Genética pode explicar por que algumas pessoas vivem mais de 105 anos

Genética pode explicar por que algumas pessoas vivem mais de 105 anos

Viver mais de um século com boa saúde sempre despertou a curiosidade da ciência. Embora hábitos saudáveis sejam fundamentais para um envelhecimento bem-sucedido, pesquisadores vêm demonstrando que a genética também exerce um papel importante na longevidade extrema.

Um estudo publicado na revista eLife sequenciou, pela primeira vez com alto nível de detalhamento, o genoma completo de pessoas com 105 anos ou mais. Os resultados mostraram que esses indivíduos compartilham variantes genéticas relacionadas a uma maior capacidade de reparar danos ao DNA e controlar o estresse oxidativo, mecanismos considerados essenciais para retardar o envelhecimento e reduzir o risco de doenças crônicas.


O que foi avaliado?

Pesquisadores italianos recrutaram:

  • 81 semi-supercentenários (105 anos ou mais) e supercentenários (110 anos ou mais);
  • 36 adultos saudáveis, com idade média de 68 anos, provenientes da mesma região da Itália.

Todos os participantes tiveram amostras de sangue coletadas para sequenciamento completo do genoma. Os resultados também foram comparados com dados de um estudo anterior envolvendo:

  • 333 italianos com mais de 100 anos;
  • 358 indivíduos com aproximadamente 60 anos.

Quais diferenças genéticas foram encontradas?

Os pesquisadores identificaram cinco variantes genéticas significativamente mais frequentes entre os indivíduos com longevidade extrema.

Essas variantes estavam localizadas na região entre os genes COA1 e STK17A, e também foram identificadas na população centenária do estudo anterior, reforçando a consistência dos achados.

Análises computacionais sugeriram que essas alterações influenciam a expressão de genes envolvidos na manutenção da integridade celular.


STK17A: um dos protagonistas da longevidade

Uma das principais descobertas foi o aumento da atividade do gene STK17A.

Esse gene participa de processos fundamentais para a sobrevivência celular, incluindo:

  • coordenação da resposta aos danos no DNA;
  • indução da morte programada de células gravemente danificadas (apoptose);
  • controle das espécies reativas de oxigênio (radicais livres).

Esses mecanismos ajudam a impedir o acúmulo de danos celulares ao longo da vida e estão diretamente relacionados ao desenvolvimento de doenças associadas ao envelhecimento, como diversos tipos de câncer.


Menor atividade do COA1 também pode ser benéfica

Os pesquisadores observaram ainda redução da atividade do gene COA1.

Esse gene participa da comunicação entre o núcleo celular e as mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia.

Como a disfunção mitocondrial é considerada um dos principais mecanismos do envelhecimento celular, alterações na expressão desse gene podem contribuir para uma manutenção mais eficiente da função energética ao longo da vida.


BLVRA também chamou atenção

Outra alteração genética encontrada foi o aumento da expressão do gene BLVRA.

Esse gene participa da neutralização das espécies reativas de oxigênio, contribuindo para reduzir o estresse oxidativo e proteger diferentes estruturas celulares contra danos cumulativos.


Menor acúmulo de mutações ao longo da vida

Além das variantes hereditárias, os pesquisadores avaliaram o número de mutações adquiridas naturalmente durante o envelhecimento.

Os indivíduos com 105 anos ou mais apresentaram:

  • menor carga de mutações em seis dos sete genes analisados;
  • menor acúmulo de mutações potencialmente prejudiciais relacionadas ao envelhecimento.

Segundo os autores, essa maior estabilidade genômica pode representar um importante fator de proteção contra doenças cardiovasculares, câncer e outras enfermidades relacionadas à idade.


O que esse estudo acrescenta?

Os resultados reforçam uma hipótese discutida há anos pela biologia do envelhecimento: a capacidade de reparar danos ao DNA parece ser um dos pilares da longevidade.

Além disso, o estudo demonstra que pessoas extremamente longevas apresentam não apenas variantes genéticas favoráveis, mas também menor acúmulo de alterações genéticas adquiridas ao longo da vida, sugerindo uma combinação entre proteção hereditária e maior estabilidade celular.


Conclusão

O sequenciamento do genoma de pessoas com mais de 105 anos revelou variantes genéticas associadas a uma maior eficiência no reparo do DNA, melhor controle do estresse oxidativo e menor acúmulo de mutações ao longo da vida. Esses mecanismos ajudam a compreender por que alguns indivíduos conseguem atingir a longevidade extrema com menor incidência de doenças relacionadas ao envelhecimento e fornecem novas perspectivas para o estudo da biologia do envelhecimento.


Relevância para a prática magistral

O estudo reforça o crescente interesse em estratégias voltadas à preservação da integridade celular, especialmente aquelas relacionadas ao controle do estresse oxidativo, proteção mitocondrial e manutenção da estabilidade genômica. Na prática magistral, esses mecanismos sustentam o racional de diversos compostos bioativos empregados em protocolos de envelhecimento saudável, como antioxidantes, nutrientes mitocondriais e moléculas envolvidas na homeostase celular.

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