
A coenzima Q10 (CoQ10) é uma molécula naturalmente produzida pelo organismo e desempenha papel essencial na produção de energia celular e na proteção contra o estresse oxidativo. Por sua elevada concentração no músculo cardíaco, ela tem sido amplamente estudada em diferentes doenças cardiovasculares.
Um estudo publicado na revista Heart and Vessels investigou se os níveis séricos de CoQ10 poderiam estar relacionados ao prognóstico de pacientes internados por doença cardiovascular aguda.
Embora os resultados sejam promissores, é importante compreender corretamente o que esse tipo de pesquisa permite concluir.
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores acompanharam 242 homens e mulheres internados consecutivamente na unidade coronariana do Juntendo University Hospital, no Japão.
A concentração sérica de CoQ10 foi determinada aproximadamente 24 horas após a admissão, juntamente com outros parâmetros laboratoriais, como perfil lipídico e marcadores clínicos.
Os participantes foram acompanhados por uma média de 3,2 anos.
Durante esse período ocorreram 58 óbitos, decorrentes de causas cardiovasculares e outras condições, incluindo câncer, infecções e hemorragias.
Quais foram os resultados?
Os pesquisadores observaram que:
- os pacientes que evoluíram para óbito apresentavam níveis médios de CoQ10 de 0,48 mg/L;
- entre os sobreviventes, a média foi de 0,58 mg/L;
- indivíduos com níveis de CoQ10 iguais ou superiores a 0,46 mg/L apresentaram uma associação com 52% menor risco de mortalidade por todas as causas durante o período de acompanhamento, em comparação com aqueles com níveis inferiores.
Esses resultados sugerem que concentrações mais elevadas de CoQ10 podem estar associadas a um melhor prognóstico em pacientes com doença cardiovascular aguda.
Qual a relação entre estatinas e Coenzima Q10?
O estudo também observou que os pacientes com menores concentrações de CoQ10 utilizavam, em média, doses mais elevadas de estatinas.
Esse achado é biologicamente plausível, pois as estatinas inibem a enzima HMG-CoA redutase, reduzindo não apenas a síntese de colesterol, mas também a produção endógena de CoQ10.
Entretanto, isso não significa que todos os pacientes em uso de estatinas desenvolvam deficiência clinicamente relevante, nem que a suplementação de CoQ10 seja indicada de rotina. A decisão deve ser individualizada conforme o contexto clínico e as evidências disponíveis.
A suplementação de Coenzima Q10 traz benefícios?
Os autores destacaram que estudos anteriores demonstraram redução de marcadores inflamatórios, como proteína C-reativa (PCR) e interleucina-6 (IL-6), em alguns pacientes suplementados com CoQ10.
Além disso, outras pesquisas sugerem benefícios potenciais em condições como insuficiência cardíaca e sintomas musculares associados às estatinas. No entanto, os resultados ainda são heterogêneos e variam conforme a população estudada, a dose utilizada e o desfecho avaliado.
Assim, embora a suplementação seja objeto de intenso interesse científico, ainda não há evidências suficientes para recomendar seu uso universal em pacientes com doenças cardiovasculares.
O estudo demonstra que a CoQ10 reduz a mortalidade?
Não.
Esse é um ponto importante.
O estudo foi observacional, ou seja, identificou uma associação entre níveis séricos mais baixos de CoQ10 e maior mortalidade.
Isso não permite concluir que a redução da CoQ10 seja a causa direta do pior prognóstico nem que aumentar seus níveis por meio da suplementação reduza o risco de morte.
Para responder a essa pergunta são necessários ensaios clínicos randomizados, capazes de avaliar relações de causa e efeito.
Conclusão
O estudo publicado na Heart and Vessels mostrou que pacientes com doença cardiovascular aguda e menores concentrações séricas de Coenzima Q10 apresentaram maior mortalidade durante o acompanhamento. Esses resultados sugerem que a CoQ10 pode representar um marcador prognóstico interessante nessa população. No entanto, como se trata de uma pesquisa observacional, não é possível afirmar que a suplementação da CoQ10 reduza a mortalidade. Novos ensaios clínicos são necessários para esclarecer o papel terapêutico da Coenzima Q10 nas doenças cardiovasculares.
Relevância para a prática magistral
A Coenzima Q10 é um dos nutracêuticos mais utilizados em formulações voltadas à saúde cardiovascular, especialmente em pacientes que utilizam estatinas ou apresentam insuficiência cardíaca. Entretanto, sua indicação deve ser baseada em evidências clínicas, considerando o perfil do paciente, a condição tratada e os objetivos terapêuticos.
Referências consultadas
Shimizu M, et al. Low coenzyme Q10 levels in patients with acute cardiovascular disease are associated with long-term mortality. Heart and Vessels, 2020.