A primeira coisa que vem à cabeça quando a Páscoa se aproxima é chocolate, certo?
Para quem é fã desse doce, essa talvez seja uma das épocas mais aguardadas do ano. Mas, junto com a vontade de comer, muitas vezes vem aquela sensação de culpa: será que é possível aproveitar o chocolate sem comprometer a saúde?
A resposta depende, principalmente, da escolha do chocolate.
O cacau é fonte de diversos compostos bioativos, especialmente flavonoides, além de substâncias como teobromina, cafeína e epicatequina. São esses componentes que despertam o interesse científico e estão relacionados a diferentes efeitos fisiológicos.
Isso não significa que qualquer chocolate possa ser considerado saudável. A composição varia bastante entre os produtos, especialmente quanto à quantidade de cacau, flavonoides, açúcar e gordura.
Por isso, nesta Páscoa, propomos uma abordagem diferente: cinco mordidas para conhecer alguns dos possíveis benefícios associados aos flavonoides do cacau.
Pegue seu chocolate e venha saborear essa revisão com a gente!
🍫 1ª mordida: benefícios para o coração
O cacau apresenta elevada concentração de compostos bioativos, com destaque para epicatequina, teobromina e cafeína. Entre eles, a epicatequina tem especial interesse por sua relação com a produção de óxido nítrico.
Os flavonoides do cacau podem exercer diferentes efeitos sobre o sistema cardiovascular. Entre os mecanismos investigados estão:
- redução da ativação e agregação plaquetária;
- melhora do perfil lipídico;
- manutenção da pressão arterial;
- redução da disfunção endotelial.
A epicatequina pode estimular a produção de óxido nítrico, favorecendo a vasodilatação e o fluxo sanguíneo. Já a teobromina apresenta efeitos sobre a função plaquetária.
Esses mecanismos ajudam a explicar por que o cacau vem sendo estudado como um alimento de interesse para a saúde cardiovascular.
🍫 2ª mordida: metabolismo da glicose
O cacau também vem sendo investigado em relação ao metabolismo da glicose.
Após ser absorvida, a epicatequina pode participar de vias de sinalização relacionadas à ação da insulina, favorecendo a captação de glicose pelas células.
Em estudos experimentais, a administração de cacau foi associada a alterações importantes na glicemia. Em um modelo animal citado na literatura, por exemplo, os animais que receberam cacau apresentaram redução dos níveis de glicose de 418,0 para 144,0 mg/dL.
É importante, entretanto, diferenciar esse resultado de evidências clínicas em humanos. Resultados obtidos em animais não permitem afirmar que o consumo de chocolate produza o mesmo efeito em pessoas com diabetes.
O interesse está, principalmente, na investigação dos flavonoides do cacau e de sua possível influência sobre a sinalização metabólica.
🍫 3ª mordida: cérebro, memória e cognição
O cérebro também pode se beneficiar dos efeitos vasculares atribuídos aos flavonoides do cacau.
Esses compostos têm sido associados à melhora do fluxo sanguíneo cerebral e da perfusão, além de apresentarem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias que despertam interesse na proteção neuronal.
Estudos experimentais sugerem ainda que os flavonoides podem estimular processos relacionados à angiogênese e à formação de novas células no hipocampo, região cerebral importante para memória e aprendizagem.
Por esse motivo, o consumo de cacau vem sendo investigado em relação à cognição, memória e doenças neurodegenerativas, incluindo a doença de Alzheimer.
Mais uma vez, porém, é importante separar potencial biológico de eficácia clínica: os mecanismos são promissores, mas isso não significa que o chocolate possa prevenir ou tratar doenças neurodegenerativas.
🍫 4ª mordida: benefícios para a pele
Se você achava que os benefícios do cacau terminavam no coração e no cérebro, ainda falta falar sobre a pele.
Um estudo avaliou durante 12 semanas o efeito do consumo de bebidas com diferentes concentrações de flavonoides do cacau.
Os participantes que consumiram uma bebida contendo aproximadamente 329 mg de flavonoides de cacau por dia apresentaram melhores resultados em parâmetros relacionados à pele quando comparados ao grupo que recebeu apenas 27 mg/dia.
Entre os efeitos observados estavam:
- menor rugosidade;
- redução da descamação;
- redução de rugas;
- melhora da suavidade da pele.
Outros estudos também investigaram a capacidade dos flavonoides do cacau de aumentar a resistência da pele aos danos provocados pela radiação ultravioleta, utilizando aproximadamente 320–326 mg de flavonoides por dia.
Esses resultados ajudam a explicar o interesse crescente pelos polifenóis do cacau em estratégias relacionadas ao envelhecimento cutâneo e à fotoproteção, embora não substituam o uso de protetor solar.
🍫 5ª mordida: menos estresse
Chegamos à última mordida. E talvez seja justamente a hora de relaxar.
Os flavonoides do cacau vêm sendo estudados por sua possível influência sobre mecanismos relacionados à resposta ao estresse, incluindo a modulação do eixo hormonal envolvido na liberação de ACTH e cortisol.
Em um estudo com 60 participantes, os voluntários foram divididos em grupos que receberam chocolate amargo, chocolate ao leite ou chocolate branco.
Após duas semanas, o grupo que consumiu 40 g de chocolate amargo diariamente apresentou resultados compatíveis com uma redução da resposta ao estresse.
Embora esses resultados sejam interessantes, é importante considerar que diferentes tipos de chocolate apresentam concentrações muito distintas de cacau e compostos bioativos. Portanto, não é possível atribuir automaticamente o mesmo efeito a qualquer produto comercial.
Mas afinal, quanto cacau existe no chocolate?
Aqui está o ponto mais importante desta revisão.
Chocolate não é sinônimo de cacau.
Os benefícios descritos na literatura estão relacionados principalmente à presença de flavonoides e outros compostos bioativos do cacau. Entretanto, a quantidade desses componentes pode variar consideravelmente entre produtos.
Fatores como genética da planta, clima, solo, região de cultivo e processamento podem influenciar a concentração de flavonoides.
Além disso, o chocolate é uma matriz complexa, que pode conter diferentes proporções de cacau, açúcar, gordura e outros ingredientes.
Por isso, embora o chocolate amargo seja frequentemente associado a maiores concentrações de flavonoides, alguns chocolates ao leite também podem apresentar quantidades relevantes desses compostos.
Segundo os dados apresentados na literatura, uma porção de aproximadamente 5 a 26 g de chocolate amargo pode fornecer entre 65 e 1.095 mg de flavonoides de cacau, demonstrando como a concentração pode variar amplamente.
Algumas referências sugerem ingestão de aproximadamente 500 a 1.000 mg de flavonoides de cacau por dia, mas essa quantidade não deve ser interpretada como uma recomendação universal de consumo de chocolate, especialmente porque a concentração de flavonoides varia entre os produtos.
A escolha do chocolate faz diferença
Portanto, a pergunta não deveria ser simplesmente “chocolate faz bem ou faz mal?”
A pergunta mais adequada é: qual chocolate, em qual quantidade e com qual composição?
Quanto maior a proporção de cacau e de compostos bioativos, maior tende a ser o interesse nutricional do produto. Por outro lado, chocolates com grandes quantidades de açúcar e gordura podem apresentar uma densidade energética elevada.
Assim, ao escolher um chocolate, vale observar:
✔ percentual de cacau;
✔ lista de ingredientes;
✔ quantidade de açúcar;
✔ quantidade de gordura;
✔ presença e concentração de compostos bioativos, quando informadas.
E existe uma mensagem importante para a Páscoa: não é necessário transformar o chocolate em vilão. O que importa é compreender que seus potenciais benefícios estão relacionados principalmente ao cacau e aos seus compostos bioativos, e não ao simples fato de o alimento ser chamado de chocolate.
Conclusão
Os flavonoides presentes no cacau apresentam uma série de mecanismos biológicos que justificam o crescente interesse científico pelo alimento. Estudos apontam possíveis efeitos sobre saúde cardiovascular, metabolismo da glicose, função cerebral, saúde da pele e resposta ao estresse.
Entretanto, a evidência não deve ser interpretada como uma justificativa para o consumo indiscriminado de chocolate. A quantidade de cacau e flavonoides varia consideravelmente entre os produtos, assim como a concentração de açúcar e gordura.
Na prática, a melhor escolha é olhar além da embalagem e avaliar a composição do produto.
Nesta Páscoa, portanto, talvez não seja necessário sentir culpa por uma mordida de chocolate. Mas vale fazer uma escolha consciente: quanto mais cacau e compostos bioativos, e quanto menos ingredientes que descaracterizam seu perfil nutricional, maior o interesse do produto sob a perspectiva da saúde.
E, se você chegou até aqui, pode dar a última mordida sem pressa. Afinal, comer também pode ser uma experiência de prazer, e conhecimento ajuda a fazer escolhas melhores.
Referencias consultadas:
EFRAIM P; ALVES AB; JARDIM DCP. Polifenóis em cacau e derivados: teores, fatores de variação e efeitos na saúde. Braz. J. Food Technol, 2011
SHAHANAS E; et al. Health Benefits of Bioactive Compounds from Cocoa (Theobroma cacao). Agricultural Reviews, 2019
Examine. Disponível em: https://examine.com/supplements/cocoa-extract/
