Os probióticos estão entre os suplementos nutricionais mais conhecidos e estudados. Nos últimos anos, diversas pesquisas investigaram sua relação com a saúde intestinal, função imunológica, inflamação, saúde mental e metabolismo.
Mas uma questão vem despertando cada vez mais interesse:
será que as bactérias que habitam o nosso intestino também podem influenciar o peso corporal?
O que são probióticos?
Probióticos são microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefícios à saúde do hospedeiro.
Entre os microrganismos mais utilizados estão espécies dos gêneros Lactobacillus e Bifidobacterium.
Embora os mecanismos de ação ainda estejam sendo investigados, estudos sugerem que os probióticos podem participar da modulação da microbiota intestinal, resposta imunológica, inflamação e metabolismo.
Microbioma intestinal × peso corporal
O microbioma intestinal corresponde ao conjunto de microrganismos, seus genes e o ambiente em que vivem no trato gastrointestinal.
Pesquisas vêm demonstrando uma relação entre a composição da microbiota e o metabolismo energético, sugerindo que alterações nesse ecossistema podem estar associadas à obesidade e a alterações metabólicas.
Entre os mecanismos investigados estão alterações na sensibilidade à insulina, inflamação, metabolismo energético e armazenamento de gordura.
No entanto, essa relação é complexa e não pode ser explicada apenas pela quantidade de uma determinada espécie ou pela proporção entre grupos bacterianos.
Quais probióticos foram estudados no controle do peso?
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2019, que reuniu 12 ensaios clínicos randomizados e 821 participantes, encontrou reduções mais significativas de peso corporal, circunferência abdominal, gordura corporal e IMC entre os participantes que receberam probióticos em comparação aos controles.
Outra revisão sistemática e meta-análise, também publicada em 2019, avaliou 105 estudos e 6.826 participantes e encontrou efeitos favoráveis da suplementação sobre gordura corporal, circunferência abdominal e IMC.
Entre as cepas descritas nas revisões estão:
- Bifidobacterium breve
- Bifidobacterium longum
- Streptococcus thermophilus
- Lactobacillus acidophilus
- Lactobacillus casei
- Lactobacillus delbrueckii
- Lactobacillus gasseri
- Lactobacillus rhamnosus
É importante lembrar que os efeitos dos probióticos são cepa-específicos. Portanto, não é adequado considerar que qualquer produto probiótico produzirá necessariamente os mesmos resultados observados nos estudos.
Probióticos também podem ajudar a evitar o ganho de peso?
Além da perda de peso, alguns estudos investigaram a possibilidade de os probióticos contribuírem para limitar o ganho de peso em determinadas situações.
Em um pequeno estudo realizado com 20 homens, participantes que receberam uma combinação de diferentes cepas probióticas apresentaram menor ganho de peso e gordura corporal durante quatro semanas de uma dieta hipercalórica rica em gordura, quando comparados ao grupo placebo.
Apesar do resultado interessante, o número reduzido de participantes e o curto período de acompanhamento fazem com que esse achado ainda precise ser interpretado com cautela.
Como os probióticos poderiam influenciar o peso?
Os mecanismos investigados incluem:
↑ produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), que podem participar da regulação do metabolismo energético;
↓ inflamação, inclusive por possíveis alterações na produção de componentes bacterianos como o lipopolissacarídeo (LPS);
↑ sensibilidade à insulina;
modulação do apetite e do metabolismo;
alteração do armazenamento e metabolismo de lipídios;
modulação da expressão de genes relacionados à inflamação.
Ainda assim, os mecanismos responsáveis pelos possíveis efeitos sobre o peso corporal não estão completamente esclarecidos.
E os riscos?
Embora os probióticos sejam amplamente utilizados, isso não significa que sejam isentos de riscos.
Ainda existem lacunas sobre a segurança do uso prolongado de determinados produtos e sobre os efeitos da introdução de grandes quantidades de microrganismos no trato gastrointestinal.
Também existem preocupações teóricas relacionadas à transferência de genes de resistência a antimicrobianos e, em determinadas populações vulneráveis, ao risco de infecções oportunistas.
Por isso, pacientes imunocomprometidos ou com condições clínicas específicas devem receber orientação profissional antes de utilizar probióticos.
Relevância para a prática magistral
A relação entre microbiota, metabolismo e controle do peso abre um campo interessante para a prática magistral.
Os estudos apresentados demonstram que diferentes cepas probióticas vêm sendo investigadas em estratégias relacionadas à composição corporal e ao metabolismo. Porém, os resultados não permitem afirmar que os probióticos, de maneira geral, sejam um tratamento para obesidade.
Para o prescritor, a escolha deve considerar a cepa utilizada, dose, duração do tratamento, indicação e características individuais do paciente, já que diferentes probióticos podem apresentar efeitos distintos.
Para a farmácia de manipulação, conhecer as evidências específicas de cada cepa é fundamental para transformar o conceito de “probiótico” em uma estratégia verdadeiramente personalizada.
Quando falamos em microbiota, não existe uma fórmula única que sirva para todos. A escolha da cepa pode ser tão importante quanto a escolha do ativo.
Bibliografia consultada:
– Wicinski M, et al. Probiotics for the treatment of overweight and obesity in humans – a review of clinical trials. Microorganisms, 2020.
– Wang ZB, et al. The Potential Role of Probiotics in Controlling Overweight/Obesity and Associated Metabolic Parameters in Adults: A Systematic Review and Meta-Analysis. Hindawi – Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, 2019.
– Koutnikova H, et al. Impact of bacterial probiotics on obesity, diabetes and non-alcoholic fatty liver disease related variables: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ Open, 2019
– Osterberg KL, et al. Probiotic supplementation attenuates increases in body mass and fat mass during high‐fat diet in healthy young adults. Obesity, 2015
– Kothari D, Patel S, Kim SK. Probiotic supplements might not be universally-effective and safe: A review. Biomed Pharmacother, 2019
– Disponível em Medical News Today. Traduzido e adaptado por Magistral Guide
