Chocolate esbranquiçado: entenda o que são fat bloom e sugar bloom

Chocolate esbranquiçado: entenda o que são fat bloom e sugar bloom

 

Quem trabalha com chocolates medicamentosos na farmácia magistral provavelmente já se deparou com um dos problemas farmacotécnicos mais frequentes dessa forma farmacêutica: o aparecimento de uma camada esbranquiçada na superfície do chocolate poucos dias após sua manipulação.

Embora muitos pacientes associem esse aspecto a um produto deteriorado, na maioria dos casos o chocolate não está estragado. O esbranquiçamento geralmente ocorre devido a dois fenômenos físicos conhecidos como fat bloom e sugar bloom.

Conhecer as diferenças entre eles é essencial para prevenir o problema e orientar corretamente o paciente.


Por que utilizar chocolates como forma farmacêutica?

O chocolate apresenta excelente aceitação pelos pacientes e pode representar uma alternativa interessante para melhorar a adesão ao tratamento, especialmente em pediatria e em pacientes com dificuldade de deglutição.

Sua composição é baseada principalmente em:

  • massa de cacau;
  • manteiga de cacau;
  • edulcorantes.

Na farmácia magistral, o chocolate pode ser utilizado como veículo para incorporação de diversos ativos, desde que sejam respeitados aspectos como:

  • estabilidade;
  • compatibilidade;
  • dose do ativo;
  • características organolépticas.

O que é o fat bloom?

O fat bloom é o defeito mais comum observado em chocolates.

Ele ocorre quando parte da gordura presente no interior do chocolate, principalmente a manteiga de cacau, migra para a superfície e recristaliza.

O resultado é um chocolate com aspecto:

  • opaco;
  • esbranquiçado;
  • menos brilhante;
  • por vezes levemente arenoso.

Apesar da alteração visual, o produto normalmente continua próprio para consumo quando o fenômeno decorre apenas da recristalização da gordura.


Como evitar o fat bloom?

A principal estratégia é realizar corretamente a temperagem do chocolate.

Esse processo controla a cristalização da manteiga de cacau, favorecendo a formação dos cristais mais estáveis (formas βV e βVI), responsáveis por características como:

  • brilho;
  • textura firme;
  • boa contração do molde;
  • estabilidade durante o armazenamento.

Como realizar a temperagem?

De maneira simplificada, a temperagem manual consiste em:

1. Fusão

Aquecer completamente o chocolate até aproximadamente 40–45 °C, promovendo a fusão de todos os cristais existentes.

Nesse momento, realiza-se também a incorporação do ativo farmacêutico, quando compatível com o processo.

2. Resfriamento

Separar cerca de 2/3 da massa sobre uma bancada de mármore e movimentá-la continuamente com espátulas até atingir aproximadamente 27 °C.

Esse resfriamento promove a formação dos cristais estáveis.

3. Reaquecimento

Adicionar lentamente o 1/3 do chocolate mantido aquecido até que a massa atinja cerca de 30–32 °C.

Nessa temperatura permanecem predominantemente os cristais desejáveis para a moldagem.

4. Moldagem

Transferir imediatamente para os moldes e permitir o resfriamento em temperatura ambiente.

 

Importante: cada base de chocolate pode apresentar pequenas variações na curva de temperagem. Quando forem utilizadas bases comerciais prontas, recomenda-se seguir as orientações do fabricante.


A incorporação de ativos interfere na temperagem?

A adição de substâncias lipofílicas, óleos essenciais, vitaminas lipossolúveis ou outros ingredientes graxos pode modificar a cristalização da manteiga de cacau e exigir ajustes na curva de temperagem.


O que é o sugar bloom?

Outro defeito frequentemente confundido com o fat bloom é o sugar bloom.

Nesse caso, o problema não está relacionado à gordura, mas sim ao contato do chocolate com água ou umidade.

A umidade dissolve parcialmente os cristais de açúcar presentes na superfície. Após a evaporação da água, esse açúcar recristaliza formando uma camada branca, áspera e opaca.


Como evitar o sugar bloom?

Alguns cuidados ajudam a reduzir esse problema:

  • manter a sala de manipulação entre 18 °C e 22 °C, quando possível;
  • controlar a umidade relativa do ambiente (idealmente entre 40% e 50%, conforme a estrutura disponível);
  • utilizar moldes completamente secos;
  • evitar qualquer contato do chocolate com água;
  • armazenar os chocolates em embalagens protegidas da umidade e do calor.

Fat bloom × Sugar bloom

CaracterísticaFat bloomSugar bloom
OrigemMigração e recristalização da gorduraRecristalização do açúcar após contato com umidade
AparênciaCamada branca opaca e homogêneaSuperfície esbranquiçada, áspera e granulosa
Principal causaTemperagem inadequadaExposição à água ou umidade
Como prevenirTemperagem corretaControle da umidade e armazenamento adequado

Conclusão

O aparecimento de uma camada branca sobre chocolates medicamentosos nem sempre indica deterioração do produto. Na maioria das vezes, trata-se de alterações físicas decorrentes do fat bloom ou do sugar bloom. Conhecer esses fenômenos e aplicar corretamente técnicas de temperagem e armazenamento permite produzir chocolates com melhor aparência, maior estabilidade e maior aceitação pelos pacientes.


Relevância para a prática magistral

Os chocolates medicamentosos representam uma forma farmacêutica diferenciada que pode melhorar significativamente a adesão ao tratamento. O domínio dos processos de temperagem, das características da manteiga de cacau e dos fatores que favorecem o fat bloom e o sugar bloom é essencial para garantir qualidade estética, estabilidade e satisfação do paciente, reduzindo perdas e retrabalho na rotina da farmácia magistral.

 

Bibliografia

COHEN KO; LUCCAS V; JACKIX MNH. Revisão: Temperagem ou Pré-Cristalização do Chocolate. Brazilian Journal of food technology, 2004.

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