
O triptofano (TRP) é um aminoácido essencial obtido exclusivamente pela alimentação. Ele participa da síntese de diversas moléculas biologicamente importantes, incluindo a serotonina e a melatonina. Nos últimos anos, entretanto, pesquisadores passaram a investigar outra rota metabólica do triptofano: a via da quinurenina, que parece desempenhar papel importante na comunicação entre metabolismo, inflamação e sistema nervoso central.
Um estudo clínico publicado na revista Nutrients avaliou se alterações nessa via estariam associadas a sintomas depressivos em idosos.
Por que estudar a via da quinurenina?
Embora a serotonina tenha sido historicamente considerada um dos principais neurotransmissores envolvidos na depressão, atualmente sabe-se que esse transtorno possui uma fisiopatologia muito mais complexa.
Grande parte do triptofano ingerido não é convertida em serotonina.
Estima-se que:
- aproximadamente 95% do triptofano siga a via da quinurenina;
- apenas uma pequena fração seja utilizada para a síntese de serotonina no sistema nervoso central;
- outra parte seja incorporada à síntese de proteínas e a outras vias metabólicas.
Os metabólitos produzidos pela via da quinurenina apresentam diferentes efeitos sobre o cérebro, podendo exercer ações neuroprotetoras ou potencialmente neurotóxicas, dependendo do composto formado.
Como o estudo foi realizado?
Pesquisadores da Polônia, recrutaram 90 participantes, distribuídos em três grupos:
- 30 adultos jovens saudáveis (grupo controle);
- 30 idosos sem sintomas depressivos;
- 30 idosos com sintomas leves ou moderados de depressão, avaliados pela Escala de Hamilton para Depressão (HAM-D).
Os pesquisadores avaliaram:
- ingestão alimentar de triptofano;
- concentrações urinárias de triptofano;
- metabólitos da via da quinurenina, incluindo:
- quinurenina (KYN);
- ácido quinurênico (KynA);
- ácido xanturênico (XA);
- ácido quinolínico (QA);
- ácido 5-hidroxiindolacético (5-HIAA), principal metabólito da serotonina.
Quais foram os resultados?
Os idosos com sintomas depressivos apresentaram:
- menor ingestão diária de triptofano;
- maiores concentrações urinárias de:
- quinurenina (KYN);
- ácido quinurênico (KynA);
- ácido xanturênico (XA);
- ácido quinolínico (QA).
Esses resultados sugerem que indivíduos com sintomas depressivos podem apresentar alterações importantes no metabolismo do triptofano, favorecendo a via da quinurenina.
O que esses achados significam?
Os resultados reforçam a hipótese de que alterações no metabolismo do triptofano possam estar relacionadas ao desenvolvimento ou à manutenção dos sintomas depressivos.
Alguns metabólitos da via da quinurenina apresentam propriedades neuroativas e vêm sendo investigados por sua possível participação em:
- neuroinflamação;
- estresse oxidativo;
- alterações da neurotransmissão;
- doenças neurodegenerativas;
- transtornos psiquiátricos.
Entretanto, ainda não está claro se essas alterações representam uma causa da depressão, uma consequência da doença ou ambos os processos.
Quais são as limitações do estudo?
Entre as principais limitações destacam-se:
- pequeno número de participantes;
- desenho transversal;
- avaliação realizada em um único momento;
- impossibilidade de estabelecer relação causal;
- ausência de intervenção nutricional.
Além disso, fatores como inflamação, uso de medicamentos, doenças crônicas e estado nutricicional podem influenciar o metabolismo do triptofano.
Conclusão
O estudo publicado na revista Nutrients observou que idosos com sintomas leves ou moderados de depressão apresentaram menor ingestão de triptofano e alterações na via metabólica da quinurenina quando comparados a indivíduos sem depressão. Esses achados reforçam a importância dessa via como um possível mecanismo envolvido na fisiopatologia dos transtornos do humor. No entanto, estudos longitudinais e ensaios clínicos ainda são necessários para determinar se intervenções nutricionais ou terapêuticas direcionadas ao metabolismo do triptofano podem produzir benefícios clínicos.
Relevância para a prática magistral
O metabolismo do triptofano e da via da quinurenina representa uma das áreas mais promissoras da pesquisa em saúde mental. Para a farmácia magistral, compreender esses mecanismos permite interpretar de forma crítica as evidências envolvendo ativos como L-triptofano, 5-HTP e outros nutracêuticos utilizados em formulações para humor e sono. Entretanto, as recomendações devem permanecer baseadas nas evidências clínicas disponíveis, evitando extrapolar resultados de estudos observacionais para a prática assistencial.
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Bibliografia consultada:
Chojnacki C, et al. Tryptophan Intake and Metabolism in Older Adults with Mood Disorders. Nutrients, 2020.
Carvalho M; Yonamine CM; Dal Mas C; Nunes DFS. Metabolismo do triptofano em transtornos mentais: um enfoque na esquizofrenia. VITTALLE – Revista de Ciências da Saúde, 2017