A biotina (vitamina B7) é um micronutriente essencial e atua como cofator em diversas vias metabólicas do organismo. Embora seja mais conhecida por sua participação no metabolismo energético e na síntese de determinadas moléculas, pesquisas também vêm investigando sua relação com a saúde intestinal.
Estudos anteriores já haviam observado que a deficiência de biotina, tanto pela ausência do transportador responsável por sua absorção quanto pela baixa ingestão na dieta, pode provocar em camundongos alterações semelhantes às encontradas na doença inflamatória intestinal (DII).
Diante disso, pesquisadores buscaram entender se essas alterações poderiam estar relacionadas a mudanças na microbiota intestinal.
O que os pesquisadores investigaram?
Para avaliar essa relação, foram coletadas amostras de fezes dos animais utilizados como modelo de deficiência de biotina.
As amostras foram submetidas a sequenciamento genético, permitindo analisar as alterações na composição da microbiota intestinal.
E quais foram os resultados?
Os animais com deficiência de biotina apresentaram uma importante alteração na composição da microbiota, caracterizada pela expansão de microrganismos oportunistas.
Entre as bactérias que apresentaram aumento estavam:
- Klebsiella;
- Enterobacter;
- Helicobacter.
Essas alterações indicam que a deficiência de biotina pode estar associada a um estado de disbiose intestinal.
Qual seria a relação com a inflamação?
Segundo os achados do estudo, a disbiose observada nos animais deficientes em biotina esteve associada a alterações intestinais semelhantes às características encontradas na DII.
Os pesquisadores sugerem que a alteração da microbiota pode contribuir para um ambiente intestinal mais favorável à inflamação, ajudando a explicar as mudanças observadas nos animais.
Assim, estabelece-se uma possível relação:
deficiência de biotina → alteração da microbiota → expansão de microrganismos oportunistas → alterações intestinais e inflamatórias.
Mas a deficiência de biotina causa doença inflamatória intestinal?
Ainda não é possível afirmar isso em humanos.
Os resultados foram obtidos em modelos animais e demonstram uma associação entre a deficiência de biotina, alterações da microbiota e características semelhantes à DII nesses animais.
Ainda são necessários estudos para determinar se esse mesmo mecanismo ocorre em seres humanos e, principalmente, se a correção da deficiência de biotina seria capaz de modificar a disbiose ou reduzir a inflamação intestinal em pacientes com DII.
Relevância para a prática magistral
O estudo acrescenta mais uma peça à complexa relação entre micronutrientes e microbiota intestinal.
Para a prática magistral, o achado é interessante porque reforça a importância de considerar o estado nutricional do paciente dentro de uma abordagem individualizada da saúde intestinal.
Entretanto, os resultados não justificam a suplementação de biotina como tratamento da DII. A avaliação da necessidade de suplementação deve considerar a presença de deficiência, a condição clínica e as evidências disponíveis.
A relação entre vitaminas e microbiota parece ser muito mais complexa do que imaginávamos — e a biotina pode ter um papel importante nessa interação.
Bibliografia consultada:
Yang JC; et al. Biotin Deficiency Induces Intestinal Dysbiosis Associated with an Inflammatory Bowel Disease-like Phenotype. Nutrients, 2022.
