
O envelhecimento populacional tem aumentado o interesse por estratégias capazes de preservar a saúde cerebral ao longo da vida. Entre os fatores potencialmente envolvidos na manutenção da função cognitiva, a ingestão adequada de proteínas e aminoácidos essenciais vem recebendo atenção crescente.
Embora a desnutrição proteica esteja associada à pior saúde em idosos, ainda não está completamente esclarecido como nutrientes específicos influenciam o desempenho cognitivo de indivíduos saudáveis.
Um estudo clínico publicado na revista Frontiers in Nutrition investigou se a suplementação de um composto contendo sete aminoácidos essenciais poderia produzir benefícios cognitivos em adultos com 55 anos ou mais.
Qual a relação entre proteínas e função cerebral?
As proteínas fornecem aminoácidos necessários para inúmeras funções do organismo, incluindo:
- síntese de neurotransmissores;
- produção de proteínas estruturais;
- manutenção da massa muscular;
- metabolismo energético;
- funcionamento adequado do sistema nervoso.
Alguns aminoácidos também participam indiretamente da formação de moléculas importantes para a comunicação entre os neurônios.
Por isso, pesquisadores vêm investigando se uma ingestão adequada desses nutrientes pode contribuir para a manutenção da função cognitiva durante o envelhecimento.
Como o estudo foi realizado?
Pesquisadores japoneses conduziram um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo envolvendo 105 adultos saudáveis com 55 anos ou mais.
Os participantes foram distribuídos em três grupos:
- 3 g por dia de um composto contendo sete aminoácidos essenciais;
- 6 g por dia do mesmo composto;
- placebo.
A suplementação foi realizada durante 12 semanas.
O composto continha os seguintes aminoácidos essenciais:
- leucina (estimula a síntese proteica e participa da manutenção da massa muscular)
- isoleucina (atua no metabolismo energético e muscular)
- valina (participa da recuperação e do metabolismo dos tecidos)
- lisina (essencial para síntese de proteínas e colágeno)
- fenilalanina (precursor de catecolaminas, como dopamina e noradrenalina)
- histidina (precursor da histamina e importante para diversos processos metabólicos)
- triptofano (precursor da serotonina e da melatonina)
Antes e após o período de intervenção, os participantes realizaram uma bateria de testes cognitivos e avaliações psicossociais.
Quais foram os resultados?
Os pesquisadores observaram que o grupo que recebeu 6 g por dia apresentou melhora significativa em comparação ao placebo em alguns parâmetros específicos.
Os principais benefícios foram observados em:
- atenção;
- flexibilidade cognitiva, avaliada pelo Trail Making Test Parte B;
- interação social;
- indicadores de saúde psicológica.
Já o grupo que recebeu 3 g por dia não apresentou os mesmos resultados de forma consistente.
Os aminoácidos podem prevenir demência?
O estudo não permite essa conclusão.
Embora os autores sugiram que a intervenção nutricional possa representar uma estratégia promissora para preservar a função cognitiva, o ensaio:
- avaliou adultos saudáveis;
- teve duração de apenas 12 semanas;
- não investigou a ocorrência de demência;
- não acompanhou os participantes por longo prazo.
Portanto, ainda não existem evidências suficientes para afirmar que a suplementação de aminoácidos essenciais previne doenças como a doença de Alzheimer ou outras formas de demência.
Quais mecanismos podem explicar esses efeitos?
Os autores discutem algumas hipóteses para explicar os resultados observados.
Os aminoácidos essenciais podem contribuir para:
- síntese de proteínas cerebrais;
- manutenção da função neuronal;
- metabolismo energético;
- produção de neurotransmissores, como a serotonina (a partir do triptofano);
- suporte ao metabolismo muscular, que também influencia o envelhecimento saudável.
Entretanto, esses mecanismos ainda precisam ser melhor esclarecidos em estudos futuros.
Conclusão
O ensaio clínico demonstrou que a suplementação diária de 6 g de um composto contendo sete aminoácidos essenciais durante 12 semanas foi associada à melhora de alguns aspectos da função cognitiva, especialmente atenção e flexibilidade cognitiva, além de benefícios psicossociais em adultos saudáveis com 55 anos ou mais.
Relevância para a prática magistral
O interesse por formulações contendo aminoácidos essenciais tem crescido na área da longevidade e da saúde cognitiva. Estudos como este sugerem que combinações específicas de aminoácidos podem influenciar determinados aspectos do desempenho cognitivo em adultos saudáveis, mas a indicação clínica deve ser individualizada e baseada no conjunto das evidências disponíveis.
Bibliografia consultada:
Suzuki H, et al. Intake of Seven Essential Amino Acids Improves Cognitive Function and Psychological and Social Function in Middle-Aged and Older Adults: A Double-Blind, Randomized, Placebo-Controlled Trial. Frontiers in Nutrition, 2020