O horário em que os alimentos são consumidos pode desempenhar um papel relevante no metabolismo e no controle do peso. Mais do que considerar apenas o que comemos, pesquisas recentes indicam que quando comemos também pode influenciar a fome, a oxidação de substratos, a glicemia, o gasto energético e até a interação com a microbiota intestinal.
Um estudo conduzido por pesquisadores do Brigham and Women’s Hospital investigou justamente essa relação, avaliando se o consumo de chocolate em diferentes horários do dia poderia produzir efeitos distintos sobre parâmetros metabólicos e comportamentais.
O trabalho chama atenção por utilizar chocolate ao leite, e não uma formulação com alto teor de cacau normalmente associada aos benefícios metabólicos dos polifenóis. Assim, o objetivo foi avaliar especificamente se o horário de consumo poderia modificar a resposta do organismo mesmo diante de um alimento com elevada densidade energética.
Chocolate pela manhã ou à noite?
O estudo foi realizado com mulheres na pós-menopausa, grupo particularmente suscetível ao ganho de peso e às alterações metabólicas relacionadas ao envelhecimento.
As participantes foram submetidas a um estudo randomizado, controlado e cruzado, no qual consumiram 100 g de chocolate ao leite diariamente, durante duas semanas, em dois diferentes períodos:
- pela manhã: até uma hora após acordar;
- à noite: até uma hora antes de dormir.
O chocolate utilizado fornecia, por 100 g, aproximadamente 542 kcal, 31 g de gordura, 58,4 g de carboidratos — dos quais 57,5 g eram açúcares —, 6,3 g de proteínas e 1,8 g de fibras. Também continha 18,1 g de cacau, 215 mg de teobromina, 2,06 mg de cafeína e 854 mg de polifenóis totais.
A escolha desse alimento foi proposital: os pesquisadores queriam verificar se a ingestão de uma quantidade significativa de calorias e açúcares em diferentes momentos do dia poderia alterar o equilíbrio energético e o metabolismo.
O consumo de chocolate aumentou o peso corporal?
Apesar do chocolate acrescentar aproximadamente 542 kcal por dia à alimentação, os 14 dias de intervenção não resultaram em aumento do peso corporal.
Um dos possíveis motivos foi a redução espontânea da ingestão alimentar. O consumo de chocolate diminuiu a fome, o apetite e o desejo por doces, levando a uma redução aproximada de:
- 300 kcal/dia na ingestão alimentar quando o chocolate era consumido pela manhã;
- 150 kcal/dia quando o chocolate era consumido à noite.
Essa redução, entretanto, não compensou completamente as calorias fornecidas pelo chocolate.
O resultado é particularmente interessante porque demonstra que a resposta energética ao consumo de um alimento não depende necessariamente apenas de suas calorias, mas também pode envolver alterações na fome, saciedade, metabolismo e comportamento alimentar.
Chocolate pela manhã favoreceu a oxidação de gordura
Os efeitos metabólicos foram diferentes conforme o horário de consumo.
Quando ingerido pela manhã, o chocolate esteve associado a uma série de alterações metabólicas potencialmente favoráveis. Entre elas, houve:
- redução de 4,4% na glicemia de jejum;
- redução de 1,7% na circunferência da cintura;
- aumento de aproximadamente 25,6% na oxidação lipídica;
- redução dos níveis diários de cortisol em comparação ao consumo noturno.
O aumento da oxidação lipídica indica que o organismo passou a utilizar uma quantidade maior de gordura como substrato energético.
O chocolate consumido à noite também provocou alterações metabólicas
Embora o consumo noturno não tenha produzido exatamente as mesmas respostas observadas pela manhã, também foram identificadas mudanças metabólicas.
Na manhã seguinte, as participantes apresentaram:
- aumento de 6,9% na atividade física;
- aumento de 1,3% na dissipação de calor após as refeições;
- aumento de 35,3% na oxidação de carboidratos.
Além disso, o consumo de chocolate pela manhã e à noite provocou alterações distintas na composição e nas funções metabólicas da microbiota intestinal.
Isso reforça a possibilidade de que o horário das refeições seja capaz de interagir com os ritmos circadianos e modificar a maneira como o organismo processa os nutrientes.
O horário da alimentação pode ser tão importante quanto o alimento?
Os resultados não significam que chocolate ao leite seja um alimento indicado para controle de peso ou que seu consumo indiscriminado seja benéfico.
O aspecto mais relevante do estudo está na demonstração de que o mesmo alimento pode provocar respostas metabólicas diferentes dependendo do horário em que é consumido.
Os pesquisadores levantam a hipótese de que essas diferenças estejam relacionadas à interação entre ingestão energética, oxidação de substratos, sono, ritmo circadiano, atividade física e composição da microbiota intestinal.
Além disso, a ausência de ganho de peso durante o período estudado, apesar do aumento calórico, pode estar relacionada à redução espontânea da ingestão alimentar observada nas participantes.
É importante destacar, contudo, que o estudo teve apenas 14 dias de intervenção, foi realizado em mulheres na pós-menopausa e avaliou uma quantidade bastante elevada de chocolate. Portanto, os resultados não devem ser extrapolados diretamente para outras populações ou utilizados para recomendar o consumo diário de chocolate ao leite.
Conclusão do estudo
O estudo demonstrou que o consumo de 100 g de chocolate ao leite durante 14 dias não promoveu aumento do peso corporal em mulheres na pós-menopausa, apesar do aporte adicional de aproximadamente 542 kcal por dia.
O horário de consumo, entretanto, modificou significativamente as respostas metabólicas. O consumo pela manhã esteve associado à menor fome, redução da glicemia de jejum, diminuição da circunferência da cintura e aumento da oxidação lipídica. Já o consumo noturno produziu alterações relacionadas ao metabolismo energético na manhã seguinte, incluindo aumento da atividade física, dissipação de calor e oxidação de carboidratos.
Os resultados reforçam a hipótese de que o timing alimentar pode influenciar a resposta metabólica aos alimentos, embora estudos mais longos sejam necessários para determinar se essas alterações produzem benefícios clinicamente relevantes no controle do peso e na saúde metabólica.
Relevância para a prática magistral
Para a prática magistral, o estudo é interessante principalmente por reforçar o conceito de crononutrição, segundo o qual o momento de administração de determinados nutrientes ou compostos bioativos pode influenciar sua resposta fisiológica.
A pesquisa também chama atenção para a necessidade de considerar não apenas qual ativo utilizar e em qual dose, mas eventualmente quando administrá-lo, especialmente em estratégias voltadas ao metabolismo energético, controle do apetite, composição corporal e ritmo circadiano.
Bibliografia consultada:
González TH; et al. Timing of chocolate intake affects hunger, substrate oxidation, and microbiota: A randomized controlled trial. The FASEB Journal, 2021
