Ibuprofeno ou paracetamol para febre em crianças? O que mostra uma meta-análise

Ibuprofeno ou paracetamol para febre em crianças? O que mostra uma meta-análise

A febre é um dos motivos mais comuns de atendimento pediátrico e costuma gerar grande preocupação entre pais e cuidadores, especialmente quando ocorre em crianças menores de dois anos.

Entre os medicamentos mais utilizados para controlar a febre estão o paracetamol e o ibuprofeno, ambos amplamente empregados na prática clínica. Mas existe diferença entre eles em relação à eficácia e à segurança?

Uma meta-análise publicada no JAMA Network Open buscou responder essa questão reunindo os principais estudos disponíveis sobre o tema.


Como o estudo foi realizado?

Pesquisadores da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, realizaram uma revisão sistemática com meta-análise comparando o uso de ibuprofeno e paracetamol em crianças menores de dois anos.

Inicialmente foram identificados 3.933 estudos, dos quais 19 preencheram os critérios de inclusão, totalizando 241.138 crianças provenientes de sete países:

  • França;
  • Irã;
  • Israel;
  • Holanda;
  • Turquia;
  • Reino Unido;
  • Estados Unidos.

Os estudos avaliaram o uso de curto prazo dos medicamentos para o tratamento de febre ou dor.


O que os pesquisadores encontraram?

A análise mostrou que, quando comparado ao paracetamol, o ibuprofeno apresentou maior eficácia na redução da febre e da dor nas primeiras horas após a administração.

Segundo os autores, as evidências indicam que o ibuprofeno proporcionou melhor controle da temperatura corporal até quatro horas após a primeira dose.

Embora a diferença tenha sido favorável ao ibuprofeno, ambos os medicamentos demonstraram eficácia no controle dos sintomas.


E quanto à segurança?

A segurança foi um dos principais aspectos avaliados pelos pesquisadores.

Considerando mais de 42 mil crianças com dados específicos sobre eventos adversos, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas na ocorrência de eventos renais ou gastrointestinais graves entre os dois medicamentos quando utilizados por curto período e nas doses recomendadas.

Os autores concluíram que tanto o paracetamol quanto o ibuprofeno apresentaram um perfil de segurança favorável nessas condições.


Isso significa que o ibuprofeno é sempre a melhor escolha?

Não.

Apesar da maior eficácia observada para redução da febre em curto prazo, isso não significa que o ibuprofeno seja o medicamento mais indicado para todas as crianças.

A escolha do antitérmico deve considerar fatores como:

  • idade da criança;
  • estado de hidratação;
  • presença de doenças renais, hepáticas ou gastrointestinais;
  • contraindicações individuais;
  • orientação do pediatra.

Além disso, a febre é uma resposta natural do organismo às infecções e, em muitos casos, o objetivo principal do tratamento é aliviar o desconforto da criança, e não apenas normalizar a temperatura.


A febre deve ser sempre tratada?

Nem sempre.

Atualmente, diretrizes pediátricas recomendam que o uso de antitérmicos seja direcionado principalmente ao alívio do desconforto, e não exclusivamente ao valor medido no termômetro.

Independentemente do medicamento escolhido, é fundamental observar sinais de gravidade, manter a hidratação e procurar avaliação médica quando a febre persistir, ocorrer em recém-nascidos ou vier acompanhada de sintomas preocupantes.


Quais são as limitações do estudo?

Embora a meta-análise reúna um grande número de participantes, algumas limitações devem ser consideradas:

  • os estudos apresentaram diferentes protocolos de tratamento;
  • houve variação nas doses utilizadas;
  • o acompanhamento foi de curto prazo;
  • não foram avaliadas todas as situações clínicas possíveis.

Portanto, os resultados não substituem a avaliação individual realizada pelo profissional de saúde.


Conclusão

A meta-análise publicada no JAMA Network Open mostrou que o ibuprofeno foi mais eficaz do que o paracetamol na redução da febre e da dor nas primeiras horas após a administração em crianças menores de dois anos. Entretanto, ambos apresentaram bom perfil de segurança quando utilizados por curto período e nas doses recomendadas. A escolha do antitérmico deve ser individualizada, considerando as características da criança, suas condições clínicas e a orientação do pediatra.


Relevância para a prática magistral

Na farmácia magistral, formulações pediátricas personalizadas podem contribuir para melhorar a adesão ao tratamento, especialmente quando há necessidade de ajustes de dose, sabor ou forma farmacêutica. O farmacêutico também desempenha papel importante na orientação sobre o uso correto dos antitérmicos, reforçando que esses medicamentos devem ser administrados conforme a prescrição e que a febre, isoladamente, nem sempre exige intervenção medicamentosa imediata.

 

Bibliografia consultada:

Tan E, et al. Comparison of Acetaminophen (Paracetamol) With Ibuprofen for Treatment of Fever or Pain in Children Younger Than 2 YearsA Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Network Open, 2020.

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