A doença de Alzheimer (DA) é a forma mais comum de demência e representa um dos maiores desafios da saúde pública em todo o mundo. Além do envelhecimento, o sexo feminino é reconhecido como um dos principais fatores associados ao aumento do risco da doença.
Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a investigar se as alterações hormonais que ocorrem durante a menopausa poderiam contribuir para esse aumento de risco.
Um estudo publicado na revista Neurology observou que o estado menopausal esteve associado a alterações em biomarcadores cerebrais relacionados ao Alzheimer em mulheres de meia-idade.
Importante: Os resultados demonstram uma associação, mas não estabelecem que a menopausa cause a doença de Alzheimer.
Por que as mulheres apresentam maior risco?
Após a idade avançada, o sexo feminino representa um dos principais fatores associados ao desenvolvimento da doença de Alzheimer de início tardio.
Embora por muitos anos essa diferença tenha sido atribuída apenas à maior expectativa de vida das mulheres, estudos mais recentes sugerem que diversos fatores podem estar envolvidos.
Entre eles:
- alterações hormonais da menopausa;
- fatores genéticos, como o genótipo APOE;
- histórico familiar;
- doenças da tireoide;
- depressão;
- diabetes mellitus;
- fatores relacionados ao estilo de vida.
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores avaliaram 121 adultos cognitivamente saudáveis, com idades entre 40 e 65 anos, sendo aproximadamente 70% mulheres.
Todos os participantes foram submetidos a:
- testes neuropsicológicos;
- avaliação clínica;
- investigação de fatores cardiovasculares e metabólicos;
- análise da função tireoidiana;
- exames de imagem cerebral.
Nas mulheres, também foi determinado o estágio da menopausa (pré-menopausa, perimenopausa ou pós-menopausa) com base em sintomas clínicos.
Quais biomarcadores foram avaliados?
Os pesquisadores analisaram biomarcadores reconhecidos da doença de Alzheimer, incluindo:
- deposição de beta-amiloide (Aβ) por PET;
- metabolismo cerebral da glicose por PET-FDG;
- volume de substância cinzenta;
- volume de substância branca.
Esses biomarcadores podem indicar alterações cerebrais que antecedem o aparecimento dos sintomas clínicos.
O que os pesquisadores encontraram?
Após ajustes para possíveis fatores de confusão, as mulheres apresentaram:
- aproximadamente 30% maior deposição de beta-amiloide;
- cerca de 22% menor metabolismo da glicose cerebral;
- redução do volume de substância cinzenta;
- redução do volume de substância branca.
Entre as mulheres, o estado menopausal foi o fator que apresentou associação mais consistente com essas alterações.
Qual o papel do estrogênio?
Segundo os autores, a redução dos níveis de estrogênio observada durante a menopausa pode contribuir para essas alterações cerebrais.
O estudo destaca que diversas regiões afetadas apresentam elevada concentração de receptores de estrogênio, incluindo:
- hipocampo;
- córtex pré-frontal;
- amígdala;
- córtex cingulado posterior.
Entretanto, os mecanismos envolvidos ainda estão sendo investigados.
Terapia hormonal e outros fatores
O estudo também identificou associações entre alguns fatores hormonais e biomarcadores cerebrais.
Entre eles:
- terapia hormonal;
- histerectomia;
- doenças da tireoide.
As participantes que utilizavam terapia hormonal apresentaram, em média, biomarcadores mais favoráveis em comparação com aquelas que não utilizavam.
O que esses resultados significam?
Os pesquisadores sugerem que as alterações hormonais da menopausa podem representar um dos fatores envolvidos nas diferenças observadas entre homens e mulheres em relação ao risco de Alzheimer.
Entretanto, este foi um estudo observacional. São necessários estudos prospectivos e ensaios clínicos para esclarecer essa relação.
Conclusão
O estudo publicado na Neurology observou que o estado menopausal esteve associado a alterações em biomarcadores cerebrais relacionados à doença de Alzheimer em mulheres de meia-idade. Esses resultados reforçam a importância das pesquisas sobre a influência dos hormônios sexuais na saúde cerebral feminina, mas ainda não permitem estabelecer uma relação causal entre menopausa e desenvolvimento da doença.
Relevância para a prática magistral
O envelhecimento feminino e a transição menopausal representam áreas de crescente interesse para a prática clínica e magistral. A compreensão dos efeitos dos hormônios sobre a função cerebral pode contribuir para uma abordagem mais ampla da saúde da mulher, envolvendo avaliação individualizada de fatores de risco, promoção de hábitos saudáveis e acompanhamento multiprofissional.
Referências consultadas:
Rahman A, Schelbaum E, Hoffman K, Diaz I, Hristov H, Andrews R, Jett S, Jackson H, Lee A, Sarva H, Pahlajani S, Matthews D, Dyke J, de Leon MJ, Isaacson RS, Brinton RD, Mosconi L. Sex-driven modifiers of Alzheimer risk: A multimodality brain imaging study. Neurology. 2020
