A deficiência de vitamina D é extremamente frequente na população e pode ser ainda mais difícil de corrigir em pessoas com obesidade ou doenças que comprometem a absorção intestinal de gorduras. Nesses pacientes, mesmo doses elevadas de vitamina D3 (colecalciferol) nem sempre conseguem promover um aumento satisfatório das concentrações séricas.
Um estudo publicado no The American Journal of Clinical Nutrition demonstrou que uma formulação oral contendo 25-hidroxivitamina D3 (25(OH)D3 ou calcifediol) apresenta absorção significativamente superior à vitamina D3 convencional em indivíduos obesos e em pacientes com síndromes de má absorção intestinal.
Por que alguns pacientes respondem pouco à vitamina D3?
A vitamina D3 é uma vitamina lipossolúvel e sua absorção depende do metabolismo normal das gorduras.
Por isso, algumas condições podem reduzir sua biodisponibilidade, como:
- obesidade;
- cirurgia bariátrica;
- doenças com má absorção intestinal de gordura;
- insuficiência pancreática;
- doenças intestinais.
Na obesidade, além da absorção, acredita-se que parte da vitamina D fique armazenada no tecido adiposo, reduzindo sua disponibilidade para circulação.
O que diferencia a 25-hidroxivitamina D3?
A 25-hidroxivitamina D3 (calcifediol) é o principal metabólito circulante da vitamina D.
Segundo os autores, essa molécula apresenta maior solubilidade em água quando comparada ao colecalciferol, permitindo uma absorção intestinal mais eficiente e passagem mais direta para a circulação sanguínea.
Essa característica pode explicar sua melhor resposta em pacientes que apresentam dificuldade na absorção de nutrientes lipossolúveis.
Como foi realizado o estudo?
Os pesquisadores compararam a farmacocinética da vitamina D3 convencional com a da 25(OH)D3 oral em:
- 10 voluntários saudáveis;
- 6 pacientes com má absorção intestinal, incluindo quatro indivíduos submetidos à cirurgia bariátrica.
Todos receberam:
- 900 µg (36.000 UI) de vitamina D3;
- ou 900 µg de 25(OH)D3.
Após um período de washout, os participantes trocaram o tratamento, permitindo que cada indivíduo recebesse ambas as formulações.
Foram realizadas diversas coletas sanguíneas para avaliar os níveis séricos ao longo de 14 dias.
Pacientes com má absorção absorveram menos vitamina D3
Os resultados mostraram diferenças importantes.
Quando receberam vitamina D3 convencional, os pacientes com má absorção apresentaram:
- área sob a curva (AUC) aproximadamente 64% menor;
- concentrações séricas máximas significativamente inferiores quando comparadas aos participantes saudáveis.
Esses resultados confirmam a importante limitação da absorção da vitamina D3 nessa população.
A obesidade também reduziu a biodisponibilidade
Os pesquisadores dividiram os voluntários saudáveis em dois grupos:
- IMC médio de 22,5 kg/m²;
- IMC médio de 31,4 kg/m².
Os participantes obesos apresentaram:
- 53% menor área sob a curva (AUC) em comparação aos indivíduos com menor IMC.
Esse resultado reforça que a obesidade pode reduzir significativamente a disponibilidade da vitamina D3 após sua administração oral.
A 25(OH)D3 apresentou absorção mais rápida
Outro achado importante foi a velocidade de absorção.
A 25-hidroxivitamina D3 atingiu sua concentração máxima sérica mais rapidamente do que a vitamina D3 convencional, indicando uma farmacocinética mais favorável.
Segundo os autores, esse comportamento pode representar uma vantagem principalmente em indivíduos com dificuldade de absorção.
Conclusão
O estudo demonstrou que a 25-hidroxivitamina D3 (calcifediol) apresentou absorção superior à vitamina D3 convencional em pacientes obesos e com má absorção intestinal de gordura. Além de atingir concentrações séricas mais rapidamente, essa forma mostrou uma farmacocinética mais favorável, sugerindo uma alternativa interessante para indivíduos que apresentam resposta limitada à suplementação tradicional de vitamina D.
Relevância para a prática magistral
A escolha da forma química da vitamina D pode ser um fator importante durante a individualização da suplementação.
Pacientes com obesidade, síndromes disabsortivas ou submetidos à cirurgia bariátrica frequentemente apresentam maior dificuldade em elevar seus níveis séricos utilizando apenas vitamina D3 convencional. Nesses casos, conhecer as diferenças farmacocinéticas entre o colecalciferol e a 25-hidroxivitamina D3 amplia as possibilidades de discussão clínica entre farmacêutico e prescritor, permitindo estratégias mais individualizadas conforme as características do paciente.
Bibliografia consultada:
Craroenngam N, et al. A pilot-randomized, double-blind crossover trial to evaluate the pharmacokinetics of orally administered 25-hydroxyvitamin D3 and vitamin D3 in healthy adults with differing BMI and in adults with intestinal malabsorption. The American Journal of Clinical Nutrition, 2021.
