Comer chocolate uma vez por semana pode beneficiar a saúde do coração? O que diz a ciência

Comer chocolate uma vez por semana pode beneficiar a saúde do coração? O que diz a ciência

 

O chocolate está entre os alimentos mais apreciados no mundo. Além do sabor, ele desperta interesse científico devido à presença de compostos bioativos do cacau, como flavanóis, polifenóis e metilxantinas, que têm sido estudados por seus possíveis efeitos sobre a saúde cardiovascular.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no European Journal of Preventive Cardiology investigou se o consumo habitual de chocolate está associado ao risco de desenvolver doença arterial coronariana.

Os resultados sugerem uma associação favorável, mas precisam ser interpretados dentro do contexto das evidências disponíveis.


Como o estudo foi realizado?

Os pesquisadores reuniram dados de seis estudos prospectivos, totalizando 336.289 participantes dos Estados Unidos, Suécia e Austrália.

Os participantes relataram seus hábitos de consumo de chocolate e foram acompanhados por um período médio de 8,8 anos.

Durante o acompanhamento foram registrados:

  • 14.043 casos de doença arterial coronariana;
  • 4.667 infartos do miocárdio;
  • 2.735 acidentes vasculares cerebrais;
  • 332 casos de insuficiência cardíaca.

O que os pesquisadores encontraram?

Quando comparados aos participantes que consumiam chocolate menos de uma vez por semana, aqueles que relataram consumir chocolate uma ou mais vezes por semana apresentaram uma associação com:

  • 8% menor risco de desenvolver doença arterial coronariana.

Os autores ressaltam que esse resultado representa uma associação estatística e não comprova que o chocolate seja o responsável direto pela redução do risco.


Por que o cacau desperta interesse na saúde cardiovascular?

Os possíveis benefícios estão relacionados principalmente aos compostos naturalmente presentes no cacau, entre eles:

  • flavanóis;
  • polifenóis;
  • metilxantinas;
  • ácido esteárico.

Essas substâncias têm sido estudadas por seu potencial de:

  • melhorar a função endotelial;
  • favorecer a produção de óxido nítrico;
  • reduzir o estresse oxidativo;
  • modular processos inflamatórios;
  • contribuir para o controle da pressão arterial em alguns indivíduos.

Entretanto, esses efeitos variam conforme o teor de cacau, a quantidade consumida e o perfil metabólico de cada pessoa.


Todo chocolate oferece os mesmos benefícios?

Provavelmente não.

A meta-análise não diferenciou os tipos de chocolate consumidos pelos participantes nem avaliou a quantidade ingerida.

Além disso, chocolates comercialmente disponíveis apresentam grande variação na composição.

Produtos com maior teor de cacau tendem a concentrar mais flavanóis, enquanto chocolates com elevado teor de açúcar e gordura podem reduzir ou até anular parte dos benefícios esperados quando consumidos em excesso.


Existe uma quantidade ideal?

O estudo não permite responder essa pergunta.

Os próprios autores destacam que ainda não existem evidências suficientes para definir:

  • qual tipo de chocolate seria mais benéfico;
  • qual quantidade ideal deveria ser consumida;
  • qual frequência oferece maior benefício.

Também alertam que o consumo excessivo pode aumentar a ingestão de calorias, açúcares e gorduras, especialmente em pessoas com obesidade, diabetes ou outras doenças metabólicas.


Quais são as limitações do estudo?

Embora a meta-análise reúna um grande número de participantes, algumas limitações devem ser consideradas:

  • os estudos incluídos eram predominantemente observacionais;
  • o consumo de chocolate foi informado pelos próprios participantes;
  • não houve padronização do tipo de chocolate consumido;
  • a quantidade ingerida variou entre os estudos;
  • outros hábitos de vida podem ter influenciado os resultados.

Assim, não é possível afirmar que consumir chocolate previne doença arterial coronariana.


Conclusão

As evidências disponíveis sugerem que o consumo moderado de chocolate está associado a um menor risco de doença arterial coronariana. No entanto, essa associação não comprova uma relação de causa e efeito. Os possíveis benefícios parecem estar relacionados principalmente aos compostos bioativos do cacau, especialmente os flavanóis. Até que novos estudos definam a quantidade e o tipo ideal de chocolate, o consumo deve ocorrer com moderação e como parte de uma alimentação equilibrada.


Relevância para a prática magistral

O crescente interesse pelos flavanóis do cacau reforça o potencial desse ingrediente em formulações nutracêuticas e alimentos funcionais. Na prática magistral, extratos padronizados de cacau podem representar uma alternativa para pacientes que buscam os compostos bioativos do cacau sem a elevada carga de açúcar e gordura presente em muitos chocolates comerciais. Entretanto, a escolha da matéria-prima deve priorizar extratos com padronização conhecida e respaldo científico.

 

Bibliografia consultada:

C. Krittanawong et al. Association between chocolate consumption and risk of coronary artery disease: a systematic review and meta-analysis. European Journal of Preventive Cardiology, published online July 22, 2020;

 

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