A ocitocina é frequentemente conhecida como o “hormônio do amor”, por sua participação na formação de vínculos afetivos, na confiança e em diversos comportamentos sociais. Ela também exerce funções importantes durante o parto, a amamentação e em diferentes processos relacionados ao comportamento humano.
Entretanto, pesquisas recentes mostram que seus efeitos podem ser muito mais complexos do que se imaginava.
Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) sugere que, dependendo da região do cérebro onde atua, a ocitocina pode favorecer comportamentos relacionados à ansiedade social em modelos experimentais.
É importante destacar que os resultados foram obtidos em camundongos e ainda precisam ser confirmados em seres humanos.
O que motivou esse estudo?
Embora muitos estudos tenham demonstrado efeitos pró-sociais da ocitocina, pesquisas anteriores também observaram que, em determinadas circunstâncias, ela pode estar associada ao aumento da ansiedade, da desconfiança ou de comportamentos sociais menos cooperativos.
Os pesquisadores buscaram entender por que esses resultados aparentemente contraditórios ocorrem.
A hipótese era de que a resposta poderia depender do circuito cerebral ativado.
Qual região do cérebro foi investigada?
Grande parte da ocitocina é produzida no hipotálamo, estrutura envolvida na regulação de diversas funções fisiológicas e emocionais.
Neste estudo, os pesquisadores concentraram sua atenção em outro grupo de neurônios localizado no núcleo leito da estria terminal (NLET) (bed nucleus of the stria terminalis – BNST).
Essa região participa da resposta ao estresse e tem sido estudada em diferentes transtornos psiquiátricos, incluindo:
- ansiedade;
- depressão;
- dependência química;
- alterações relacionadas ao estresse crônico.
O que os pesquisadores descobriram?
Utilizando diferentes técnicas experimentais em camundongos, os autores observaram que:
- a produção de ocitocina no NLET aumentou após situações de estresse social;
- bloquear a produção local de ocitocina reduziu comportamentos relacionados à ansiedade social;
- estimular os circuitos que recebem projeções desses neurônios foi suficiente para induzir comportamentos semelhantes aos observados após o estresse.
Esses resultados sugerem que a ocitocina produzida nessa região específica pode contribuir para respostas relacionadas à ansiedade social em modelos animais.
Os efeitos foram diferentes entre machos e fêmeas?
Sim.
Os pesquisadores observaram que as alterações provocadas pelo estresse social foram mais duradouras nas fêmeas.
Esse achado chamou atenção porque os transtornos de ansiedade apresentam maior prevalência em mulheres.
Entretanto, como o estudo foi realizado em camundongos, não é possível concluir que o mesmo mecanismo ocorra em seres humanos.
Isso significa que a ocitocina faz mal?
Não.
Na verdade, o estudo reforça uma ideia cada vez mais aceita na neurociência: os efeitos da ocitocina dependem do contexto biológico e dos circuitos cerebrais envolvidos.
Enquanto sua atuação em determinadas regiões está relacionada ao fortalecimento de vínculos sociais, em outras áreas ela pode participar de respostas adaptativas ao estresse.
Assim, a ocitocina não deve ser classificada simplesmente como um hormônio “bom” ou “ruim”.
Quais são as implicações para futuras terapias?
Os autores sugerem que compreender melhor esses circuitos poderá contribuir para o desenvolvimento de tratamentos mais direcionados para transtornos relacionados à ansiedade.
Além disso, os resultados ajudam a explicar por que estudos clínicos com ocitocina administrada por via intranasal apresentaram resultados variados em diferentes populações.
No momento, entretanto, essas aplicações permanecem em investigação.
Quais são as limitações do estudo?
Embora os achados sejam relevantes para a compreensão dos mecanismos neurobiológicos da ansiedade, algumas limitações devem ser consideradas:
- a pesquisa foi realizada exclusivamente em camundongos;
- os circuitos cerebrais humanos são significativamente mais complexos;
- ainda não existem evidências clínicas suficientes para afirmar que bloquear ou estimular a ocitocina seja uma estratégia eficaz para tratar transtornos de ansiedade.
Portanto, os resultados representam um avanço no entendimento da neurobiologia da ocitocina, mas ainda não têm aplicação clínica direta.
Conclusão
O estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences mostrou que a ocitocina pode exercer efeitos distintos conforme o circuito cerebral em que atua. Em um modelo experimental com camundongos, a produção de ocitocina no núcleo leito da estria terminal foi associada ao aumento de comportamentos relacionados à ansiedade social após situações de estresse. Esses resultados ajudam a explicar por que a ocitocina nem sempre produz efeitos pró-sociais e reforçam a complexidade desse sistema neurobiológico. No entanto, ainda são necessários estudos clínicos para determinar se esses mecanismos também ocorrem em seres humanos.
Relevância para a prática magistral
O crescente interesse pela ocitocina em pesquisas sobre comportamento, ansiedade e vínculos sociais evidencia a importância de interpretar criticamente as evidências antes de extrapolar resultados experimentais para a prática clínica. Para profissionais da área magistral, acompanhar a evolução dessas pesquisas é fundamental, especialmente diante do desenvolvimento de novos fármacos que possam modular os circuitos da ocitocina no futuro.
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Bibliografia consultada:
Wilckens ND, et al. Extrahypothalamic oxytocin neurons drive stress-induced social vigilance and avoidance. Proceedings of the National Academy of Sciences, 2020.
