Os inibidores da bomba de prótons (IBPs), como omeprazol, pantoprazol, esomeprazol, lansoprazol e rabeprazol, estão entre os medicamentos mais prescritos no mundo para o tratamento do refluxo gastroesofágico, úlceras pépticas e outras doenças relacionadas à hipersecreção ácida. Embora sejam considerados seguros quando utilizados corretamente, evidências recentes sugerem que o uso prolongado dessa classe de medicamentos pode estar associado ao aumento do risco de desenvolver diabetes tipo 2.
Um estudo publicado em 2020 na revista Gut observou que usuários crônicos de inibidores da bomba de prótons apresentaram maior incidência de diabetes, sendo o risco proporcional ao tempo de utilização do medicamento.
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores analisaram dados de 204.689 participantes, sendo 176.050 mulheres e 28.639 homens, com idades entre 25 e 75 anos.
No momento da inclusão no estudo e a cada dois anos, os participantes atualizavam informações sobre:
- histórico médico;
- hábitos de vida;
- uso de medicamentos;
- novas doenças diagnosticadas.
Foi considerado uso regular a utilização de inibidores da bomba de prótons duas ou mais vezes por semana durante os dois anos anteriores à avaliação.
O acompanhamento dos participantes ocorreu por um período médio entre 9 e 12 anos.
Quais foram os resultados?
Durante o período de acompanhamento, os pesquisadores observaram que a incidência de diabetes tipo 2 foi maior entre os usuários regulares de IBPs.
O risco absoluto anual foi de:
- 7,44 casos por 1.000 pessoas entre usuários de IBPs;
- 4,32 casos por 1.000 pessoas entre os não usuários.
Após o ajuste para diversos fatores que poderiam influenciar os resultados, como hipertensão arterial, dislipidemia, sedentarismo e uso de outros medicamentos, verificou-se que os usuários regulares apresentavam 24% mais risco de desenvolver diabetes tipo 2.
Quanto maior o tempo de uso, maior o risco observado
Os pesquisadores também identificaram uma relação entre a duração do tratamento e o aumento do risco.
Os resultados mostraram que:
- uso por até 2 anos esteve associado a um aumento de aproximadamente 5% no risco;
- uso por mais de 2 anos foi associado a um aumento de 26% no risco de diabetes tipo 2.
Além disso, observaram que esse risco diminuía progressivamente após a interrupção do tratamento.
Outros fatores influenciaram os resultados?
Segundo a análise, a associação permaneceu consistente independentemente de fatores como:
- sexo;
- idade;
- tabagismo;
- consumo de álcool;
- prática de atividade física;
- alimentação;
- histórico familiar de diabetes;
- colesterol elevado;
- uso regular de anti-inflamatórios.
Curiosamente, a associação foi mais evidente entre indivíduos que não apresentavam excesso de peso ou hipertensão arterial.
Os bloqueadores H2 apresentaram o mesmo comportamento?
Para comparação, os pesquisadores também avaliaram outra classe de medicamentos utilizados para reduzir a produção de ácido gástrico: os bloqueadores dos receptores H2.
Nessa análise, também foi observada associação com aumento do risco de diabetes, porém de menor magnitude.
O uso regular desses medicamentos esteve relacionado a um aumento de aproximadamente 14% no risco, sendo que períodos mais longos de utilização também estiveram associados a maiores riscos.
Qual pode ser o mecanismo dessa associação?
Embora o estudo não tenha investigado diretamente os mecanismos envolvidos, os autores sugerem que uma possível explicação esteja nas alterações provocadas pelos inibidores da bomba de prótons sobre o microbioma intestinal.
Mudanças na composição das bactérias intestinais já foram relacionadas a alterações metabólicas e à resistência à insulina, hipótese que poderá ser melhor esclarecida em pesquisas futuras.
Conclusão
Este grande estudo observacional encontrou uma associação entre o uso prolongado de inibidores da bomba de prótons e um maior risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2. Os resultados indicam que o risco aumenta com o tempo de utilização e diminui após a interrupção do tratamento. Esses achados reforçam a importância do uso criterioso dos IBPs e do acompanhamento clínico de pacientes em terapia prolongada.
Relevância para a prática magistral
Os inibidores da bomba de prótons são frequentemente utilizados por pacientes em tratamento contínuo e fazem parte da rotina de acompanhamento em diversas áreas clínicas. Na prática magistral, o farmacêutico pode contribuir orientando quanto ao uso racional desses medicamentos, reforçando a importância da reavaliação periódica da necessidade do tratamento prolongado e incentivando o acompanhamento clínico dos parâmetros metabólicos em pacientes que utilizam IBPs por longos períodos.
Além disso, muitos pacientes em uso crônico desses medicamentos também utilizam suplementos ou formulações manipuladas voltadas ao metabolismo da glicose, microbiota intestinal e saúde gastrointestinal, tornando a atenção farmacêutica ainda mais relevante.
Bibliografia consultada:
Jinqiu Y, et al. Regular use of proton pump inhibitors and risk of type 2 diabetes: results from three prospective cohort studies. Gut, 2020
