
O ganho de peso é uma das queixas mais frequentes durante a menopausa e a pós-menopausa. Alterações hormonais, redução da massa muscular, menor gasto energético, mudanças no estilo de vida e envelhecimento contribuem para esse processo.
Entretanto, outro fator pode exercer influência importante: o uso de determinados medicamentos.
Um estudo publicado na revista Menopause investigou se medicamentos conhecidos por estarem associados ao ganho de peso poderiam influenciar as alterações no índice de massa corporal (IMC) e na circunferência abdominal de mulheres na pós-menopausa.
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores acompanharam 76.252 mulheres na pós-menopausa, com idades entre 50 e 79 anos.
O uso dos medicamentos foi registrado no início do estudo e novamente após três anos, por meio da conferência dos frascos apresentados pelas participantes.
Foram avaliadas principalmente classes de medicamentos frequentemente relacionadas ao ganho de peso, incluindo:
- antidepressivos;
- antipsicóticos;
- betabloqueadores;
- insulina;
- glicocorticoides.
Além do IMC, os pesquisadores acompanharam a evolução da circunferência da cintura, importante indicador de adiposidade abdominal.
O que os pesquisadores observaram?
No início do estudo, aproximadamente 58% das participantes apresentavam sobrepeso ou obesidade.
Após três anos, todas as mulheres apresentaram pequeno aumento médio de peso. No entanto, aquelas que utilizavam medicamentos potencialmente associados ao ganho de peso apresentaram aumentos discretamente maiores no IMC e na circunferência abdominal.
Comparando os grupos:
- mulheres sem esses medicamentos apresentaram aumento médio de 0,27 kg/m² no IMC e 0,89 cm na circunferência da cintura;
- entre aquelas que utilizavam pelo menos um medicamento dessa categoria, o aumento médio foi de 0,37 kg/m² e 1,1 cm, respectivamente.
Embora as diferenças sejam relativamente pequenas em termos absolutos, elas foram estatisticamente significativas.
Quais medicamentos apresentaram maior associação?
Entre as classes avaliadas, os maiores aumentos de IMC foram observados principalmente entre usuárias de:
- antidepressivos;
- insulina.
Nas mulheres que utilizavam antidepressivos, também foi observado aumento médio da circunferência abdominal.
Já entre usuárias de insulina, o efeito foi mais evidente nas participantes que já apresentavam obesidade grave no início do acompanhamento.
Os autores ressaltam, entretanto, que esses resultados representam associações estatísticas e não comprovam que os medicamentos sejam a causa direta do ganho de peso.
Por que alguns medicamentos podem favorecer o ganho de peso?
Diversos mecanismos podem estar envolvidos, dependendo da classe terapêutica.
Entre eles destacam-se:
- aumento do apetite;
- alterações no metabolismo energético;
- retenção de líquidos;
- redução do gasto energético;
- melhora de doenças previamente associadas à perda de peso;
- mudanças na sensibilidade à insulina.
Além disso, a própria doença tratada pode influenciar o peso corporal, tornando difícil isolar completamente o efeito do medicamento.
O estudo apresenta limitações?
Sim.
Os próprios autores destacaram limitações importantes, incluindo:
- ausência de informações detalhadas sobre as doenças que motivaram cada prescrição;
- impossibilidade de avaliar adesão ao tratamento;
- ausência de informações sobre alimentação e atividade física ao longo do acompanhamento;
- natureza observacional do estudo, que impede estabelecer relação de causa e efeito.
Assim, os resultados devem ser interpretados com cautela.
O que isso significa na prática clínica?
O estudo não indica que medicamentos potencialmente associados ao ganho de peso devam ser interrompidos.
Na maioria das situações, seus benefícios superam esse possível efeito adverso.
Entretanto, conhecer esse risco permite que médicos, farmacêuticos e pacientes adotem estratégias preventivas, como:
- acompanhamento periódico do peso;
- incentivo à prática regular de atividade física;
- alimentação equilibrada;
- escolha de alternativas terapêuticas quando clinicamente apropriado.
Essa abordagem é especialmente importante durante a pós-menopausa, período em que alterações hormonais já favorecem mudanças na composição corporal.
Conclusão
O estudo publicado na revista Menopause mostrou que mulheres na pós-menopausa em uso de determinados medicamentos, especialmente antidepressivos e insulina, apresentaram aumento discretamente maior do IMC e da circunferência abdominal ao longo de três anos. Embora esses resultados não estabeleçam uma relação causal, eles reforçam a importância de considerar os possíveis efeitos metabólicos dos medicamentos e de adotar medidas de estilo de vida que auxiliem na manutenção do peso e da saúde durante essa fase da vida.
Relevância para a prática magistral
A menopausa representa um período de importantes mudanças metabólicas e hormonais. Na prática magistral, o farmacêutico pode contribuir para o acompanhamento dessas pacientes por meio da orientação sobre hábitos de vida, da avaliação das terapias em uso e da identificação de possíveis efeitos adversos relacionados aos medicamentos. Quando indicado pelo prescritor, formulações individualizadas podem integrar estratégias voltadas ao controle de sintomas e à promoção da qualidade de vida, sempre como complemento ao tratamento clínico e às mudanças no estilo de vida.
Bibliografia consultada:
Stanford FC, et al. The association between weight-promoting medication use and weight gain in postmenopausal women: findings from the Women’s Health Initiative. Menopause, 2020.