Cólica infantil: quais estratégias apresentam melhores evidências?

Cólica infantil: quais estratégias apresentam melhores evidências?

A cólica infantil é caracterizada por episódios de choro excessivo nos primeiros meses de vida. Apesar de ser uma condição comum, sua causa ainda não é completamente compreendida e sua frequência pode variar de 3% a 40% dos lactentes.

Na maioria dos casos, os episódios diminuem gradualmente e desaparecem por volta dos 4 meses de idade. Entretanto, durante esse período, o choro frequente pode gerar grande preocupação para os pais, que buscam alternativas para aliviar o desconforto do bebê.

Entre as estratégias utilizadas estão medicamentos, fitoterápicos, probióticos, modificações na alimentação, terapias manuais e intervenções direcionadas aos pais.

Mas quais dessas abordagens apresentam melhores evidências?


Revisão sistemática avaliou quatro estratégias

Uma revisão sistemática reuniu 32 estudos para avaliar a eficácia de quatro das principais abordagens utilizadas no manejo da cólica infantil:

  • probióticos;
  • terapias manuais;
  • simeticona;
  • inibidores da bomba de prótons (IBPs).

Os pesquisadores analisaram principalmente o impacto dessas intervenções sobre o tempo de choro, além de aspectos relacionados ao sono, desconforto e ocorrência de eventos adversos.


Probióticos apresentaram as melhores evidências

Entre as estratégias avaliadas, os probióticos apresentaram evidências de maior qualidade, especialmente para a redução do tempo de choro em bebês amamentados.

Os dados reunidos pela revisão indicaram benefício dessa abordagem nessa população, tornando os probióticos uma das estratégias que mais despertaram interesse entre as avaliadas.

É importante, entretanto, considerar que os resultados não devem ser automaticamente extrapolados para todos os lactentes, uma vez que a resposta pode depender de fatores como tipo de alimentação, cepa utilizada e características da população estudada.


Terapias manuais também apresentaram resultados positivos

As terapias manuais, que incluem abordagens como quiropraxia, osteopatia e fisioterapia, também apresentaram redução no tempo de choro.

Entretanto, a qualidade das evidências foi classificada entre moderada e baixa.

Assim, embora os resultados sejam favoráveis, existe maior incerteza em relação ao tamanho real do benefício e à consistência dos resultados entre os estudos.


E a simeticona?

A simeticona é frequentemente utilizada para aliviar sintomas relacionados à formação de gases em lactentes.

Entretanto, na revisão, as evidências disponíveis foram classificadas entre moderadas e baixas e não demonstraram benefício significativo em comparação ao placebo.

Os resultados também não apontaram um efeito negativo consistente, mas não foi demonstrada uma vantagem clara da simeticona para reduzir os sintomas de cólica.


Inibidores da bomba de prótons não compensam o risco-benefício

Os inibidores da bomba de prótons (IBPs) também foram avaliados como alternativa para reduzir o choro e a agitação dos bebês.

Nesse caso, os resultados não sustentaram seu uso para o tratamento da cólica infantil.

Segundo a revisão, a utilização de IBPs para essa finalidade não é indicada, uma vez que os possíveis benefícios não compensariam os riscos associados ao tratamento.

Isso reforça a importância de diferenciar cólica infantil de outras condições gastrointestinais que possam justificar o uso desses medicamentos.


O tratamento deve ser individualizado

A cólica infantil é uma condição transitória e, em muitos casos, desaparece espontaneamente ao longo dos primeiros meses de vida.

Por isso, a escolha de uma intervenção deve considerar não apenas a tentativa de reduzir o choro, mas também a segurança, a qualidade das evidências disponíveis e as características individuais do bebê.

Além das intervenções estudadas, orientações aos pais e estratégias de suporte também podem fazer parte do manejo, especialmente considerando o impacto que o choro persistente pode provocar na família.


Conclusão

A revisão sistemática de 32 estudos mostra que as evidências disponíveis para o tratamento da cólica infantil variam bastante entre as diferentes abordagens.

Os probióticos apresentaram evidências de maior qualidade para redução do tempo de choro em bebês amamentados, enquanto as terapias manuais demonstraram resultados favoráveis, porém sustentados por evidências de qualidade moderada a baixa.

Já a simeticona não apresentou benefício significativo em comparação ao placebo, e os inibidores da bomba de prótons não são recomendados para essa finalidade, devido à relação desfavorável entre benefícios e riscos.


Relevância para a prática magistral

O tema apresenta grande relevância para a prática magistral pediátrica, especialmente pela possibilidade de desenvolver formulações individualizadas para lactentes quando houver indicação do prescritor.

Os resultados da revisão reforçam, entretanto, que não basta utilizar um probiótico de forma genérica. A escolha da cepa, concentração, forma farmacêutica e características da formulação deve considerar as evidências disponíveis para a população pediátrica específica.

Esse pode ser um importante diferencial na comunicação da farmácia com pediatras, gastroenterologistas pediátricos e nutricionistas, oferecendo materiais técnico-científicos que apresentem as evidências sobre diferentes estratégias para cólica infantil.

Na prática magistral, o conhecimento sobre cepas probióticas, estabilidade, veículos e adequação da forma farmacêutica à faixa etária pode contribuir para que a farmácia ofereça ao prescritor soluções mais individualizadas e tecnicamente fundamentadas.

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Bibliografia consultada:

Ellwood J; Rodi JD; Canes D. Comparison of common interventions for the treatment of infantile colic: a systematic review of reviews and guideline. BMJ Open, 2020

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