Dipiridamol pode representar uma nova alternativa para o tratamento da síndrome das pernas inquietas

Dipiridamol pode representar uma nova alternativa para o tratamento da síndrome das pernas inquietas

A síndrome das pernas inquietas (SPI) é um distúrbio neurológico caracterizado por uma necessidade irresistível de movimentar as pernas, geralmente acompanhada por sensações desagradáveis que surgem durante o repouso e pioram no período da noite. Embora os agonistas dopaminérgicos sejam considerados uma das principais opções terapêuticas, seu uso prolongado pode levar à perda de eficácia e até mesmo ao agravamento dos sintomas.

Nesse contexto, pesquisadores investigaram uma abordagem diferente utilizando o dipiridamol, um medicamento antiplaquetário que atua sobre as vias adenosinérgicas. Os resultados, publicados na revista Movement Disorders, mostraram melhora significativa dos sintomas motores e sensoriais da síndrome, além de benefícios na qualidade do sono.


O que é a síndrome das pernas inquietas?

A síndrome das pernas inquietas é um distúrbio neurológico caracterizado por:

  • necessidade intensa de movimentar as pernas;
  • desconforto ou sensações desagradáveis nos membros inferiores;
  • piora durante períodos de repouso;
  • intensificação dos sintomas no período noturno;
  • melhora temporária com o movimento.

Além do impacto na qualidade de vida, a doença frequentemente compromete o início e a manutenção do sono, favorecendo fadiga diurna e redução da qualidade do descanso.


Limitações do tratamento atual

Os agonistas dopaminérgicos, como pramipexol e ropinirol, costumam apresentar boa eficácia no controle inicial da doença.

Entretanto, diversos pacientes desenvolvem um fenômeno conhecido como aumento (augmentation), no qual:

  • os sintomas tornam-se mais intensos;
  • surgem mais cedo ao longo do dia;
  • passam a acometer outras regiões do corpo;
  • tornam-se progressivamente mais difíceis de controlar.

Estudos anteriores sugerem que aproximadamente 50% dos pacientes tratados durante cerca de 10 anos deixam de responder adequadamente à terapia dopaminérgica, reforçando a necessidade de estratégias com mecanismos de ação diferentes.


Por que estudar o dipiridamol?

O dipiridamol é um medicamento tradicionalmente utilizado como agente antiplaquetário.

Diferentemente dos tratamentos convencionais para SPI, seu mecanismo de ação envolve predominantemente as vias adenosinérgicas, sem atuação direta conhecida sobre os sistemas dopaminérgico ou glutamatérgico.

Nos últimos anos, evidências vêm sugerindo que alterações na sinalização da adenosina podem participar da fisiopatologia da síndrome das pernas inquietas, tornando essa via um alvo terapêutico promissor.


O que mostrou o estudo?

O estudo demonstrou que pacientes com síndrome das pernas inquietas que receberam dipiridamol apresentaram:

  • redução dos sintomas motores;
  • melhora das sensações desagradáveis nas pernas;
  • aumento da duração do sono;
  • melhora global dos sintomas em pacientes sem tratamento prévio.

Os resultados reforçam o potencial da modulação das vias adenosinérgicas como uma alternativa terapêutica para pacientes com SPI.


Qual o possível mecanismo de ação?

Acredita-se que o dipiridamol aumente a disponibilidade extracelular de adenosina ao inibir sua recaptação celular.

Como a adenosina participa da modulação da excitabilidade neuronal, esse mecanismo pode contribuir para reduzir a hiperatividade sensório-motora característica da síndrome das pernas inquietas, oferecendo uma abordagem distinta daquela baseada na dopamina.


Conclusão

O dipiridamol demonstrou reduzir os sintomas motores e sensoriais da síndrome das pernas inquietas e melhorar a duração do sono em pacientes sem tratamento prévio. Ao atuar por uma via farmacológica diferente da dopaminérgica, o medicamento surge como uma alternativa promissora para ampliar as opções terapêuticas dessa condição.


Relevância para a prática magistral

O crescente entendimento da participação da sinalização adenosinérgica na síndrome das pernas inquietas amplia as possibilidades de investigação de novas estratégias terapêuticas. Estudos como este reforçam a importância da busca por mecanismos alternativos aos agonistas dopaminérgicos, especialmente em pacientes que apresentam perda de resposta ou agravamento dos sintomas ao longo do tratamento.

 

Bibliografia consultada:

Borreguero DG; et al. A Randomized, Placebo-Controlled Crossover Study with Dipyridamole for Restless Legs Syndrome. Movement Disorders, 2021.

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