A catarata, caracterizada pela opacificação progressiva do cristalino, está entre as principais causas de deficiência visual e cegueira em todo o mundo. O processo está associado ao envelhecimento, mas diferentes mecanismos podem contribuir para sua formação e progressão.
Entre eles, o estresse oxidativo tem sido apontado como um dos fatores envolvidos na alteração das estruturas do cristalino. Quando o dano oxidativo se acumula e ultrapassa a capacidade antioxidante natural do tecido, pode ocorrer agregação das proteínas do cristalino e apoptose das células epiteliais, contribuindo para a formação da catarata.
Nesse contexto, nutrientes envolvidos na defesa antioxidante do organismo vêm sendo investigados como possíveis fatores associados à saúde ocular.
O papel dos oligoelementos na saúde ocular
Ferro, zinco, cobre e selênio são oligoelementos essenciais que participam de diferentes processos metabólicos.
Para avaliar se a ingestão desses minerais poderia estar relacionada à ocorrência de catarata relacionada à idade, pesquisadores utilizaram dados do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES).
O objetivo foi investigar se a ingestão dietética desses quatro oligoelementos apresentava alguma associação com a presença de catarata em indivíduos com 50 anos ou mais.
Como foi realizado o estudo?
Após a aplicação dos critérios de seleção, 7.525 participantes foram incluídos na análise.
Os pesquisadores avaliaram a ingestão de:
- ferro;
- zinco;
- cobre;
- selênio.
Posteriormente, os dados foram analisados considerando diferentes fatores que poderiam interferir na associação entre a ingestão dos minerais e a ocorrência de catarata.
Selênio apresentou associação com menor incidência de catarata
Entre os minerais avaliados, o selênio foi o único que apresentou uma associação negativa significativa com a incidência de catarata nos modelos ajustados.
Em outras palavras, indivíduos com maior ingestão de selênio apresentaram menor ocorrência de catarata na população estudada.
A associação foi ainda mais evidente em um grupo específico: mulheres na pós-menopausa entre 65 e 74 anos.
Por outro lado, o estudo não identificou associação significativa entre a ingestão de ferro, zinco e cobre e a ocorrência de catarata relacionada à idade.
Por que o selênio pode ser relevante?
O resultado é biologicamente interessante considerando a participação do estresse oxidativo na formação da catarata.
O selênio está relacionado ao funcionamento de sistemas antioxidantes do organismo e, portanto, sua presença adequada pode contribuir para a proteção celular contra danos oxidativos.
Entretanto, é importante diferenciar plausibilidade biológica de comprovação clínica. O estudo observacional identificou uma associação entre maior ingestão de selênio e menor incidência de catarata, mas não permite afirmar que a suplementação com selênio previna a doença.
Além disso, os resultados foram particularmente relevantes em mulheres na pós-menopausa, o que indica que fatores relacionados ao sexo e à idade podem influenciar essa associação.
Conclusão do estudo
A análise de 7.525 indivíduos com 50 anos ou mais identificou uma associação significativa entre maior ingestão de selênio e menor incidência de catarata.
Essa relação foi ainda mais pronunciada entre mulheres na pós-menopausa com idade entre 65 e 74 anos.
Em contrapartida, não foi observada associação significativa entre a ingestão de ferro, zinco ou cobre e a catarata relacionada à idade.
Os resultados reforçam o interesse pelo papel dos nutrientes antioxidantes na saúde ocular, mas estudos prospectivos e ensaios clínicos são necessários para determinar se o aumento da ingestão de selênio pode efetivamente prevenir ou retardar o desenvolvimento da catarata.
Relevância para a prática magistral
Para a farmácia magistral, o estudo chama atenção para a importância de avaliar os nutrientes envolvidos na proteção contra o estresse oxidativo dentro de estratégias individualizadas voltadas à saúde ocular.
O selênio surge como um ativo de interesse para futuras investigações, especialmente diante da associação observada com menor incidência de catarata. Entretanto, o resultado não deve ser interpretado como justificativa para suplementação indiscriminada ou para utilização do mineral como tratamento da catarata.
Na prática, a avaliação da necessidade de suplementação deve considerar a ingestão dietética, as características individuais e as doses adequadas, lembrando que mais não significa necessariamente melhor, especialmente no caso de oligoelemento
Bibliografia cosultada:
Xu B; et al. Selenium intake help prevent age-related cataract formation: Evidence from NHANES 2001–2008. Front Nutr. 2023.
