O microbioma intestinal vem sendo cada vez mais associado à saúde humana, influenciando processos metabólicos, imunológicos e inflamatórios. Agora, uma pesquisa publicada na revista Cancer Discovery levanta uma nova hipótese: uma bactéria intestinal já conhecida por seu envolvimento no câncer colorretal também pode participar do desenvolvimento de alguns casos de câncer de mama.
Os resultados sugerem que o Bacteroides fragilis enterotoxigênico (ETBF) é capaz de promover alterações nas células mamárias que favorecem a progressão tumoral, ampliando a discussão sobre o papel do microbioma como possível fator de risco para o câncer de mama.
Uma bactéria conhecida do intestino pode afetar o tecido mamário
O Bacteroides fragilis enterotoxigênico (ETBF) é uma bactéria presente no cólon e já reconhecida por sua associação com colite e câncer colorretal.
Neste estudo, os pesquisadores demonstraram que, quando essa bactéria foi introduzida no intestino ou diretamente nos ductos mamários de camundongos, ocorreu indução do crescimento tumoral e aumento da capacidade metastática das células mamárias.
Até poucos anos atrás, acreditava-se que o tecido mamário era estéril. No entanto, estudos recentes mostram que diferentes microrganismos podem estar presentes nessa região, levantando a possibilidade de que algumas bactérias consigam migrar do intestino para outros tecidos do organismo.
As células mamárias “guardam memória” da toxina bacteriana
Um dos achados mais interessantes do trabalho foi a demonstração de que uma breve exposição à toxina produzida pelo ETBF pode gerar alterações duradouras nas células mamárias.
Após apenas 72 horas de exposição, essas células passaram a apresentar um comportamento tumoral mais agressivo, mantendo uma espécie de “memória biológica” da exposição inicial.
Nos modelos experimentais, essas alterações favoreceram:
- crescimento tumoral mais rápido;
- maior capacidade de invasão;
- aumento da formação de lesões metastáticas.
Alterações surgiram poucas semanas após a colonização intestinal
Os pesquisadores administraram a bactéria por via oral em camundongos.
Após colonizar o intestino, em aproximadamente três semanas, já era possível observar alterações no tecido mamário compatíveis com hiperplasia ductal, uma condição considerada pré-neoplásica.
Quando a bactéria foi inoculada diretamente nas glândulas mamárias, alterações semelhantes também apareceram entre duas e três semanas após a exposição.
Evidências também foram encontradas em amostras humanas
Antes dos experimentos em animais, os pesquisadores realizaram uma meta-análise de estudos clínicos que comparavam a microbiota presente em:
- tumores benignos e malignos da mama;
- fluido aspirado do mamilo de mulheres com câncer de mama;
- mulheres saudáveis.
O Bacteroides fragilis foi detectado de forma consistente tanto em tecidos mamários quanto em amostras de fluido mamilar de sobreviventes de câncer de mama.
Embora esse achado não estabeleça relação de causa e efeito, ele reforça a hipótese de que o microbioma mamário possa participar da biologia tumoral.
Como a bactéria pode favorecer o desenvolvimento tumoral?
Os pesquisadores identificaram que a toxina produzida pelo ETBF ativa importantes vias celulares relacionadas ao crescimento tumoral, especialmente:
- via Notch1;
- via β-catenina.
Essas vias participam da proliferação celular, diferenciação e sobrevivência das células, sendo frequentemente encontradas alteradas em diferentes tipos de câncer.
O microbioma pode representar um novo fator de risco
Atualmente, os principais fatores de risco conhecidos para câncer de mama incluem:
- idade;
- predisposição genética;
- histórico familiar;
- alterações hormonais;
- exposição prévia à radioterapia.
Entretanto, uma parcela significativa dos casos ocorre em mulheres que não apresentam esses fatores clássicos.
Os autores sugerem que alterações no microbioma — especialmente a presença de microrganismos com potencial oncogênico — possam representar um fator adicional de risco, ampliando a compreensão sobre os mecanismos envolvidos no desenvolvimento da doença.
O que essa descoberta pode representar no futuro?
Segundo os pesquisadores, este é um estudo inicial, mas abre caminho para novas estratégias de prevenção.
No futuro, caso a relação entre determinadas bactérias e o câncer de mama seja confirmada em humanos, exames simples da microbiota intestinal — como análises de amostras de fezes — poderão auxiliar na identificação de indivíduos com maior risco para determinados tipos de câncer.
Além disso, compreender melhor a interação entre microbioma e câncer pode favorecer o desenvolvimento de novas abordagens preventivas e terapêuticas.
Conclusão
Uma pesquisa publicada na Cancer Discovery mostrou que o Bacteroides fragilis enterotoxigênico (ETBF) pode favorecer alterações no tecido mamário e acelerar a progressão tumoral em modelos experimentais. Os resultados sugerem que o microbioma pode representar um novo fator de risco para alguns casos de câncer de mama, embora ainda sejam necessários estudos clínicos para confirmar esse mecanismo em humanos e compreender como essas bactérias migram e interagem com o tecido mamário
Relevância para a prática magistral
O estudo reforça o crescente interesse científico na relação entre microbioma e doenças crônicas, incluindo diferentes tipos de câncer. Embora ainda não existam evidências suficientes para indicar intervenções específicas direcionadas ao ETBF na prevenção do câncer de mama, a pesquisa amplia o entendimento sobre o papel da saúde intestinal na oncologia e fortalece o interesse em estratégias que favoreçam o equilíbrio da microbiota, tema cada vez mais presente na prática clínica e magistral.
Bibliografia consultada:
Parida S; et al. A pro-carcinogenic colon microbe promotes breast tumorigenesis and metastatic progression and concomitantly activates Notch and βcatenin axes. Cancer Discovery, 2021.
