O câncer de mama é o tipo de câncer mais frequentemente diagnosticado entre as mulheres e uma das principais causas de mortalidade por câncer em todo o mundo. Embora existam diferentes subtipos da doença, o câncer de mama triplo negativo (TNBC) continua sendo um dos maiores desafios da oncologia devido ao seu comportamento altamente agressivo, elevada capacidade de metástase e menor número de opções terapêuticas.
Nesse contexto, compostos bioativos de origem natural têm despertado interesse crescente como potenciais estratégias complementares ao tratamento convencional. Entre eles, a curcumina, principal polifenol da Curcuma longa, destaca-se por atuar simultaneamente em diversos mecanismos envolvidos na progressão tumoral.
Uma revisão publicada em 2021 na revista Cancers reuniu as principais evidências sobre o papel da curcumina no câncer de mama triplo negativo.
O que é o câncer de mama triplo negativo?
O câncer de mama triplo negativo caracteriza-se pela ausência de expressão de três importantes alvos terapêuticos:
- receptor de estrogênio (ER);
- receptor de progesterona (PR);
- proteína HER2.
Por não apresentar esses receptores, esse subtipo responde a um número mais limitado de terapias direcionadas, sendo frequentemente associado a:
- maior agressividade;
- crescimento acelerado;
- maior risco de metástases;
- resistência a diversos medicamentos;
- prognóstico menos favorável.
Por que a curcumina tem despertado interesse?
A curcumina é um composto bioativo extraído da Curcuma longa conhecido por apresentar propriedades:
- antioxidantes;
- anti-inflamatórias;
- imunomoduladoras;
- antiproliferativas.
Diferentemente de moléculas que atuam sobre um único alvo, a curcumina exerce uma ação multidirecionada, interferindo em diferentes etapas da tumorigênese.
Segundo a revisão, esse perfil faz da curcumina um dos compostos naturais mais estudados na pesquisa oncológica.
Como a curcumina atua nas células tumorais?
A revisão mostrou que a curcumina interfere em diversas etapas relacionadas ao desenvolvimento e progressão do câncer de mama triplo negativo, incluindo:
- proliferação celular;
- sobrevivência das células tumorais;
- angiogênese;
- invasão tumoral;
- metástase.
Esses efeitos ocorrem por meio da modulação simultânea de diferentes vias de sinalização celular.
Quais vias moleculares são moduladas?
Os autores destacam que a curcumina atua sobre importantes vias envolvidas na carcinogênese, entre elas:
- PI3K/Akt/mTOR;
- JAK/STAT;
- MAPK;
- NF-κB;
- p53;
- Wnt/β-catenina.
Além disso, a molécula influencia mecanismos relacionados:
- à apoptose;
- ao ciclo celular;
- à atividade de fatores de crescimento;
- à regulação de fatores de transcrição;
- à ação de diversas quinases celulares.
Essa atuação simultânea em múltiplos alvos é considerada uma das principais características farmacológicas da curcumina.
Associação com quimioterápicos
Outro aspecto destacado pela revisão foi a interação da curcumina com diferentes agentes quimioterápicos.
Segundo os estudos analisados, a curcumina aumentou a eficácia de medicamentos como:
- paclitaxel;
- gencitabina;
- doxorrubicina;
- 5-fluorouracil;
- docetaxel.
Os autores também descrevem potencial para reduzir mecanismos relacionados à resistência tumoral aos medicamentos, especialmente no câncer de mama independente de hormônios.
O que mostraram os estudos clínicos?
Além dos estudos experimentais, a revisão incluiu evidências provenientes de pesquisas clínicas.
Os autores relatam que a utilização da curcumina, isoladamente ou em associação ao tratamento convencional, esteve relacionada à melhora de alguns desfechos clínicos, incluindo:
- redução da fadiga associada ao tratamento;
- diminuição da dermatite induzida pela radioterapia;
- potencial benefício como estratégia complementar durante a terapia do câncer de mama.
Conclusão
A revisão publicada na revista Cancers demonstra que a curcumina atua sobre múltiplos mecanismos envolvidos na progressão do câncer de mama triplo negativo, incluindo importantes vias de sinalização celular relacionadas à proliferação, angiogênese, apoptose e metástase. Além disso, os estudos analisados sugerem potencial para aumentar a eficácia de diferentes quimioterápicos e contribuir para a redução de alguns efeitos adversos do tratamento, reforçando o interesse científico pela curcumina como estratégia complementar na pesquisa oncológica.
Relevância para a prática magistral
A curcumina é um dos compostos bioativos mais investigados na oncologia devido ao seu perfil de ação multitarget, modulando simultaneamente diferentes vias celulares relacionadas ao crescimento tumoral, inflamação, angiogênese e apoptose. Essa revisão amplia o conjunto de evidências experimentais e clínicas sobre seu potencial como estratégia complementar no câncer de mama triplo negativo, especialmente em associação às terapias convencionais.
Bibliografia consultada:
Farghadani R; Naidu R. Curcumin: Modulator of Key Molecular Signaling Pathways in Hormone-Independent Breast Cancer. Cancers, 2021.
