Ômega-3 pode reduzir efeitos adversos da isotretinoína no tratamento da acne

Ômega-3 pode reduzir efeitos adversos da isotretinoína no tratamento da acne

A isotretinoína é considerada uma das principais opções terapêuticas para casos de acne nodular, recalcitrante ou grave, especialmente quando outras abordagens não apresentam resposta satisfatória. Apesar de sua eficácia, o tratamento está frequentemente associado a efeitos adversos, principalmente relacionados às mucosas e à pele.

Entre as manifestações mais comuns estão ressecamento e descamação dos lábios e da pele, eczema, ressecamento nasal, epistaxe e alterações oculares. Esses efeitos podem comprometer a tolerabilidade do tratamento e, em alguns casos, dificultar a continuidade da terapia.

Nesse contexto, pesquisas recentes vêm investigando se a suplementação com ácidos graxos ômega-3 poderia contribuir para reduzir essas manifestações.


Ômega-3 como estratégia complementar

Os ácidos graxos ômega-3 apresentam propriedades que podem ser interessantes no contexto dermatológico, especialmente por sua participação na modulação de processos inflamatórios.

A hipótese estudada é que a suplementação possa ajudar a minimizar algumas das alterações mucocutâneas associadas à isotretinoína, proporcionando maior tolerabilidade ao tratamento.

Para avaliar essa possibilidade, pesquisadores conduziram um estudo no qual pacientes com acne receberam isotretinoína isoladamente ou em associação com ômega-3.


Estudo avaliou 118 pacientes durante 16 semanas

Um total de 118 pacientes foi randomizado para dois grupos.

Um grupo recebeu isotretinoína isoladamente, enquanto o outro recebeu isotretinoína associada a 1 g/dia de ômega-3 por via oral.

Os participantes foram acompanhados durante 16 semanas, período no qual foram avaliadas manifestações adversas relacionadas principalmente à pele e às mucosas.


Menor ocorrência de lábios secos

Ao final das 16 semanas, a frequência de lábios secos foi menor entre os pacientes que receberam a associação.

  • Isotretinoína isoladamente: 26%
  • Isotretinoína + ômega-3: 14%

Também foram observadas diferenças em outras manifestações.

Para ressecamento nasal, a ocorrência foi de 11% no grupo que recebeu apenas isotretinoína e 0% no grupo associado ao ômega-3.

Em relação à pele seca, os valores foram de 11% e 2%, respectivamente.

Os resultados apontam, portanto, para uma possível redução dos efeitos adversos mucocutâneos relacionados ao tratamento com isotretinoína quando o ômega-3 é utilizado como estratégia complementar.


Por que essa associação pode ser interessante?

A isotretinoína atua profundamente na fisiopatologia da acne, mas também interfere na atividade das glândulas sebáceas e na produção de sebo, contribuindo para o desenvolvimento de manifestações como xerose, queilite e ressecamento de mucosas.

A utilização concomitante de ômega-3 pode representar uma estratégia de suporte para melhorar a tolerabilidade do tratamento, particularmente nos pacientes que apresentam manifestações mucocutâneas mais intensas.

Entretanto, é importante não interpretar os resultados como uma forma de eliminar os efeitos adversos da isotretinoína. O estudo demonstrou redução na frequência de algumas manifestações, mas não significa que todos os pacientes deixarão de apresentar ressecamento ou outras reações.


Conclusão do estudo

A suplementação de 1 g/dia de ômega-3 durante 16 semanas, associada ao tratamento com isotretinoína, esteve relacionada a uma menor ocorrência de algumas manifestações mucocutâneas, especialmente lábios secos, ressecamento nasal e pele seca.

Os resultados sugerem que o ômega-3 pode ser uma estratégia complementar interessante para melhorar a tolerabilidade da isotretinoína. No entanto, são necessários estudos adicionais para confirmar esses benefícios, determinar quais pacientes podem obter maior benefício e estabelecer melhor a relação entre dose, composição do ômega-3 e resposta clínica.


Relevância para a prática magistral

Para a Farmácia Magistral, o estudo apresenta uma possibilidade interessante de suporte nutricional individualizado durante tratamentos dermatológicos que apresentam efeitos adversos mucocutâneos.

A associação de ômega-3 pode ser considerada pelo prescritor como uma estratégia complementar em pacientes que utilizam isotretinoína, especialmente quando o ressecamento cutâneo e das mucosas compromete a tolerabilidade do tratamento.

Na manipulação, entretanto, é importante considerar que “ômega-3” não representa uma composição única. A concentração e a proporção de EPA e DHA, a forma farmacêutica e a qualidade da matéria-prima devem ser avaliadas na elaboração da formulação.

Assim, os resultados deste estudo abrem espaço para o desenvolvimento de estratégias magistrais complementares, mas não justificam a substituição das medidas dermatológicas convencionais nem a interpretação de que o ômega-3 previne todos os efeitos adversos da isotretinoína.

 

Bibliografia consultada:

Mirnezami M; Rahimi H. Is Oral Omega-3 Effective in Reducing Mucocutaneous Side Effects of Isotretinoin in Patients with Acne Vulgaris? Dermatology Research and Practice, 2018.

 

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