Por que ficamos mais suscetíveis a infecções respiratórias no frio?

Por que ficamos mais suscetíveis a infecções respiratórias no frio?

Durante muito tempo, a maior ocorrência de gripes e resfriados nos meses frios foi atribuída principalmente ao fato de as pessoas permanecerem mais tempo em ambientes fechados, facilitando a transmissão dos vírus.

Mas um estudo publicado no The Journal of Allergy and Clinical Immunology sugere que pode existir também um mecanismo biológico relacionado à temperatura que interfere na defesa do nariz contra vírus respiratórios.


O nariz é uma das primeiras barreiras contra os vírus

O nariz representa um dos primeiros pontos de contato entre o ambiente externo e o organismo.

Quando vírus e outros patógenos são inalados ou entram em contato com a região nasal, encontram uma série de mecanismos de defesa presentes no muco e nas células das vias aéreas.

Os pesquisadores identificaram uma dessas respostas: quando as células nasais detectam determinados patógenos, elas liberam vesículas extracelulares (EVs) no muco.

Essas pequenas estruturas carregam proteínas e outras moléculas capazes de participar da defesa local.


As vesículas extracelulares funcionam como “iscas”

No caso dos vírus, os pesquisadores observaram que as EVs liberadas pelas células nasais podem atuar como uma espécie de isca viral.

Elas carregam receptores aos quais os vírus poderiam se ligar. Dessa forma, em vez de o vírus se ligar diretamente às células nasais e iniciar o processo de infecção, ele pode ser capturado pelas vesículas presentes no muco.

O mecanismo funciona, portanto, como uma primeira linha de defesa no interior do nariz.


E o que acontece quando a temperatura cai?

Foi justamente nesse ponto que o estudo encontrou um resultado interessante.

Os pesquisadores expuseram voluntários saudáveis a uma temperatura de aproximadamente 4,4 °C durante 15 minutos.

Essa exposição provocou uma queda de aproximadamente 5 °C na temperatura interna do nariz.

Como consequência:

  • a quantidade de vesículas extracelulares liberadas pelas células nasais diminuiu em aproximadamente 42%;
  • as proteínas antivirais presentes nessas vesículas também tiveram sua atividade prejudicada.

Ou seja, temperaturas mais baixas parecem comprometer parte da resposta imune inata do nariz, deixando essa primeira barreira de defesa menos eficiente.


Isso explica por que ficamos doentes no inverno?

Pode ser uma das peças desse quebra-cabeça.

O estudo oferece uma explicação biológica para a maior vulnerabilidade das vias aéreas superiores em temperaturas baixas, mas não significa que o frio, isoladamente, seja responsável pela maior ocorrência de infecções respiratórias.

A transmissão dos vírus, o comportamento das pessoas e outros fatores ambientais continuam sendo importantes.


E existe possibilidade de tratamento?

Os próprios pesquisadores levantaram uma possibilidade bastante interessante: desenvolver estratégias capazes de estimular ou fortalecer a resposta imune inata do nariz.

Uma das possibilidades seria o desenvolvimento de terapias administradas localmente, como sprays nasais, capazes de aumentar a quantidade de vesículas extracelulares ou potencializar os mecanismos de defesa presentes nessas estruturas.

Ainda são necessários estudos para determinar se essa abordagem poderia efetivamente prevenir ou reduzir infecções respiratórias em humanos.


Relevância para a prática magistral

O estudo abre uma perspectiva interessante para a prática magistral ao demonstrar que a imunidade das vias aéreas superiores pode ser modulada localmente e que o ambiente nasal possui mecanismos próprios de defesa contra patógenos.

Embora os resultados ainda não permitam indicar uma formulação magistral específica para prevenção de infecções virais, o conceito pode estimular futuras pesquisas envolvendo estratégias intranasais, barreiras físicas e modulação da resposta imune local.

Para o prescritor e para a farmácia de manipulação, acompanhar esse campo de pesquisa é particularmente relevante, pois novas descobertas sobre a imunidade nasal podem futuramente abrir espaço para formulações de ação local e individualizada.

O frio pode fazer mais do que nos manter dentro de casa: ele pode também enfraquecer uma das primeiras barreiras de defesa do organismo.

 

Bibiografia consultada:

Huang D; et al. Cold exposure impairs extracellular vesicle swarm–mediated nasal antiviral immunity. Journal of Allergy and Clinical Immunology, 2022

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