Por que alguns pacientes não conseguem aumentar os níveis de vitamina D mesmo suplementando?

Por que alguns pacientes não conseguem aumentar os níveis de vitamina D mesmo suplementando?

A deficiência de vitamina D é considerada um problema de saúde pública em diversas regiões do mundo, resultado principalmente da baixa exposição solar, do envelhecimento populacional e da ingestão insuficiente de alimentos fonte dessa vitamina. Atualmente, concentrações séricas de 25-hidroxivitamina D superiores a 30 ng/mL são frequentemente utilizadas como referência para manutenção de níveis adequados em diferentes grupos populacionais.

Embora a suplementação seja uma estratégia amplamente utilizada para corrigir essa deficiência, muitos pacientes apresentam pouca resposta ao tratamento, mesmo utilizando doses consideradas adequadas. Mas afinal, o que pode interferir na absorção da vitamina D?

Uma revisão publicada em 2017 no Journal of Food Science and Technology reuniu as principais evidências disponíveis sobre os fatores que influenciam a biodisponibilidade da vitamina D. Confira os principais pontos.


Como a vitamina D é absorvida?

Por ser uma vitamina lipossolúvel, a vitamina D segue uma via de absorção semelhante à das gorduras da dieta.

Após sua ingestão, ela:

  • associa-se aos sais biliares;
  • forma micelas no intestino;
  • é incorporada aos quilomícrons dentro dos enterócitos;
  • segue pelo sistema linfático até alcançar a circulação sanguínea.

Qualquer fator que interfira nesse processo pode comprometer sua absorção.


A forma farmacêutica pode influenciar?

Segundo os estudos revisados, sim.

A biodisponibilidade pode variar conforme o veículo utilizado na formulação.

Entre os resultados observados:

  • formulações oleosas apresentaram maior biodisponibilidade quando comparadas às formulações em pó contendo amido ou celulose;
  • em alguns estudos, cápsulas contendo lactose apresentaram absorção superior às gotas oleosas;
  • tecnologias como emulsões, nanoencapsulamento, microencapsulação e nanopartículas aumentaram a disponibilidade da vitamina D para absorção pelos enterócitos.

Esses resultados mostram que as características físico-químicas da formulação podem interferir diretamente na eficiência da suplementação.


Qual óleo parece favorecer melhor a absorção?

Diversos estudos compararam diferentes veículos oleosos.

Inicialmente acreditava-se que os triglicerídeos de cadeia média (TCM) favoreceriam a absorção por formarem micelas menores.

Entretanto, estudos posteriores mostraram resultados diferentes.

Os melhores resultados foram observados com óleos ricos em ácidos graxos monoinsaturados de cadeia longa, como:

  • azeite de oliva;
  • óleo de abacate;
  • óleo de amendoim;
  • óleo de girassol rico em ácido oleico.

Esses veículos apresentaram melhor desempenho em alguns estudos quando comparados aos triglicerídeos de cadeia média.


Tomar vitamina D junto das refeições faz diferença?

Sim.

Um dos estudos citados na revisão demonstrou que ingerir vitamina D juntamente com a principal refeição do dia aumentou em aproximadamente 50% os níveis séricos de 25(OH)D.

Os autores sugerem que esse efeito possa estar relacionado:

  • ao maior estímulo da secreção biliar;
  • à maior liberação de enzimas digestivas;
  • à presença de lipídios alimentares favorecendo a formação das micelas.

Incorporar vitamina D aos alimentos altera sua absorção?

Não.

Os estudos disponíveis mostraram que a incorporação da vitamina D aos alimentos apresentou biodisponibilidade semelhante à suplementação isolada.


As fibras podem reduzir a absorção?

Sim.

As fibras alimentares podem interferir na biodisponibilidade da vitamina D ao dificultarem:

  • a emulsificação;
  • a formação de micelas;
  • a liberação da vitamina durante o processo digestivo.

Esse mecanismo pode reduzir a quantidade efetivamente absorvida.


Existe interação com outras vitaminas lipossolúveis?

Alguns estudos sugerem que sim.

Foi observado que:

  • a associação entre vitaminas D e E reduziu a absorção intestinal da vitamina E em cerca de 15%;
  • elevadas concentrações de vitamina A reduziram a biodisponibilidade da vitamina D em aproximadamente 30%.

Embora os mecanismos ainda não estejam completamente esclarecidos, essas interações merecem atenção durante a elaboração de formulações.


Medicamentos também podem interferir?

Sim.

Medicamentos que reduzem a absorção de gorduras, como o orlistate, diminuem significativamente a absorção da vitamina D por interferirem justamente na digestão e absorção lipídica.


Idade interfere na absorção?

Sim.

Os idosos costumam apresentar menores níveis séricos de vitamina D devido a uma combinação de fatores, incluindo:

  • menor síntese cutânea;
  • redução da exposição solar;
  • menor ingestão alimentar;
  • alterações fisiológicas do trato gastrointestinal.

Obesidade influencia os níveis de vitamina D?

Diversos estudos demonstram uma associação entre obesidade e menores concentrações séricas de vitamina D.

Uma das hipóteses é que, por ser lipossolúvel, parte da vitamina D fique armazenada no tecido adiposo, reduzindo sua disponibilidade na circulação.


Quais doenças podem prejudicar a absorção?

Doenças que comprometem a digestão e absorção de gorduras podem reduzir significativamente a biodisponibilidade da vitamina D.

Entre elas destacam-se:

  • doença celíaca;
  • fibrose cística;
  • insuficiência pancreática;
  • icterícia obstrutiva;
  • cirurgias bariátricas, especialmente o bypass gástrico.

Pacientes submetidos ao bypass podem apresentar redução aproximada de 30% nos níveis séricos de vitamina D.


Conclusão

A absorção da vitamina D é um processo complexo e influenciado por diversos fatores relacionados à formulação, alimentação, características individuais e condições clínicas. Compreender esses mecanismos ajuda a explicar por que alguns pacientes respondem muito bem à suplementação enquanto outros necessitam de ajustes na estratégia terapêutica para alcançar níveis séricos adequados.


Relevância para a prática magistral

A resposta clínica à suplementação de vitamina D depende de diversos fatores além da dose prescrita. A escolha do veículo, da forma farmacêutica e das tecnologias empregadas na formulação pode influenciar sua biodisponibilidade, assim como características individuais do paciente, hábitos alimentares, uso de medicamentos e doenças que comprometem a absorção de gorduras.

Na prática magistral, conhecer esses fatores permite individualizar a suplementação e orientar corretamente o paciente quanto ao melhor momento de administração, possíveis interações e condições que podem comprometer a eficácia do tratamento.

 

Bibliografia utilizada:

Maurya VK; Aggarwal M. Factors influencing the absorption of vitamin D in GIT: an overview. J Food Sci Technol, 2017

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