O chocolate amargo, especialmente aquele com maior concentração de cacau, vem despertando interesse científico não apenas por seu conteúdo de compostos bioativos, mas também pela possível interação com a microbiota intestinal. Entre seus constituintes estão os polifenóis, flavonoides e outros compostos capazes de exercer efeitos sobre o metabolismo e a composição das bactérias intestinais.
Considerando a crescente evidência sobre a comunicação entre intestino e cérebro, pesquisadores investigaram se diferentes concentrações de cacau poderiam modificar a microbiota intestinal e, consequentemente, influenciar aspectos relacionados ao estado emocional.
Chocolate e eixo intestino-cérebro
A relação entre alimentação, microbiota intestinal e saúde mental tem sido cada vez mais estudada. O chamado eixo intestino-cérebro representa uma comunicação bidirecional entre o trato gastrointestinal e o sistema nervoso central, envolvendo metabólitos produzidos pelas bactérias intestinais, neurotransmissores, sistema imunológico e vias neuroendócrinas.
Nesse contexto, determinados componentes alimentares podem atuar como substratos para microrganismos específicos e modificar a composição da microbiota. Os produtos derivados do cacau são particularmente interessantes porque apresentam elevada concentração de compostos fenólicos, que podem exercer efeitos semelhantes aos de componentes prebióticos.
Estudo avaliou diferentes concentrações de cacau
Para investigar essa relação, pesquisadores da Universidade Nacional de Seul, na Coreia do Sul, conduziram um estudo entre julho e dezembro de 2017.
Participaram 48 adultos saudáveis, homens e mulheres, com idade entre 20 e 30 anos, que foram distribuídos aleatoriamente em três grupos:
- 30 g/dia de chocolate com 85% de cacau;
- 30 g/dia de chocolate com 70% de cacau;
- grupo controle, que não consumiu chocolate.
A intervenção teve duração de três semanas, período após o qual os pesquisadores avaliaram alterações na diversidade e na composição da microbiota intestinal, além de parâmetros relacionados ao estado emocional.
Chocolate com 85% de cacau promoveu alterações na microbiota
Os resultados demonstraram que os efeitos sobre a microbiota não foram iguais entre as diferentes concentrações de cacau.
Em comparação com o grupo controle, os participantes que consumiram chocolate contendo 85% de cacau apresentaram aumento da bactéria Blautia obeum.
Por outro lado, foi observada uma redução de Faecalibacterium prausnitzii nesse grupo.
Um achado particularmente interessante foi a relação entre as alterações observadas na Blautia obeum e os parâmetros emocionais. Segundo os pesquisadores, a variação na abundância dessa bactéria apresentou associação com os sentimentos negativos relatados pelos participantes.
Esses resultados sugerem que a quantidade de cacau presente no chocolate pode ser relevante para determinar sua interação com o ecossistema intestinal.
O efeito pode estar relacionado aos compostos bioativos do cacau
O cacau apresenta uma concentração significativa de polifenóis e flavonoides, compostos que podem chegar ao intestino e interagir com a microbiota.
Parte desses compostos não é completamente absorvida no trato gastrointestinal superior. Dessa forma, eles podem alcançar o cólon, onde são metabolizados pelos microrganismos intestinais e podem, por sua vez, influenciar o crescimento e a atividade de determinadas espécies bacterianas.
Esse processo ajuda a explicar por que o chocolate com maior concentração de cacau apresentou efeitos mais evidentes sobre a composição da microbiota.
A partir dessa perspectiva, o chocolate amargo pode apresentar uma interação semelhante à observada com determinados alimentos e compostos de ação prebiótica, modificando a abundância relativa de microrganismos intestinais.
Possível relação com o estado emocional
Além das alterações na microbiota, o estudo encontrou uma associação entre a modificação nos níveis de Blautia obeum e os sentimentos negativos.
Esse resultado é relevante porque reforça a hipótese de que a alimentação pode influenciar aspectos emocionais por meio do eixo intestino-cérebro.
Entretanto, é importante interpretar esse achado com cautela. O estudo foi realizado em um número pequeno de indivíduos saudáveis e teve duração de apenas três semanas. Além disso, a associação entre uma bactéria específica e alterações emocionais não significa necessariamente que a modificação dessa bactéria seja responsável diretamente pela melhora do humor.
Chocolate amargo: quanto maior o teor de cacau, melhor?
Um aspecto interessante do estudo foi justamente a diferença observada entre os chocolates com 70% e 85% de cacau.
Os resultados sugerem que o chocolate com maior concentração de cacau apresentou maior capacidade de modificar a composição da microbiota intestinal. Isso pode estar relacionado à maior quantidade de polifenóis e outros compostos bioativos presentes na formulação.
Contudo, não significa que qualquer produto com alto teor de cacau produzirá necessariamente os mesmos efeitos. A composição do chocolate, quantidade de açúcar, processamento do cacau e concentração de compostos fenólicos podem variar consideravelmente entre produtos.
Conclusão do estudo
Os pesquisadores concluíram que o consumo diário de 30 g de chocolate com 85% de cacau durante três semanas foi capaz de modificar a diversidade e a abundância de determinadas bactérias intestinais, além de apresentar associação com parâmetros relacionados ao estado emocional.
Os resultados sustentam a hipótese de que o chocolate amargo rico em cacau pode exercer efeitos semelhantes aos prebióticos e participar da modulação do eixo intestino-cérebro.
Apesar disso, o pequeno número de participantes e o curto período de intervenção indicam a necessidade de estudos maiores e mais prolongados para confirmar esses efeitos e esclarecer quais mecanismos estão envolvidos.
Relevância para a prática magistral
Para a farmácia magistral, o estudo reforça um conceito cada vez mais relevante: a modulação da microbiota pode representar uma estratégia complementar para intervenções relacionadas à saúde mental e ao equilíbrio do eixo intestino-cérebro.
Na prática magistral, esse conceito pode ser explorado dentro de abordagens individualizadas que considerem simultaneamente microbiota, inflamação, metabolismo de polifenóis e comunicação intestino-cérebro, sempre com base na evidência disponível para cada ingrediente, cepa ou ativo.
Bibliografia consultada:
Ji-Hee Shin et al. Consumption of 85% cocoa dark chocolate improves mood in association with gut microbial changes in healthy adults: a randomized controlled trial. Journal of Nutritional Biochemistry, 2022.
