Quando desenvolvemos uma formulação dermatológica contendo óleos vegetais, é comum surgir a dúvida: qual óleo escolher para obter uma determinada finalidade? Dependendo da composição, um óleo pode apresentar potencial antioxidante, anti-inflamatório, cicatrizante, antibacteriano ou auxiliar na manutenção e reparação da barreira cutânea.
Com tantas opções disponíveis no mercado, conhecer quais delas possuem respaldo científico é fundamental para uma escolha mais criteriosa.
Uma ampla revisão publicada no International Journal of Molecular Sciences avaliou as evidências disponíveis sobre diferentes óleos vegetais utilizados topicamente e discutiu seus possíveis efeitos sobre inflamação, estresse oxidativo, cicatrização e função da barreira cutânea.
O que determina a ação de um óleo vegetal?
Os óleos vegetais não são compostos exclusivamente por triglicerídeos. Eles também podem apresentar ácidos graxos livres, tocoferóis, esteróis, fosfolipídios, esqualeno, compostos fenólicos, carotenoides e triterpenos, entre outros componentes.
Essa composição ajuda a explicar por que diferentes óleos podem produzir efeitos distintos quando aplicados sobre a pele.
Os ácidos graxos, por exemplo, apresentam papel importante na integridade da barreira cutânea. O ácido linoleico participa da manutenção da barreira de permeabilidade da pele, enquanto concentrações elevadas de ácido oleico podem, em determinadas circunstâncias, aumentar a permeabilidade e até comprometer a função da barreira.
Já compostos como tocoferóis e fenólicos apresentam atividade antioxidante e podem participar da modulação de processos relacionados à homeostase, inflamação e proteção contra espécies reativas de oxigênio.
Óleos vegetais e reparação da barreira cutânea
A aplicação tópica de óleos vegetais pode produzir um efeito oclusivo, ajudando a reduzir a perda de água através da pele e contribuindo para a manutenção da hidratação do estrato córneo.
Esse efeito, entretanto, não significa que todos os óleos tenham o mesmo comportamento.
A composição em ácidos graxos é determinante. O ácido linoleico, por exemplo, apresenta participação direta na manutenção da integridade da barreira cutânea, enquanto o ácido oleico pode apresentar efeito de desorganização da barreira quando utilizado continuamente em determinadas condições.
Por isso, simplesmente classificar um óleo como “hidratante” não é suficiente para determinar sua adequação a uma formulação dermatológica.
Potencial antioxidante
Os componentes da fração insaponificável dos óleos também podem apresentar importante atividade antioxidante.
Entre eles estão:
- tocoferóis;
- carotenoides;
- triterpenos;
- flavonoides;
- compostos fenólicos.
Essas substâncias podem contribuir para a proteção contra espécies reativas de oxigênio e participar da modulação de processos inflamatórios e relacionados ao envelhecimento cutâneo.
O azeite de oliva, por exemplo, apresenta diversos compostos fenólicos, enquanto o óleo de semente de uva contém flavonoides, ácidos fenólicos, taninos e estilbenos, entre outros compostos bioativos.
Potencial para cicatrização
Outro aspecto interessante discutido na revisão é a participação dos triterpenos nos processos de reparação tecidual.
Esses compostos podem influenciar mecanismos relacionados à migração e proliferação celular, deposição de colágeno e modulação de espécies reativas de oxigênio, contribuindo potencialmente para o processo de cicatrização.
A betulina, um tipo de triterpeno encontrado, por exemplo, na casca da bétula, apresentou evidências de aceleração da cicatrização em estudos clínicos e experimentais. Os triterpenos também estão presentes na manteiga de karité, amplamente utilizada em produtos destinados ao cuidado da pele.
Nem todo óleo vegetal é adequado para toda pele
Esse é provavelmente um dos pontos mais importantes para a prática magistral.
A atividade de um óleo vegetal depende de sua composição química, concentração, forma de obtenção e condição da pele em que será aplicado.
Uma revisão posterior que avaliou estudos clínicos com 17 óleos vegetais reforçou essa questão: óleos com elevado conteúdo de ácido oleico podem apresentar efeitos negativos em peles com determinadas alterações da barreira, enquanto óleos ricos em ácido linoleico e ácidos graxos saturados podem apresentar efeitos mais favoráveis em algumas condições.
Portanto, a escolha do óleo deve considerar o objetivo da formulação e o estado fisiológico ou patológico da pele, e não apenas a popularidade ou a origem natural do ingrediente.
Quais óleos foram avaliados?
A revisão de Lin e colaboradores discutiu evidências relacionadas a diversos óleos vegetais, incluindo:
- óleo de oliva;
- óleo de bagaço de oliva;
- óleo de girassol;
- óleo de coco;
- óleo de cártamo;
- óleo de argan;
- óleo de soja;
- óleo de amendoim;
- óleo de gergelim;
- óleo de abacate;
- óleo de borragem;
- óleo de jojoba;
- óleo de aveia;
- óleo de semente de romã;
- óleo de amêndoas;
- óleo de damasco;
- óleo de rosa-mosqueta;
- óleo de camomila;
- manteiga de karité.
A revisão organizou esses óleos de acordo com as evidências disponíveis para diferentes propriedades relacionadas à inflamação, atividade antioxidante, cicatrização e reparação da barreira cutânea.

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Conclusão
Os óleos vegetais podem apresentar muito mais do que uma simples função de veículo ou emoliência em uma formulação dermatológica. Dependendo de sua composição, podem participar de mecanismos relacionados à hidratação, manutenção da barreira cutânea, modulação da inflamação, proteção antioxidante e cicatrização.
Entretanto, a escolha do óleo deve ser feita de maneira criteriosa, considerando sua composição em ácidos graxos e compostos bioativos, além da condição da pele e do objetivo terapêutico.
Assim, “natural” não significa necessariamente “adequado para qualquer pele”. Conhecer as evidências científicas de cada óleo permite desenvolver formulações mais racionalmente estruturadas e alinhadas às necessidades individuais do paciente.
Relevância para a prática magistral
Esse conteúdo tem alta relevância para a prática magistral, porque transforma uma dúvida muito comum na rotina de desenvolvimento de formulações — “qual óleo vegetal devo escolher?” — em uma decisão baseada na composição e nas evidências disponíveis.
A revisão pode servir como ferramenta de apoio para o farmacêutico na escolha de óleos destinados a diferentes objetivos, como reparação da barreira, hidratação, ação antioxidante, modulação da inflamação e cicatrização.
Também é um tema interessante para materiais de visitação destinados a dermatologistas, médicos, nutricionistas e profissionais que trabalham com dermatologia estética, mostrando que a escolha do óleo vegetal pode ser tecnicamente direcionada e não apenas baseada em preferência ou tendência de mercado.
Um ponto especialmente importante para a farmácia magistral é considerar que o mesmo óleo pode apresentar efeitos diferentes dependendo da condição da pele. Portanto, a formulação deve ser individualizada e construída a partir da finalidade pretendida, concentração utilizada e características do paciente.
Bibliografia consultada:
Lin TK; Zhong L; Santiago JL. Anti-Inflammatory and Skin Barrier Repair Effects of Topical Application of Some Plant Oils. International Journal of Molecular Science, 2017.
