A resposta do organismo a um procedimento cirúrgico envolve uma série de adaptações metabólicas, imunológicas e endócrinas. Embora sejam essenciais para a cicatrização e defesa do organismo, essas alterações também aumentam o estresse oxidativo e a inflamação, podendo retardar a recuperação pós-operatória. Nesse contexto, estratégias de terapia nutricional no período perioperatório têm recebido cada vez mais atenção por seu potencial em modular essa resposta fisiológica.
Entre os compostos estudados, a associação de cistina e L-teanina tem demonstrado resultados promissores por favorecer a síntese de glutationa, o principal antioxidante intracelular do organismo. Uma revisão publicada na revista Nutrients reuniu as evidências sobre essa estratégia nutricional e seus possíveis benefícios durante o período perioperatório.
Por que a glutationa é importante durante o período cirúrgico?
A glutationa é o antioxidante mais abundante das células humanas e desempenha papel fundamental na proteção contra o estresse oxidativo, além de participar da regulação da resposta imunológica e inflamatória.
Durante procedimentos cirúrgicos, ocorre uma redução significativa dos estoques de glutationa devido ao aumento da produção de espécies reativas de oxigênio e da resposta inflamatória.
Por esse motivo, fornecer nutrientes capazes de estimular sua síntese pode representar uma estratégia para preservar as defesas antioxidantes do organismo.
Como a cistina e a teanina atuam?
A glutationa é formada por três aminoácidos:
- ácido glutâmico;
- cisteína;
- glicina.
A cistina funciona como fonte de cisteína, considerada o aminoácido limitante para a produção de glutationa. Já a L-teanina, aminoácido encontrado naturalmente no chá verde, é metabolizada em ácido glutâmico, outro componente essencial da molécula.
Dessa forma, a suplementação conjunta fornece substratos importantes para aumentar a síntese endógena de glutationa.
Estudos anteriores já haviam demonstrado que a combinação de 700 mg de cistina e 280 mg de L-teanina reduz marcadores inflamatórios após exercícios físicos intensos, despertando o interesse em avaliar seu uso também em pacientes submetidos a cirurgias.
O que mostrou a revisão?
A revisão publicada em dezembro de 2021 reuniu estudos experimentais e clínicos que investigaram o uso da associação de cistina e teanina durante o período perioperatório.
Entre os principais achados está um estudo envolvendo pacientes submetidos à gastrectomia.
Os participantes receberam:
- 700 mg de cistina
- 280 mg de L-teanina
durante 10 dias.
Os pesquisadores observaram diversos benefícios quando comparados ao grupo controle.
Entre eles:
- redução do aumento do gasto energético de repouso após a cirurgia;
- melhora da recuperação dos níveis de interleucina-6 (IL-6);
- redução da proteína C-reativa (PCR);
- recuperação mais rápida da proporção de linfócitos e granulócitos;
- menor aumento da temperatura corporal no pós-operatório.
Esses resultados sugerem uma resposta inflamatória mais controlada e uma recuperação metabólica mais eficiente.
Evidências em modelos experimentais
A revisão também descreve um estudo em animais no qual a suplementação com cistina e teanina foi iniciada cinco dias antes da cirurgia.
Os pesquisadores verificaram que o tratamento:
- reduziu a queda dos níveis intestinais de glutationa após o procedimento;
- favoreceu uma recuperação pós-operatória mais rápida.
Esses achados reforçam a hipótese de que a preservação da glutationa exerce papel importante na resposta ao trauma cirúrgico.
Qual o potencial clínico dessa estratégia?
Embora novos estudos sejam necessários para definir protocolos e indicações específicas, as evidências disponíveis sugerem que a suplementação com cistina e L-teanina pode representar uma estratégia nutricional interessante para modular a resposta inflamatória e oxidativa induzida pela cirurgia.
Ao favorecer a síntese de glutationa, essa combinação pode contribuir para preservar a função imunológica e acelerar a recuperação pós-operatória.
Conclusão
As evidências atuais indicam que a suplementação de cistina e L-teanina pode aumentar a disponibilidade de glutationa, reduzindo o estresse oxidativo e modulando a resposta inflamatória durante o período perioperatório. Estudos clínicos demonstram melhora de marcadores inflamatórios e da recuperação metabólica após cirurgias, tornando essa estratégia nutricional promissora como adjuvante na recuperação pós-operatória.
Relevância para a prática magistral
A associação de cistina (700 mg) e L-teanina (280 mg) surge como uma alternativa interessante para protocolos nutricionais perioperatórios, especialmente em pacientes submetidos a cirurgias de médio e grande porte. A manipulação permite individualizar doses, tempo de uso e associação com outros nutrientes envolvidos na resposta antioxidante e imunológica, sempre como estratégia complementar ao manejo clínico estabelecido pela equipe assistencial.
Bibliografia consultada:
Tsuchiya T; Kurihara S. Cystine and Theanine as Stress-Reducing Amino Acids—Perioperative Use for Early Recovery after Surgical Stress. Nutrients, 2021.
