
A osteoporose é uma doença osteometabólica caracterizada pela redução da massa óssea e pela deterioração da microarquitetura dos ossos, aumentando significativamente o risco de fraturas. Embora seja mais frequente em mulheres após a menopausa, devido à queda dos níveis de estrogênio, a doença também pode acometer homens e indivíduos com outras condições clínicas que aceleram a perda óssea.
Nos últimos anos, o papel da microbiota intestinal na saúde óssea tem despertado grande interesse científico. Além de influenciar a absorção de minerais como cálcio e magnésio, diversos estudos sugerem que algumas cepas probióticas podem modular a resposta imunológica e interferir diretamente no remodelamento ósseo.
Nesse contexto, pesquisadores investigaram pela primeira vez o potencial do Lactobacillus rhamnosus na prevenção da perda óssea em um modelo experimental de osteoporose pós-menopausa.
Como o estudo foi realizado?
O estudo, publicado em 2021 na revista Scientific Reports, avaliou os efeitos do probiótico Lactobacillus rhamnosus em camundongos submetidos à ovariectomia, um modelo experimental amplamente utilizado para simular a osteoporose pós-menopausa.
Além das análises realizadas nos animais, os pesquisadores também avaliaram, em experimentos in vitro, o efeito do probiótico sobre células do sistema imunológico envolvidas na remodelação óssea.
O que os pesquisadores encontraram?
Os resultados demonstraram que o Lactobacillus rhamnosus apresentou importante atividade imunomoduladora, promovendo alterações que favoreceram a preservação da massa óssea.
Entre os principais achados, destacam-se:
- inibição da formação de osteoclastos (osteoclastogênese), células responsáveis pela reabsorção óssea;
- modulação do equilíbrio entre células T reguladoras (Treg) e Th17, favorecendo um perfil imunológico mais protetor para o tecido ósseo;
- redução da perda óssea observada nos animais ovariectomizados tratados com o probiótico.
O papel das citocinas na proteção óssea
Os pesquisadores também avaliaram marcadores inflamatórios circulantes e observaram um perfil compatível com menor atividade de reabsorção óssea.
Houve redução significativa das citocinas pró-inflamatórias e osteoclastogênicas:
- IL-6;
- IL-17;
- TNF-α.
Ao mesmo tempo, ocorreu aumento das citocinas consideradas anti-osteoclastogênicas:
- IL-4;
- IL-10;
- IFN-γ.
Segundo os autores, essa modulação imunológica pode representar um dos principais mecanismos pelos quais o Lactobacillus rhamnosus exerce seu efeito osteoprotetor.
O que esses resultados nos mostram?
Este é o primeiro estudo a demonstrar que o Lactobacillus rhamnosus pode atuar diretamente sobre mecanismos imunológicos relacionados ao remodelamento ósseo.
Os resultados reforçam o conceito de que o eixo microbiota–sistema imunológico–tecido ósseo desempenha um papel importante na manutenção da saúde esquelética e abre novas perspectivas para o uso de probióticos como estratégia complementar em doenças caracterizadas por perda de massa óssea.
Conclusão
O estudo demonstra, pela primeira vez, que o Lactobacillus rhamnosus foi capaz de reduzir a perda óssea em um modelo experimental de osteoporose pós-menopausa, por meio da modulação da resposta imunológica e da inibição da formação de osteoclastos. Esses achados reforçam o crescente interesse científico sobre o papel da microbiota intestinal na saúde óssea e ampliam as perspectivas para novas abordagens complementares no manejo da osteoporose.
Relevância para a prática magistral
O interesse pelos probióticos tem se expandido muito além da saúde intestinal. Este estudo reforça o potencial do Lactobacillus rhamnosus como uma cepa de interesse em protocolos voltados à saúde óssea, especialmente em mulheres no período pós-menopausa.
Na prática magistral, o trabalho fortalece a tendência de desenvolver formulações que associem probióticos a nutrientes tradicionalmente utilizados na saúde óssea, como vitamina D, vitamina K2, cálcio, magnésio e colágeno, sempre respeitando a individualização do tratamento e a escolha de cepas com respaldo científico.
Além disso, o estudo chama atenção para o papel da imunomodulação como um dos mecanismos envolvidos na preservação da massa óssea, ampliando as possibilidades terapêuticas baseadas no eixo intestino-osso.
Bibliografia consultada:
Sapra L, et al. Lactobacillus rhamnosus attenuates bone loss and maintains bone health by skewing Treg‑Th17 cell balance in Ovx mice. Scientific Report, 2021.