A terapia endócrina revolucionou o tratamento do câncer de mama receptor de estrogênio positivo (ER+), responsável por aproximadamente 75% a 80% dos casos da doença. Medicamentos como tamoxifeno e inibidores da aromatase aumentam significativamente a sobrevida das pacientes, porém um efeito adverso frequente e muitas vezes negligenciado é a queda de cabelo.
Uma revisão publicada na revista Nutrients reuniu as principais evidências sobre a alopecia induzida pela terapia endócrina e destacou diversos nutracêuticos que podem atuar como adjuvantes no manejo dessa condição.
Por que a terapia hormonal causa queda de cabelo?
Grande parte dos tumores de mama depende do estrogênio para crescer. Por isso, o tratamento costuma utilizar duas estratégias:
- bloquear os receptores de estrogênio (como o tamoxifeno);
- reduzir a produção de estrogênio com inibidores da aromatase.
Embora eficazes contra o tumor, esses medicamentos também reduzem o estímulo hormonal sobre os folículos capilares, levando muitos fios a entrarem precocemente na fase de repouso (telógena), diminuindo progressivamente a densidade capilar.
A alopecia pode se assemelhar à androgenética
Em um estudo envolvendo 112 mulheres com câncer de mama em tratamento endócrino, exames clínicos e tricoscópicos demonstraram um padrão de queda semelhante à alopecia androgenética feminina.
Os pesquisadores observaram que:
- 67% dos casos estavam associados aos inibidores da aromatase;
- 33% ocorreram durante o tratamento com tamoxifeno;
- em 76% das pacientes, a redução capilar foi mais evidente na região frontotemporal.
O uso de minoxidil tópico promoveu melhora clínica da alopecia em aproximadamente 80% das pacientes após três a seis meses de tratamento.
Tamoxifeno apresentou maior incidência de alopecia
Outra análise, envolvendo 19.430 pacientes com câncer de mama receptor de estrogênio positivo, avaliou a ocorrência de alopecia durante a terapia hormonal.
Entre as 13.415 pacientes submetidas ao tratamento endócrino, a incidência de alopecia variou de 0% a 25%, com incidência global de 4,4%.
Segundo os autores, o tamoxifeno apresentou a maior frequência de queda capilar entre os medicamentos avaliados.
Nutracêuticos que vêm sendo estudados
A revisão publicada na Nutrients reuniu diversos compostos bioativos que demonstram potencial para auxiliar no manejo da alopecia induzida pela terapia endócrina.
Entre eles destacam-se:
| Insumo | Potencial de uso |
| Resveratrol | Apresenta potente ação antioxidante, reduzindo o estresse oxidativo nas células do folículo piloso. Um estudo clínico envolvendo 79 mulheres mostrou aumento significativo da densidade capilar após o uso tópico de resveratrol associado ao éster dietílico do ácido piridina-2,4-dicarboxílico. |
| Tocotrienóis | Os tocotrienóis estimulam a fase anágena (crescimento) dos folículos pilosos. Em um estudo clínico com oito meses de acompanhamento, participantes suplementados apresentaram aumento de 34,5% na contagem de fios, efeito atribuído principalmente à redução da peroxidação lipídica e do estresse oxidativo. |
| Saw Palmetto (Serenoa repens) | Embora a maior parte dos estudos tenha sido realizada em homens com alopecia androgenética, seu mecanismo de inibição parcial da 5α-redutase sugere possível aplicação também em mulheres. Os estudos demonstram melhora do crescimento capilar tanto por via oral quanto tópica. |
| Maca (Lepidium meyenii ) | Pode reduzir os níveis de IL-6, citocina frequentemente relacionada aos processos inflamatórios envolvidos na queda capilar. Além disso, estimula importantes sistemas antioxidantes celulares, como SOD e glutationa (GSH). |
| Curcumina | Quando utilizada isoladamente, apresentou efeito limitado sobre o crescimento capilar. Entretanto, estudos mostraram que sua associação ao minoxidil 5% promove melhora significativamente superior em comparação ao minoxidil isolado, sugerindo efeito sinérgico. |
| Ashwagandha (Withania somnifera) | Seu principal potencial está relacionado à redução do estresse e da ansiedade. Como adaptógeno, ajuda a modular o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), reduzindo os níveis de cortisol, fator frequentemente associado ao eflúvio telógeno e às alterações hormonais relacionadas à queda capilar. |
| Cavalinha (Equisetum arvense) | Apresenta atividade inibitória sobre a 5α-redutase e reduz a produção de IL-6 em modelos experimentais. |
| Astaxantina | Protege as mitocôndrias contra o estresse oxidativo, favorecendo a manutenção da atividade metabólica das células do folículo piloso. |
| Kelp alga marrom | Extratos ricos em:
Demonstraram estimular a proliferação das células da papila dérmica, prolongar a fase anágena e favorecer o crescimento capilar em estudos experimentais e clínicos. |
Malus pumila Miller cv. Annurca (frutos de maçã) | Em estudo clínico envolvendo 250 pacientes, a suplementação oral de 800 mg/dia aumentou significativamente:
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| Carthamus Tinctorius L. (Cártamo) | Estimula a via β-catenina e reduz a expressão de TGF-β1, favorecendo o crescimento dos folículos capilares. |
| Capsicum annuum | A capsaicina aumenta a produção de IGF-1, fator de crescimento importante para manutenção da fase anágena. |
| Panax ginseng | Estudos mostram que o ginseng vermelho potencializa os efeitos do minoxidil tópico. Além disso, modelos experimentais sugerem proteção contra o catágeno precoce e estímulo à proliferação das células da bainha externa do folículo. |
Conclusão
A terapia hormonal utilizada no câncer de mama receptor de estrogênio positivo pode provocar uma alopecia semelhante à androgenética, afetando significativamente a qualidade de vida das pacientes. O minoxidil tópico permanece como a intervenção com melhores evidências clínicas, porém uma revisão recente destaca diversos nutracêuticos promissores — como tocotrienóis, resveratrol, curcumina, Panax ginseng, astaxantina, maçã Annurca e algas marrons — que poderão complementar futuras estratégias de manejo da queda capilar associada ao tratamento oncológico.
Relevância para a prática magistral
A alopecia induzida pela terapia endócrina representa um importante desafio clínico, impactando diretamente a autoestima, a qualidade de vida e, em alguns casos, até mesmo a adesão ao tratamento oncológico. A revisão publicada na Nutrients reúne diversos nutracêuticos com mecanismos antioxidantes, anti-inflamatórios, moduladores hormonais e estimuladores do ciclo capilar que podem atuar como estratégias adjuvantes ao tratamento convencional. Embora muitos dos resultados ainda sejam provenientes de estudos experimentais ou realizados em outros tipos de alopecia, esses compostos ampliam o arsenal de possibilidades para formulações magistrais individualizadas, sempre respeitando a avaliação clínica e oncológica de cada paciente.
Bibliografia consultada:
Dell’Acqua G; Richards A; Thornton MJ. The Potential Role of Nutraceuticals as an Adjuvant in Breast Cancer Patients to Prevent Hair Loss Induced by Endocrine Therapy. Nutrients. 2020.
