As doenças inflamatórias intestinais (DIIs), como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, são caracterizadas por inflamação crônica do trato gastrointestinal e resultam de uma interação complexa entre fatores genéticos, imunológicos, ambientais e da microbiota intestinal.
Nesse contexto, compostos naturais com propriedades imunomoduladoras têm despertado crescente interesse científico. Entre eles está o pterostilbeno, um polifenol estruturalmente semelhante ao resveratrol.
Um estudo publicado na The FASEB Journal investigou o potencial desse composto em modelos experimentais de inflamação intestinal.
O que é o pterostilbeno?
O pterostilbeno é um composto fenólico pertencente à família dos estilbenos e apresenta estrutura química semelhante à do resveratrol.
É encontrado naturalmente em pequenas quantidades em alimentos como:
- mirtilos (blueberries);
- uvas;
- algumas espécies vegetais.
Comparado ao resveratrol, o pterostilbeno apresenta maior lipossolubilidade e melhor biodisponibilidade em modelos experimentais, características que despertam interesse para pesquisas farmacológicas.
Por que ele foi estudado nas doenças inflamatórias intestinais?
Estudos anteriores já haviam demonstrado que o resveratrol apresenta efeitos anti-inflamatórios e imunomoduladores em modelos experimentais de colite.
A partir dessa observação, pesquisadores da Universidade de Ciência de Tóquio avaliaram compostos estruturalmente semelhantes para identificar moléculas com maior capacidade de modular a resposta imune.
O pterostilbeno destacou-se entre os compostos analisados.
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores avaliaram inicialmente diferentes compostos de origem vegetal quanto à sua capacidade de modular a ativação do sistema imunológico.
Em seguida, investigaram especificamente os efeitos do pterostilbeno sobre:
- células dendríticas;
- linfócitos T;
- modelos experimentais de doença inflamatória intestinal em camundongos.
O objetivo foi compreender como o composto interfere na resposta inflamatória.
O que os pesquisadores encontraram?
Os experimentos mostraram que o pterostilbeno apresentou atividade imunomoduladora superior aos demais compostos avaliados.
Entre os principais achados observados:
- redução da diferenciação de linfócitos Th1;
- redução da diferenciação de linfócitos Th17, envolvidos na produção de citocinas pró-inflamatórias;
- aumento da diferenciação de linfócitos T reguladores (Treg), importantes para limitar respostas inflamatórias excessivas.
Nos camundongos com colite experimental, a administração oral do composto também foi associada à melhora dos sinais da doença.
Qual a importância das células Th17 e T reguladoras?
A resposta imunológica nas doenças inflamatórias intestinais depende do equilíbrio entre diferentes populações de células T.
De forma simplificada:
- Th1 e Th17 participam da defesa imunológica, mas quando excessivamente ativadas podem contribuir para a inflamação crônica;
- células T reguladoras (Treg) ajudam a controlar essa resposta, reduzindo a ativação exagerada do sistema imunológico.
O estudo sugere que o pterostilbeno pode favorecer esse equilíbrio em modelos experimentais.
O pterostilbeno já pode ser utilizado no tratamento da doença de Crohn ou da retocolite ulcerativa?
Ainda não.
Apesar dos resultados promissores, as evidências disponíveis são pré-clínicas.
Isso significa que os benefícios foram observados em experimentos com células e camundongos, mas ainda não foram confirmados em ensaios clínicos com pacientes.
Antes que o composto possa ser recomendado para uso terapêutico, serão necessários estudos que avaliem:
- eficácia clínica;
- dose ideal;
- segurança em longo prazo;
- possíveis interações medicamentosas.
Quais são as limitações do estudo?
Os resultados devem ser interpretados com cautela por algumas razões:
- o estudo foi realizado em modelos experimentais;
- doenças inflamatórias intestinais humanas apresentam maior complexidade biológica;
- os mecanismos observados em animais podem não se repetir em pacientes;
- ainda não existem evidências suficientes para recomendar o uso do pterostilbeno como tratamento das DIIs.
Conclusão
O estudo publicado na The FASEB Journal demonstrou que o pterostilbeno apresentou efeitos imunomoduladores relevantes em modelos experimentais de doença inflamatória intestinal. O composto reduziu a diferenciação de células Th1 e Th17, aumentou a população de células T reguladoras e foi associado à melhora dos sinais de colite em camundongos. Esses resultados reforçam o potencial do pterostilbeno como alvo de futuras pesquisas, mas ainda não permitem concluir que ele seja eficaz no tratamento da doença de Crohn ou da retocolite ulcerativa em seres humanos.
Relevância para a prática magistral
O interesse crescente por compostos bioativos com ação imunomoduladora amplia as possibilidades de pesquisa na área magistral. O pterostilbeno destaca-se por sua estrutura semelhante ao resveratrol e por características farmacocinéticas potencialmente favoráveis, como maior biodisponibilidade. Entretanto, sua aplicação clínica nas doenças inflamatórias intestinais ainda depende da confirmação dos resultados em estudos clínicos.
Bibliografia consultada:
Takuya Yashiro et al. Pterostilbene reduces colonic inflammation by suppressing dendritic cell activation and promoting regulatory T cell development. The FASEB Journal, 2020.
