O desenvolvimento de novas terapias contra o câncer de mama acaba de ganhar um importante reforço. Pesquisadores da Universidade de Illinois Urbana-Champaign desenvolveram um fármaco experimental chamado ErSO, capaz de eliminar 95% a 100% das células tumorais em modelos de camundongos com câncer de mama humano receptor de estrogênio positivo (ER+). Além de reduzir rapidamente os tumores primários, o composto também demonstrou elevada eficácia contra metástases em órgãos como cérebro, pulmões, fígado e ossos.
Os resultados, publicados na revista Science Translational Medicine, colocam o ErSO entre os candidatos mais promissores para futuras terapias direcionadas ao câncer de mama.
ErSO eliminou rapidamente tumores e metástases
Nos modelos experimentais, o tratamento com ErSO promoveu uma redução extremamente rápida dos tumores, incluindo lesões de grande volume.
Em muitos animais, os tumores tornaram-se indetectáveis em aproximadamente uma semana após o início do tratamento.
O medicamento também apresentou resultados expressivos contra metástases, promovendo:
- destruição da maioria das metástases pulmonares;
- eliminação da maior parte das metástases hepáticas;
- redução importante das metástases ósseas;
- diminuição significativa das metástases cerebrais.
Como a disseminação do câncer é responsável pela maior parte das mortes relacionadas à doença, esse resultado chamou a atenção dos pesquisadores.
Como o ErSO atua?
O ErSO depende da presença do receptor de estrogênio (ER), proteína encontrada na maioria dos casos de câncer de mama hormônio-dependente.
Entretanto, seu mecanismo de ação é bastante diferente dos medicamentos utilizados atualmente.
Enquanto fármacos como tamoxifeno e fulvestranto atuam bloqueando a sinalização estrogênica, o ErSO liga-se a uma região diferente do receptor de estrogênio e promove uma intensa ativação de um mecanismo celular conhecido como resposta antecipada à proteína não dobrada (anticipatory unfolded protein response – a-UPR).
Essa via normalmente ajuda as células tumorais a suportarem o intenso estresse provocado pelo crescimento acelerado.
Os pesquisadores descobriram que, ao hiperativar essa via, o ErSO faz com que o próprio mecanismo de proteção celular se torne letal, levando à morte seletiva das células cancerosas.
As células que sobrevivem continuam sensíveis ao tratamento
Outro resultado considerado bastante promissor foi observado nos poucos tumores que voltaram a crescer após vários meses.
Mesmo após a recorrência, esses tumores permaneceram totalmente sensíveis ao retratamento com ErSO, sugerindo que o medicamento pode apresentar menor tendência ao desenvolvimento de resistência quando comparado a algumas terapias atuais.
Boa tolerabilidade nos estudos com animais
Além da elevada eficácia, os estudos de segurança também apresentaram resultados favoráveis.
O ErSO foi bem tolerado em:
- camundongos;
- ratos;
- cães.
Mesmo quando administrado em doses superiores às necessárias para produzir efeito terapêutico, não foram observados efeitos importantes sobre o desenvolvimento reprodutivo dos animais avaliados.
O desenvolvimento clínico já está em andamento
Os resultados pré-clínicos despertaram interesse da indústria farmacêutica.
A Bayer AG licenciou o ErSO para dar continuidade ao desenvolvimento do medicamento e avaliar sua segurança e eficácia em futuros ensaios clínicos com seres humanos portadores de câncer de mama receptor de estrogênio positivo.
Os pesquisadores também pretendem investigar se o composto poderá apresentar benefícios em outros tipos de câncer que também expressam receptores de estrogênio.
Conclusão
O ErSO representa uma das abordagens experimentais mais promissoras para o tratamento do câncer de mama receptor de estrogênio positivo. Em modelos animais, o fármaco eliminou praticamente todas as células tumorais, reduziu metástases em múltiplos órgãos e manteve eficácia mesmo após o reaparecimento dos tumores. Apesar dos resultados expressivos, estudos clínicos em humanos ainda serão necessários para confirmar sua segurança e eficácia antes que possa ser incorporado à prática médica.
Relevância para a prática magistral
O desenvolvimento do ErSO demonstra como a oncologia tem evoluído em direção a terapias altamente direcionadas, capazes de explorar vulnerabilidades específicas das células tumorais. Embora o composto ainda esteja em fase pré-clínica e não possua aplicação na prática magistral, seu mecanismo de ação amplia o conhecimento sobre novas vias moleculares envolvidas no câncer de mama e poderá abrir caminho para futuras abordagens terapêuticas mais seletivas e eficazes.
Bibliografia consultada:
Boudreau MW; et al. A small-molecule activator of the unfolded protein response eradicates human breast tumors in mice. Science Translational Medicine, 2021
