Zinco apresenta efeito duplo na formação de cálculos renais, revela estudo

Zinco apresenta efeito duplo na formação de cálculos renais, revela estudo

Os cálculos renais acometem milhões de pessoas em todo o mundo e, apesar dos avanços científicos, muitos fatores envolvidos em sua formação ainda permanecem em investigação. Um desses fatores é o zinco, mineral que há anos gera discussões entre pesquisadores. Afinal, ele ajuda a prevenir ou favorece a formação das pedras nos rins?

Um estudo publicado na revista Crystal Growth & Design mostrou que as duas hipóteses podem estar corretas. Segundo os pesquisadores, o zinco exerce um efeito duplo sobre os cristais de oxalato de cálcio, retardando seu crescimento, mas ao mesmo tempo criando condições que favorecem o surgimento de novos cristais.


Como se formam os cálculos renais?

A maioria dos cálculos renais é composta por cristais de oxalato de cálcio, sendo o monohidrato de oxalato de cálcio (COM) a forma mais frequentemente encontrada em pacientes com nefrolitíase.

Esses cristais se desenvolvem em uma urina supersaturada, onde sais minerais e compostos orgânicos se agregam formando estruturas sólidas. À medida que aumentam de tamanho, podem provocar intensa dor durante sua passagem pelo trato urinário.


O papel do zinco ainda era controverso

Antes deste estudo, duas teorias conflitantes buscavam explicar a influência do zinco na formação dos cálculos:

  • o zinco poderia inibir o crescimento dos cristais de oxalato de cálcio;
  • ou poderia alterar sua superfície, estimulando a formação de novos cristais e favorecendo o crescimento da pedra.

Os resultados obtidos agora indicam que ambos os mecanismos ocorrem simultaneamente.


O que os pesquisadores descobriram?

Utilizando experimentos in vitro combinados com modelagem computacional, os pesquisadores analisaram como os íons de zinco interagem com os cristais de monohidrato de oxalato de cálcio.

Os experimentos mostraram que o zinco:

  • reduz a velocidade de crescimento dos cristais;
  • modifica sua superfície cristalina;
  • promove defeitos estruturais conhecidos como intercrescimentos;
  • cria novos pontos de nucleação que favorecem o aparecimento de novos cristais.

Segundo os autores, trata-se de um verdadeiro “efeito de faca de dois gumes”.

Embora o crescimento de um cristal individual seja desacelerado, as alterações estruturais produzidas pelo zinco acabam criando condições para que novos cristais se formem.


Microscopia confirmou o mecanismo

As observações foram confirmadas por meio de microscopia de força atômica, que demonstrou a capacidade única dos íons de zinco de modificar a terminação das superfícies cristalinas do oxalato de cálcio.

Esse comportamento não foi observado quando os pesquisadores testaram outros minerais semelhantes, como o magnésio, que apresentou efeito praticamente inexistente sobre o crescimento dos cristais.

Segundo os autores, pequenas diferenças nas propriedades químicas dos minerais podem alterar profundamente sua interação com as superfícies cristalinas.


O que esse estudo acrescenta?

Os resultados ajudam a explicar por que estudos anteriores encontravam conclusões aparentemente contraditórias sobre o zinco.

Na realidade, o mineral pode exercer ações simultaneamente favoráveis e desfavoráveis durante o processo de cristalização, dependendo da etapa analisada.

Além disso, compreender como diferentes minerais interferem na nucleação e no crescimento dos cristais pode contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias voltadas à prevenção dos cálculos renais.


Conclusão

O estudo demonstrou que o zinco exerce um comportamento dual sobre os cristais de oxalato de cálcio: ao mesmo tempo em que reduz sua velocidade de crescimento, modifica sua superfície e favorece a formação de novos núcleos cristalinos. Esses achados ajudam a reconciliar hipóteses anteriormente conflitantes e aprofundam o entendimento dos mecanismos envolvidos na formação dos cálculos renais.


Relevância para a prática magistral

O zinco é um micronutriente frequentemente presente em formulações manipuladas voltadas à imunidade, saúde da pele, fertilidade masculina e suporte antioxidante. Este estudo amplia a compreensão sobre sua interação com cristais de oxalato de cálcio, mostrando que sua atuação no processo de formação dos cálculos renais é mais complexa do que se imaginava.

Para a prática magistral, os achados reforçam a importância da individualização da suplementação mineral, especialmente em pacientes com histórico de nefrolitíase, além de estimular novas pesquisas sobre o papel dos oligoelementos na modulação da cristalização urinária.

 

Bibliografia consultada:

Bryan G. Alamani, Julian D. Gale, Jeffrey D. Rimer. Zinc Ions Modify Calcium Oxalate Growth by Distinct Transformation of Crystal Surface Termination. Crystal Growth & Design, 2021

 

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