Como formular dentifrícios na farmácia de manipulação: composição, farmacotécnica e principais cuidados

Como formular dentifrícios na farmácia de manipulação: composição, farmacotécnica e principais cuidados

Hoje é Dia de Tiradentes! Joaquim José da Silva Xavier entrou para a história como um dos principais líderes da Inconfidência Mineira, mas recebeu o apelido de Tiradentes justamente por exercer atividades ligadas à odontologia em uma época em que a profissão ainda não era regulamentada como conhecemos atualmente.

E foi inspirado nessa curiosidade histórica que o Magistral Guide preparou um conteúdo especial sobre uma forma farmacêutica bastante interessante para a prática magistral: os dentifrícios.

Muito além dos tradicionais cremes dentais industrializados, a manipulação permite desenvolver formulações personalizadas para pacientes com sensibilidade dentária, gengivites, halitose, xerostomia, aftas recorrentes e diversas outras necessidades clínicas.

O que são dentifrícios?

Os dentifrícios, popularmente conhecidos como cremes dentais ou géis dentais, são preparações farmacêuticas destinadas à higiene bucal.

Quando utilizados em associação à escova dental, promovem a limpeza mecânica da superfície dos dentes, auxiliando na remoção da placa bacteriana, manchas superficiais e resíduos alimentares, além de contribuir para a prevenção da cárie e manutenção da saúde bucal.

Sua formulação é composta por uma combinação equilibrada de agentes abrasivos, espessantes, umectantes, tensoativos, flavorizantes e conservantes.

Principais componentes de um dentifrício:

FunçãoConcentraçãoExemplos
Abrasivo20 – 30% baixa abrasividade (crianças)
30 – 40% média abrasividade (adultos)
40 – 60% alta abrasividade (fumantes por exemplo)
Carbonato de cálcio, fosfato bicálcico, fosfato tricálcico, dióxido de alumínio, pirofosfato de cálcio, silicas
Espessantes0,5 – 4%CMC, hidroxietilcelulose, carbômero, goma guar, goma xantana
Umectantes0,5 – 70%Sorbitol, propilenoglicol, glicerina
Tensoativo0,5 – 2%Lauril sulfato de sódio, N-Lauril sarcosinato de sódio, Lauril Polyglucose, amisoft ECS22
Flavorizante0,6 – 1,5%Geralmente menta, hortelã, morango e tutti-frutti
Edulcoranterelativo a escolhasacarina, sorbitol, xilitol, sucralose
Conservantesrelativo a escolhaparabenos, benzoato de sódio

Qual a diferença entre gel dental e creme dental?

Embora possuam a mesma finalidade, a principal diferença entre essas formas farmacêuticas está no tipo de abrasivo utilizado.

Creme dental

Os cremes utilizam abrasivos insolúveis, como:

  • carbonato de cálcio;
  • fosfato bicálcico;
  • fosfato tricálcico.

Essas partículas permanecem suspensas na formulação, dificultando a passagem da luz e conferindo aspecto opaco ao produto.

Gel dental

Já os géis utilizam principalmente sílicas, que apresentam comportamento óptico diferente e permitem maior transparência da formulação, conferindo o aspecto característico de gel.

Além da estética, a escolha do abrasivo influencia diretamente na compatibilidade com alguns ativos.

Sugestão de formulações

GEL DENTAL BASE 
sílica20%
propilenoglicol5%
glicerina5%
sorbitol 70%15%
lauril sulfato de sódio1%
flavorizanteqs
conservanteqs
coranteqs
edulcoranteqs
gel de hidroxietilcelulose ou carbopol 2%qsp

 

CREME DENTAL COM CARBONATO DE CÁLCIO 
carbonato de cálcio40%
sorbitol 70%5%
glicerina30%
lauril sulfato de sódio1,2%
carbocimetilcelulose (CMC)2%
goma xantana1%
edulcoranteqs
flavorizanteqs
conservanteqs
água deionizadaqsp

Como preparar

A técnica de preparo é relativamente simples.

Misture lentamente os pós aos componentes líquidos em almofariz até obtenção de uma massa homogênea.

O tensoativo deve ser incorporado apenas ao final da preparação, minimizando a formação excessiva de espuma durante o processo.

Principais cuidados farmacotécnicos

A incorporação de ativos exige atenção, pois diversas substâncias podem comprometer a estabilidade da formulação ou reduzir sua eficácia.

Fitoterápicos

Tinturas vegetais podem aumentar significativamente a fase líquida da formulação, reduzindo sua viscosidade e comprometendo a estabilidade do dentifrício.

Fluoretos

Um ponto clássico da farmacotécnica é a incompatibilidade entre fluoreto de sódio e carbonato de cálcio.

O cálcio pode reagir com o fluoreto, reduzindo sua disponibilidade.

Por esse motivo:

  • Gel dental (sílica): utilizar fluoreto de sódio.
  • Creme dental (carbonato de cálcio): preferir monofluorfosfato de sódio.

Clorexidina

A clorexidina apresenta incompatibilidade com o lauril sulfato de sódio, podendo reduzir sua atividade antimicrobiana.

Nesses casos, recomenda-se substituir o tensoativo por alternativas compatíveis.


Conclusão

A manipulação de dentifrícios vai muito além da simples elaboração de um creme dental. A escolha adequada dos excipientes, dos agentes abrasivos e dos princípios ativos permite desenvolver formulações altamente personalizadas, capazes de atender às diferentes necessidades dos pacientes e ampliar as possibilidades terapêuticas da farmácia magistral.


Relevância para a prática magistral

Os dentifrícios manipulados representam uma excelente oportunidade de personalização terapêutica. Além das formulações convencionais para higiene bucal, é possível desenvolver produtos direcionados a diferentes necessidades clínicas, como dentifrícios dessensibilizantes, anticárie, clareadores, antimicrobianos, para pacientes com xerostomia, mucosite, halitose ou em tratamento ortodôntico.

 

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