Psyllium e colite ulcerativa: como a fibra pode modular o eixo ácidos biliares–FXR

Psyllium e colite ulcerativa: como a fibra pode modular o eixo ácidos biliares–FXR

O psyllium é uma fibra alimentar obtida das sementes de Plantago e amplamente utilizado na prática clínica por seus efeitos sobre o trânsito intestinal e a consistência das fezes. No entanto, novas evidências sugerem que seus efeitos podem ir além da função de uma fibra formadora de gel.

Um estudo publicado na revista Cellular and Molecular Gastroenterology and Hepatology identificou um mecanismo pelo qual o psyllium foi capaz de reduzir processos inflamatórios associados à colite em camundongos. Segundo os pesquisadores, a fibra promove alterações nos ácidos biliares que levam à ativação do receptor farnesoide X (FXR), um receptor nuclear envolvido na regulação do metabolismo dos ácidos biliares e de processos relacionados à inflamação intestinal.


Diferentes fibras podem produzir efeitos diferentes

Embora as fibras alimentares sejam frequentemente agrupadas sob uma mesma categoria, elas apresentam características estruturais e metabólicas bastante distintas.

No estudo, os pesquisadores compararam diferentes tipos de fibras, incluindo inulina, celulose, pectina, glucomanana e psyllium.

Entre elas, o psyllium apresentou uma capacidade particular de produzir efeitos benéficos mesmo em quantidades relativamente modestas, atuando sobre dois estados inflamatórios crônicos avaliados pelos pesquisadores: síndrome metabólica e colite ulcerativa.

Essa observação é importante porque demonstra que não é adequado considerar que todas as fibras apresentam necessariamente os mesmos efeitos fisiológicos.


Psyllium, ácidos biliares e receptor FXR

Um dos principais achados do estudo foi a identificação de uma possível sequência de eventos envolvendo o psyllium e o metabolismo dos ácidos biliares.

A suplementação com psyllium promoveu aumento dos ácidos biliares séricos, o que levou à ativação do receptor FXR.

O FXR funciona como um importante sensor dos ácidos biliares e participa da regulação de processos metabólicos e inflamatórios. No modelo experimental, sua ativação apresentou papel fundamental na proteção contra a colite.

Segundo os pesquisadores, a ativação do FXR foi necessária e suficiente para prevenir o desenvolvimento da colite nos modelos utilizados.

Dessa forma, o trabalho não apenas demonstra uma associação entre o consumo de psyllium e melhora da inflamação intestinal, mas também oferece uma possível explicação mecanística para esse efeito.


O que isso acrescenta ao conhecimento sobre a colite ulcerativa?

O psyllium já vinha sendo estudado como uma estratégia auxiliar para manutenção da remissão da colite ulcerativa, mas os mecanismos responsáveis por esses efeitos ainda não estavam completamente esclarecidos.

Os novos achados sugerem que parte dessa atividade pode estar relacionada à capacidade da fibra de modificar o metabolismo dos ácidos biliares e, consequentemente, estimular a sinalização mediada pelo FXR.

Esse mecanismo é particularmente interessante porque amplia a compreensão sobre a interação entre fibras alimentares, metabolismo dos ácidos biliares e inflamação intestinal.

Além disso, os resultados levantam a possibilidade de que estratégias farmacológicas direcionadas ao FXR possam futuramente ser exploradas no manejo de doenças inflamatórias intestinais.


Nem toda fibra atua da mesma maneira

Outro ponto importante do estudo é a demonstração de que diferentes fibras apresentam efeitos distintos sobre o organismo.

Inulina, celulose, pectina, glucomanana e psyllium possuem propriedades físico-químicas e metabólicas diferentes e, portanto, podem interagir de maneiras distintas com o microbioma, o metabolismo intestinal e as vias de sinalização do hospedeiro.

Essa constatação é relevante tanto para a pesquisa quanto para a prática clínica. A escolha de uma fibra não deve necessariamente considerar apenas sua capacidade de aumentar o volume fecal ou melhorar o trânsito intestinal, mas também suas possíveis repercussões metabólicas e imunológicas.


Conclusão do estudo

Os resultados demonstraram que o psyllium apresentou efeito protetor contra a inflamação intestinal em modelos experimentais de colite, associado ao aumento dos ácidos biliares e à ativação do receptor FXR.

O estudo também contribui para explicar possíveis mecanismos relacionados aos benefícios anteriormente observados com o uso de psyllium na manutenção da remissão da colite ulcerativa.

Entretanto, os resultados foram obtidos principalmente em modelos animais, e os próprios pesquisadores destacam a necessidade de estudos clínicos em humanos para determinar se os mesmos mecanismos e benefícios podem ser reproduzidos em pacientes com doenças inflamatórias intestinais.


Relevância para a prática magistral

Para a Farmácia Magistral, o estudo reforça o potencial das fibras específicas como componentes de estratégias individualizadas para a saúde intestinal.

O principal ponto de atenção é que não se deve tratar “fibra” como uma categoria homogênea. O tipo de fibra, sua dose, suas propriedades físico-químicas e sua interação com o metabolismo intestinal podem determinar respostas bastante diferentes.

O psyllium, especificamente, já possui ampla utilização magistral e pode ser considerado dentro de estratégias voltadas à regularidade intestinal e ao suporte da saúde gastrointestinal. Os novos achados acrescentam uma perspectiva interessante ao demonstrar uma possível interação entre psyllium, ácidos biliares e FXR.

 

Bibliografia consultada:

Bretin A;et al. PSYLLIUM FIBER PROTECTS AGAINST COLITIS VIA ACTIVATION OF BILE ACID SENSOR FXRCellular and Molecular Gastroenterology and Hepatology, 2023.

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