A calcificação da aorta abdominal é uma alteração vascular associada ao envelhecimento e a um maior risco de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares.
Mas será que a alimentação pode influenciar esse processo?
Um estudo publicado na revista Arteriosclerosis, Thrombosis, and Vascular Biology encontrou uma associação entre o maior consumo de flavonoides e uma menor presença de calcificação extensa da aorta abdominal em mulheres.
O que são flavonoides?
Os flavonoides são compostos bioativos encontrados naturalmente em diversos alimentos de origem vegetal.
Entre as principais fontes estão:
- chá preto e chá verde;
- mirtilos e morangos;
- laranja;
- maçã;
- uvas e passas;
- chocolate amargo;
- entre outros alimentos vegetais.
O que mostrou o estudo?
Os pesquisadores analisaram 881 participantes do Perth Longitudinal Study of Aging Women.
A partir de questionários alimentares, foi estimado o consumo total e individual de diferentes flavonoides.
As mulheres que apresentavam maior ingestão total de flavonoides tiveram um risco 36% menor de apresentar calcificação extensa da aorta abdominal em comparação às mulheres com menor ingestão.
E o chá?
O chá preto foi a principal fonte de flavonoides na alimentação das participantes.
Entre as mulheres que consumiam 2 a 6 xícaras de chá preto por dia, o risco de calcificação da aorta abdominal foi entre 16% e 42% menor em comparação às mulheres que não consumiam chá.
Esse resultado é particularmente interessante porque mostra como um alimento habitual pode representar uma fonte importante de compostos bioativos.
Por que a calcificação da aorta é importante?
A calcificação da aorta abdominal está associada a alterações vasculares e pode funcionar como um marcador de maior risco cardiovascular e cerebrovascular.
Por isso, compreender quais fatores estão relacionados à sua progressão pode ajudar na identificação de estratégias preventivas.
Os flavonoides despertam interesse por suas diversas propriedades biológicas, incluindo mecanismos relacionados ao estresse oxidativo, inflamação e função vascular.
Entretanto, o estudo apresentado identificou uma associação e não comprova que os flavonoides sejam responsáveis diretamente pela redução da calcificação.
E a suplementação?
Aqui existe um ponto importante para a prática clínica.
Embora os flavonoides possam ser encontrados tanto na alimentação quanto em suplementos, não é possível extrapolar automaticamente os resultados deste estudo para a suplementação.
A quantidade, o tipo de flavonoide, a matriz alimentar e a biodisponibilidade podem modificar seus efeitos.
Portanto, ainda são necessários estudos de intervenção para determinar se a suplementação de flavonoides pode efetivamente interferir na calcificação vascular.
Relevância para a prática magistral
O estudo reforça o interesse pelos flavonoides como compostos bioativos relacionados à saúde vascular e amplia as possibilidades de investigação de estratégias nutricionais individualizadas.
Para a prática magistral, conhecer as diferentes fontes e classes de flavonoides é importante para avaliar possíveis aplicações em formulações destinadas ao suporte cardiovascular e metabólico.
No entanto, a escolha do ativo deve considerar sua evidência clínica específica, dose, biodisponibilidade e objetivo terapêutico, evitando extrapolar resultados observacionais para uma indicação terapêutica.
Da alimentação à pesquisa clínica, os flavonoides continuam mostrando que pequenos compostos presentes nos vegetais podem ter grandes implicações para a saúde vascular.
Bibliografia consultada:
Parmenter BH; et al. Higher Habitual Dietary Flavonoid Intake Associates With Less Extensive Abdominal Aortic Calcification in a Cohort of Older Women. Arteriosclerosis, Thrombosis, and Vascular Biology, 2022.
