O uso de laxantes é uma estratégia comum para o manejo da constipação, especialmente em indivíduos que apresentam alterações persistentes do trânsito intestinal. Entretanto, o uso frequente ou excessivo desses produtos pode produzir alterações no ambiente intestinal e, segundo novas evidências, estar associado a consequências que vão além do trato gastrointestinal.
Um estudo publicado na revista Neurology identificou uma associação entre o uso regular de laxantes de venda livre e um maior risco de desenvolvimento de demência. Os pesquisadores observaram que indivíduos que utilizavam laxantes regularmente apresentavam um risco aproximadamente 51% maior de desenvolver demência durante o período de acompanhamento.
Os resultados levantam novas questões sobre a possível relação entre o uso prolongado desses produtos, o microbioma intestinal e a saúde cerebral.
Como os laxantes poderiam estar relacionados ao cérebro?
O intestino e o cérebro mantêm uma comunicação bidirecional por meio do chamado eixo intestino-cérebro, que envolve vias neurais, metabólicas, imunológicas e endócrinas.
De acordo com os pesquisadores, o uso frequente de laxantes pode modificar o microbioma intestinal. Essas alterações poderiam, teoricamente, interferir na sinalização nervosa entre intestino e cérebro ou modificar a produção de metabólitos e toxinas intestinais capazes de exercer efeitos sistêmicos.
Essa é uma das hipóteses levantadas para explicar a associação observada no estudo. No entanto, é importante destacar que o trabalho não demonstrou que essa alteração do microbioma seja responsável pelo aumento do risco de demência.
Mais de 500 mil pessoas foram acompanhadas
A pesquisa utilizou dados de 502.229 participantes de um banco de dados do Reino Unido, com idade média de 57 anos e sem diagnóstico de demência no início do acompanhamento.
Entre eles, 18.235 indivíduos (3,6%) relataram uso regular de laxantes de venda livre.
Para a análise, o uso regular foi definido como a utilização de um laxante em praticamente todos os dias da semana durante o mês anterior ao início do estudo.
Os participantes foram acompanhados por aproximadamente 10 anos, período durante o qual os pesquisadores avaliaram a ocorrência de demência.
Usuários regulares apresentaram maior risco
Durante o acompanhamento, 218 pessoas que utilizavam laxantes regularmente (1,3%) desenvolveram demência.
Entre aqueles que não faziam uso regular, foram registrados 1.969 casos (0,4%).
Após os ajustes para diversos fatores que poderiam influenciar os resultados — incluindo idade, sexo, escolaridade, outras condições de saúde, uso de medicamentos e histórico familiar de demência — os pesquisadores encontraram um risco 51% maior de demência entre os usuários regulares de laxantes.
O resultado chama atenção principalmente pela diferença observada na frequência de uso.
O risco aumentou conforme o número de laxantes utilizados
Outro achado interessante foi a relação observada com o número de tipos de laxantes utilizados.
Entre os indivíduos que utilizavam apenas um tipo de laxante, o risco de demência foi aproximadamente 28% maior.
Já entre aqueles que utilizavam dois ou mais tipos de laxantes, o aumento do risco chegou a aproximadamente 90%.
Esse resultado pode sugerir uma relação dose-resposta relacionada à intensidade do uso, mas essa interpretação deve ser feita com cautela, pois o estudo não possuía informações detalhadas sobre as doses utilizadas.
O estudo não prova que laxantes causam demência
Esse é provavelmente o ponto mais importante para a interpretação dos resultados.
O estudo foi observacional. Portanto, os pesquisadores identificaram uma associação entre o uso regular de laxantes e a ocorrência posterior de demência, mas não conseguiram demonstrar que o uso dos laxantes foi a causa do desenvolvimento da doença.
Existe, inclusive, a possibilidade de que outros fatores estejam envolvidos nessa relação.
A própria constipação, por exemplo, pode estar relacionada a características de saúde, alimentação, atividade física, uso de medicamentos ou alterações neurológicas que também poderiam influenciar o risco de demência.
Além disso, os pesquisadores não dispunham de informações suficientemente detalhadas sobre dose, duração acumulada do uso e tipos específicos de laxantes, impossibilitando uma avaliação mais precisa da relação entre exposição e risco.
Portanto, os resultados devem ser interpretados como um sinal epidemiológico que merece investigação, e não como evidência de que o uso de laxantes provoca demência.
O que esses resultados representam para a saúde intestinal?
A pesquisa acrescenta mais uma evidência à crescente compreensão de que alterações no funcionamento intestinal podem estar relacionadas a processos sistêmicos, incluindo aqueles que envolvem o sistema nervoso central.
Entretanto, o resultado também reforça a importância de diferenciar uso racional de laxantes de utilização frequente e indiscriminada.
A constipação crônica deve ser investigada em relação às suas causas e, sempre que possível, estratégias como adequação da ingestão de fibras, hidratação, atividade física e identificação de fatores associados devem fazer parte da abordagem.
Quando há necessidade de intervenção farmacológica, a escolha do produto deve considerar as características individuais do paciente, evitando a utilização indiscriminada de diferentes classes de laxantes.
Conclusão do estudo
O estudo identificou que pessoas que utilizavam laxantes regularmente apresentavam maior risco de desenvolver demência durante aproximadamente 10 anos de acompanhamento, com uma associação ainda mais elevada entre aqueles que utilizavam dois ou mais tipos de laxantes.
Os pesquisadores levantam a hipótese de que alterações do microbioma intestinal e da comunicação entre intestino e cérebro possam participar dessa associação.
Contudo, os resultados não comprovam uma relação causal. São necessários estudos adicionais para determinar se o uso frequente de laxantes realmente contribui para o desenvolvimento de demência e quais mecanismos poderiam estar envolvidos.
Relevância para a prática magistral
Para a Farmácia Magistral, o estudo reforça a importância de uma abordagem mais criteriosa diante de formulações destinadas ao manejo da constipação.
O fato de um produto ser vendido sem prescrição não significa que seu uso contínuo ou combinado seja isento de riscos. Em pacientes que utilizam laxantes de maneira frequente, é importante considerar a possibilidade de investigar a causa da constipação antes de simplesmente aumentar doses ou associar diferentes agentes.
Por outro lado, não há fundamento, a partir desse estudo, para afirmar que o uso terapêutico adequado de laxantes cause demência. O principal alerta está relacionado ao uso regular e, especialmente, à utilização de múltiplos tipos de laxantes.
Para o desenvolvimento de estratégias magistrais, isso reforça o interesse por abordagens individualizadas que considerem fibras específicas, hidratação, microbiota intestinal, hábitos de vida e características do paciente, em vez de depender exclusivamente de agentes laxativos para controlar o sintoma.
Bibliografia consultada:
Yang Z; et al. Association Between Regular Laxative Use and Incident Dementia in UK Biobank Participants. Neurology, 2023
