, e não como comprovação de eficácia terapêutica para doenças específicas.


O que os mecanismos sugerem?

A partir dos resultados reunidos, pode-se visualizar uma possível sequência de eventos:

Ginkgo biloba → modulação de canais iônicos + aumento de mediadores endoteliais + modulação de canais de cálcio → vasorrelaxamento e alterações hemodinâmicas → aumento da perfusão em determinados tecidos

O ponto mais interessante é que essas alterações podem ocorrer sem necessariamente provocar uma redução significativa da pressão arterial sistêmica em indivíduos saudáveis.

Isso reforça a necessidade de diferenciar perfusão tecidual, resistência vascular e pressão arterial, que são fenômenos relacionados, mas não equivalentes.


Conclusão do estudo

A revisão publicada na Biology, baseada na análise de mais de 140 artigos, indica que o Ginkgo biloba apresenta múltiplos mecanismos capazes de influenciar a fisiologia cardiovascular.

Entre os efeitos descritos estão a modulação de canais iônicos em cardiomiócitos, a atividade vasorrelaxante associada ao óxido nítrico e aos prostanóides e a modulação dos canais de cálcio da musculatura lisa vascular.

Em indivíduos saudáveis, os estudos avaliados sugerem aumento da perfusão em diferentes tecidos — incluindo cérebro, olhos, sistema coclear, pele e circulação coronariana — sem alteração significativa da pressão arterial.

Os autores também destacam que diferenças individuais no metabolismo do Ginkgo podem influenciar a resposta vascular.

Apesar dos resultados promissores e do perfil de segurança considerado aceitável, ainda são necessários estudos clínicos mais bem controlados para determinar quais populações podem realmente obter benefícios cardiovasculares relevantes e quais seriam as melhores estratégias de utilização.


Relevância para a prática magistral

O Ginkgo biloba permanece como uma planta de grande interesse para a farmacologia e para a prática magistral, especialmente pela diversidade de mecanismos atribuídos aos seus constituintes.

Do ponto de vista farmacêutico, entretanto, é fundamental considerar que “Ginkgo biloba” não define sozinho a atividade farmacológica de uma preparação. A qualidade e a padronização do extrato, a concentração dos constituintes e as características da matéria-prima são fatores importantes para a reprodutibilidade dos resultados.

Para o prescritor e para o farmacêutico magistral, o cenário mais adequado é considerar o Ginkgo como uma intervenção de potencial farmacológico multifatorial, cuja aplicação clínica deve ser orientada pela evidência disponível para cada indicação específica.

 

Bilbiografia consultada:

Silva H; martins FG. Cardiovascular Activity of Ginkgo biloba—An Insight from Healthy Subjects. Biology, 2023.

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