O índice de massa corporal (IMC) é amplamente utilizado na prática clínica e epidemiológica para classificar indivíduos como abaixo do peso, peso saudável, sobrepeso ou obesidade. Entretanto, uma nova análise sugere que essa classificação pode não refletir adequadamente o risco de mortalidade associado ao excesso de peso, principalmente quando não são consideradas a trajetória do peso e as características individuais da composição corporal.
Tradicionalmente, diversos estudos epidemiológicos observaram uma chamada “curva em J” ou “paradoxo da obesidade”, na qual indivíduos classificados com sobrepeso apresentariam menor risco de mortalidade do que aqueles dentro da faixa considerada saudável. Pessoas com obesidade moderada também apresentariam pouco ou nenhum aumento do risco quando comparadas à categoria de IMC normal.
Um estudo publicado na revista Population Studies, entretanto, apresenta uma interpretação diferente desses dados.
O que o estudo avaliou?
Os pesquisadores realizaram uma análise estatística envolvendo aproximadamente 18 mil indivíduos, buscando compreender melhor a relação entre IMC, trajetória do peso corporal e mortalidade.
Os resultados contrariaram a interpretação tradicional de que o excesso de peso estaria associado a um aumento expressivo da mortalidade apenas em situações de obesidade mais grave.
Segundo os autores, o excesso de peso ou a obesidade estiveram associados a um aumento do risco de morte entre 22% e 91%, dependendo da análise realizada.
Por que o IMC pode subestimar o risco?
Uma das principais questões levantadas pelo estudo está relacionada à própria natureza do IMC.
O índice é calculado exclusivamente a partir de peso e altura, não permitindo distinguir massa muscular de tecido adiposo, distribuição da gordura corporal ou histórico de alterações do peso ao longo da vida.
Essa limitação pode fazer com que pessoas com trajetórias corporais muito diferentes sejam agrupadas na mesma categoria.
Ao considerar a história do IMC dos participantes, os pesquisadores encontraram resultados particularmente interessantes. Cerca de 20% dos indivíduos classificados como tendo peso saudável apresentavam, na realidade, histórico compatível com sobrepeso ou obesidade.
Quando esse grupo foi analisado separadamente, apresentou um perfil de saúde consideravelmente pior do que aquele observado entre pessoas que permaneceram estáveis na faixa de peso saudável.
Por outro lado, 37% dos indivíduos classificados como sobrepeso e 60% daqueles classificados como obesos apresentavam IMCs anteriores mais baixos.
Esses achados indicam que o valor atual do IMC pode esconder informações importantes sobre a trajetória do peso corporal.
O histórico do peso pode ser tão importante quanto o peso atual
A análise sugere que simplesmente observar o IMC em um determinado momento pode produzir uma interpretação equivocada do risco.
Por exemplo, uma pessoa atualmente classificada como tendo peso saudável pode ter chegado recentemente a essa faixa após um período prolongado de sobrepeso ou obesidade. Da mesma forma, um indivíduo atualmente classificado como obeso pode estar em uma trajetória recente de ganho de peso ou ter permanecido estável nessa condição durante anos.
Essas situações podem representar perfis metabólicos e de saúde diferentes, embora o IMC atual seja semelhante.
Dessa forma, os pesquisadores defendem que a trajetória do peso corporal deve ser considerada nas análises epidemiológicas, em vez de utilizar exclusivamente uma medida pontual do IMC.
O que isso significa para a interpretação do risco?
Os resultados não significam que o IMC seja inútil. O índice continua sendo uma ferramenta simples e amplamente utilizada para classificação populacional.
O principal alerta do estudo é que o IMC isoladamente pode não ser suficiente para estimar o risco individual de saúde.
A composição corporal, a distribuição da gordura, a duração do excesso de peso e as mudanças de peso ao longo do tempo são fatores que podem acrescentar informações relevantes à avaliação.
Os autores, portanto, recomendam que pesquisadores e profissionais de saúde sejam extremamente cautelosos ao tirar conclusões sobre mortalidade exclusivamente a partir das categorias tradicionais de IMC.
Conclusão do estudo
A análise sugere que a associação entre excesso de peso, obesidade e mortalidade pode ter sido subestimada em estudos que utilizam apenas o IMC atual para classificar os indivíduos.
Ao considerar a trajetória do peso, os pesquisadores identificaram perfis de saúde diferentes dentro das mesmas categorias de IMC e observaram uma associação mais consistente entre excesso de peso, obesidade e aumento da mortalidade.
Os resultados reforçam, portanto, a necessidade de interpretar o IMC dentro de um contexto mais amplo de avaliação do estado nutricional e metabólico, em vez de utilizá-lo como único indicador de risco.
Relevância para a prática magistral
Para a Farmácia Magistral, o estudo reforça a importância de não utilizar o IMC isoladamente como justificativa para uma estratégia de controle de peso.
Na avaliação de pacientes que procuram estratégias nutricionais ou suplementação voltadas ao metabolismo e à composição corporal, informações como histórico de peso, evolução da circunferência abdominal, composição corporal, hábitos alimentares, nível de atividade física e parâmetros metabólicos podem oferecer uma visão muito mais completa.
Além disso, o trabalho é especialmente relevante para a comunicação com prescritores: uma abordagem magistral voltada ao controle de peso deve estar inserida em uma estratégia individualizada, e não simplesmente fundamentada na classificação “sobrepeso” ou “obesidade” determinada pelo IMC.
Bibliografia consultada:
Masters RK. Sources and severity of bias in estimates of the BMI–mortality association. Population Studies, 2023.
