A doença de Alzheimer é uma condição neurodegenerativa progressiva na qual diferentes mecanismos estão envolvidos na perda de função neuronal. Entre eles, o acúmulo do peptídeo β-amiloide (Aβ) ocupa posição de destaque, especialmente pela formação de agregados e oligômeros com potencial neurotóxico.
Nesse contexto, uma revisão publicada na Biomedicine & Pharmacotherapy analisou as evidências disponíveis sobre o papel da melatonina na prevenção e no tratamento da doença de Alzheimer relacionada ao Aβ, destacando possíveis mecanismos pelos quais o hormônio poderia exercer efeitos neuroprotetores.
O papel do Aβ na doença de Alzheimer
De acordo com a revisão, o Aβ é considerado um dos fatores patogênicos importantes na etiologia da doença de Alzheimer.
Em condições normais, existe um equilíbrio entre a produção e a depuração do Aβ no cérebro. Na doença de Alzheimer, esse equilíbrio pode ser comprometido, favorecendo a deposição do peptídeo e a formação de oligômeros neurotóxicos, que podem contribuir para a disfunção e a morte neuronal.
Por isso, estratégias capazes de interferir na produção, agregação ou depuração do Aβ vêm sendo investigadas como potenciais abordagens terapêuticas.
Como a melatonina pode atuar?
A revisão destaca que a melatonina apresenta propriedades neuroprotetoras e pode interferir em diferentes processos relacionados à fisiopatologia da doença de Alzheimer.
Entre os mecanismos discutidos está a capacidade de:
- inibir o processamento amiloidogênico da proteína precursora amiloide (APP);
- reduzir a produção de Aβ;
- contribuir para a depuração do Aβ;
- atenuar a neurotoxicidade induzida pelo Aβ;
- melhorar alterações relacionadas ao sono;
- contribuir potencialmente para a preservação da função cognitiva.
Assim, a melatonina poderia atuar não apenas sobre um mecanismo isolado, mas sobre diferentes processos envolvidos na progressão da doença.
Sono e doença de Alzheimer: uma relação importante
Outro aspecto de interesse é a relação entre melatonina e sono.
A melatonina participa da regulação do ciclo sono-vigília e alterações no sono são frequentes em pessoas com doença de Alzheimer. Dessa forma, segundo a revisão, a utilização da melatonina poderia apresentar uma vantagem adicional ao atuar sobre os distúrbios do sono, além de seus potenciais efeitos neuroprotetores.
Essa interação entre sono, metabolismo do Aβ e função cognitiva é uma das áreas que vem estimulando novas pesquisas sobre o papel da melatonina nas doenças neurodegenerativas.
O que os estudos ainda precisam esclarecer?
Apesar dos mecanismos apresentados serem promissores, os autores destacam a necessidade de mais pesquisas para determinar o real potencial terapêutico da melatonina na doença de Alzheimer.
A revisão fornece suporte para a investigação da melatonina como possível agente capaz de interferir na produção e depuração do Aβ e na neurotoxicidade associada ao peptídeo, mas esses mecanismos não devem ser interpretados como evidência de eficácia clínica estabelecida para tratamento ou prevenção da doença.
Conclusão
A revisão publicada na Biomedicine & Pharmacotherapy destaca a melatonina como um potencial agente neuroprotetor na doença de Alzheimer associada ao Aβ.
Os mecanismos discutidos incluem a redução do processamento amiloidogênico da APP e da produção de Aβ, possível melhora da depuração do peptídeo e redução da neurotoxicidade. Além disso, seus efeitos sobre o sono podem representar um mecanismo adicional de interesse.
Os resultados são promissores, mas ainda são necessárias pesquisas clínicas mais robustas para determinar se esses mecanismos se traduzem em benefícios efetivos na prevenção ou no tratamento da doença de Alzheimer.
Relevância para a prática magistral
A melatonina é um insumo de grande interesse para a prática magistral, especialmente em estratégias relacionadas ao sono, envelhecimento saudável e saúde neurológica.
A literatura apresentada nesta revisão amplia a discussão sobre a utilização da melatonina ao relacioná-la a mecanismos diretamente envolvidos na fisiopatologia da doença de Alzheimer, como o metabolismo do Aβ e a neurotoxicidade.
Para a farmácia de manipulação, esse tipo de evidência pode ser transformado em material técnico-científico para visitação de neurologistas, geriatras, psiquiatras e outros profissionais envolvidos com saúde cognitiva, sempre diferenciando claramente mecanismos promissores de evidências clínicas consolidadas.
Bibliografia consultada:
Li Y; et al. Melatonin regulates Aβ production/clearance balance and Aβ neurotoxicity: A potential therapeutic molecule for Alzheimer’s disease. Biomed Pharmacother, 2020.
